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H2T - HipHop TugaReportagem com VRZ in "Blitz" nº976 de 15/07/2003

Sem Insultos

  Afinal, VRZ só insulta em serviço. A prova está nesta conversa, pacata e civilizada, a propósito de "100 Insultos", álbum de hip hop que divide com Infamous.

  Haverá algo mais inverosímil do que um disco de hip hop feito no Alentejo? A esta pergunta a resposta que se poderá dar é: «Haverá preconceito maior do que uma questão dessas?». É que se, por um lado, causa estranheza esta manifestação de hip hop no Alentejo, por outro, nos dias que correm, é natural que qualquer estilo musical desponte onde quer que seja. Mesmo assim, o esclarecimento da dúvida impunha-se: há ou não uma comunidade hip hop em Évora? «As coisas cá em Évora simplesmente não existem», conta-nos VRZ. «Existo eu a fazer alguma coisa e é com pessoal de fora. Tenho que trabalhar com pessoal de fora se quiser levar as coisas mais à frente. Cá em Évora não há nada. Há uns amigos que se interessam, mas fazer mesmo uma coisa a sério não há nada». À dúvida de como é que alguém se lembra de fazer hip hop em tal ponto geográfico, a resposta é igual em Évora, Nova Iorque ou Nairobi: «É como tudo, como os outros se lembraram, não há nenhuma razão em especial. Quando a gente ouve hip hop a primeira vez há aquele click, gostas ou não gostas, e aquilo despertou-me qualquer coisa. Ainda por cima sou uma pessoa solitária e aquilo é uma companhia, porque vai além da música». Isso não quer dizer que o hip hop em forma de gente não fosse também uma boa companhia apreciada: «Um dos grandes problemas é eu fazer as coisas e não ter a quem mostrar, para ter uma opinião, para evoluir. É sempre bom ter alguém a dizer “isto está mal”, “isto está bem”, “devias fazer isto”, “devias fazer aquilo”. Por isso é que estou ligado àquele pessoal que conheci lá do Norte». Por «pessoal lá do Norte» tome-se nomes como Fidbek, Kiko, Martinêz, ou Bezegol. Alguns surgiram de um modo algo inesperado, os restantes pela via convencional: «Foi através da internet. O Martinêz já foi depois, num concerto, mas a internet foi a grande impulsionadora. Eu sou fundador do canal Rap [de IRC], tinha 16 aninhos e a internet tinha acabado de aparecer. A gente já tinha aquela idade de ouvir rap e fizemos o canal. Depois foi aparecendo pessoal. Éramos seis, conhecíamo-nos todos, e agora aquilo enche até mais não».

  Infamous, produtor canadiano, foi uma das pessoas conhecidas pela internet. Além de marcar pontos na questão da globalização, a amizade revelar-se-ia profícua e com resultados apresentados: «Comecei a falar com ele e disse-me que produzia, que tinha um grupo lá. Depois mostrou-me alguns instrumentais e eu gravei por cima. Mostrei-lhe e ele disse: “vamos fazer, vamos mandar para o Repto”, [o programa de rádio da Antena 3] que havia naquela altura, onde passavam maquetas. E fizemos um CD de que vendemos umas 40 ou 50 cópias, era daqueles CDs gravados em casa, o "Confiança ou Vingança", foi assim». Como em todas as relações, uma amizade destas tem altos e baixos. No caso em apreço, o ponto alto atingiu-se com uma troca de impropérios recentemente exposta em praça pública. Deram-lhe o nome de "100 Insultos", o álbum com que se estreiam e que é também um autêntico petardo de agressividade: «É essa a ideia. Deves estar a par do hip hop português. Não há nada assim. Os MCs falavam dos problemas sociais, ou eram os desgraçadinhos da música, ou então eram muito harmoniosos, muito bonitos, mas faltava esta vertente que também está ligada ao hip hop. Não é para ninguém pessoalmente, gosto de todos no hip hop português, sem eles isto não havia». Isto não quer dizer que a grande maioria das munições não sejam crivadas nas fileiras do próprio movimento: «Tem que haver sempre. Ainda por cima, como as músicas foram feitas com um grande distanciamento entre elas, há pequenas frases que podes não perceber mas que eles percebem, porque foram eles mesmo que me disseram certas coisas. Cada música tem lá um objectivo, basta descobrir de quem é que eu estou a falar. Eles sabem quem são (risos), mas também não me levam a sério, porque eu sou de Évora e há sempre aquela coisa “um gajo de Évora vem falar da gente, sabe lá ele o que diz”. Mas eu conheço-os a todos, eles é que não me conhecem a mim».

  Deve ter sido uma companhia de seguros que inventou o chavão de que o futuro a Deus pertence. Mas há quem prefira arriscar, não consta por exemplo, que VRZ goste de jogar pelo seguro, daí que os seus planos para o futuro se guiem pela inovação: «O próximo álbum já vai ser um bocado diferente. Este é numa onda mais agressiva e as músicas foram feitas com um grande distanciamento. Foram meses de intervalo entre as músicas, e o próximo já vai ser de outra maneira. Está sempre a ser preparado, mas isto é Alentejo, é tudo muito lento. Por exemplo, a primeira música do "100 Insultos"é para aí de 99 ou 2000, e o disco foi sendo feito desde aí. Só o acabámos quando o Martinêz nos propôs lançá-lo pela Matarroa». Até lá, VRZ garante ir dando notícias. Com Infamous, outros ou sozinho, enquanto MC ou produtor, há muito trabalho pela frente - e VRZ não é de lhe fugir.

  Por Sérgio Gomes da Costa para o "Blitz"

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