Rap de Intervenção
O álbum Serviço Público, de Valete, foi o murro no estômago do ano. Com um discurso revolucionário, o rapper da Damaia saltou do hip-hop underground para as playlists das rádios. A revolução está na rua?
Licenciado em Ciências da Comunicação, 26 anos, empregado no departamento comercial de uma empresa de recursos hídricos. O perfil de Keidje Lima não bate certo com a imagem de guerriheiro urbano, no mundo do rap underground, mas tal como acontece com a maioria dos justiceiros solitários da banda desenhada, o seu alter ego - Valete - pouco tem a ver com a normalidade do seu dia-a-dia. Os seus superpoderes? A música e as palavras.
«O meu chefe nem faz ideia deste meu outro lado...», comenta com o sorriso de quem desvenda um segredo. A ser verdade, isto so revela que o seu chefe não está atento. Nos últimos meses, o álbum Serviço Público deu a Valete uma inesperada exposição mediática e a sua música começou, finalmente, a passar nas rádios - o tema Os Meus esteve duas semanas consecutivas no 1.º lugar do top da Antena3. Com mais de 4 mil álbuns vendidos - «um número muito bom para um disco independente», sublinha -, Valete tornou-se num fenómeno de popularidade, muito para lá das fronteiras do circuito underground, onde já era visto como um dos mais talentosos MC's nacionais. O segredo parece estar na vertente política das suas letras. «Eu sou um dos filhos deste mundo que a luta inspirou (...) Sou o anti-herói que o povo aclamará», profetiza, no tema que encerra o disco, numa letra na qual são lembrados os nomes de Guevara, Gandhi, Arafat, Xanana, Malcom X, Luther King, Zapata e Amílcar Cabral.
O modo radical, violento até, como fala da sociedade, em rimas disparadas em todas as direcções, não deixa ninguém indiferente, mas deve ser descontextualizado: «Há miúdos que lêem as minhas letras de uma forma cega, não lêem a mensagem nas entrelinhas, e isso pode ser um problema. Já recebi mails a perguntar-me se estou disposto a pegar em armas para tomar a Casa Branca [risos]. Eu não sou contra esta sociedade, que tem coisas más mas também tem boas. Devemos é avançar, a partir das boas, para criar algo melhor. É nesse sentido que eu faço o meu rap de intervenção», explica.
No disco, ouvem-se excertos de intervenções públicas de Fidel Castro e Hugo Chávez. O discurso marcadamente político surge agora na conversa com a VISÃO. Despertou para a política durante o liceu, «por influência de um professor de Filosofia». Ainda pertenceu à Juventude Comunista Portuguesa, mas desistiu, pouco tempo depois. «Os jovens têm pouca participação nos partidos», justifica, revelando que, hoje, vota no Bloco de Esquerda. «Sempre estive muito próximo do Portugal do salário mínimo e dos imigrantes, conheço bem essa realidade», atira. Valete vive, há oito anos, na Damaia - antes morou em Benfica e na Amora - e fala com verdadeiro conhecimento de causa: «A criminalidade está muito ligada à pobreza, mas quem não conhece a realidade dos subúrbios não percebe isso. Os imigrantes continuam a não ter referências, nas quais se revejam. Não há um actor ou um apresentador de televisão negro. Se o traficante de droga é a pessoa mais bem sucedida do teu bairro, é isso que tu vais querer ser, quando cresceres.» No seu caso, isso não aconteceu. Filho único de um casal de são-tomenses, os pais obrigaram-no a estudar, e Valete ou, neste caso, Keidje, não os desiludiu, concluindo o superior na Universidade Independente. «Tirei o curso e arranjei um emprego estável, o que é bom, em termos de liberdade criativa. Assim, não tenho de estar dependente da ditadura das modas.»
As Editoras e os media são outro dos alvos das suas canções: «Já fui mais contra os media... Hoje, reconheço que é bom passar mais vezes na rádio e dar entrevistas para jornais e revistas. É um modo de chegar a mais gente.» No que toca à indústria da «música de plástico», não é tão brando: «Ainda não aconteceu a OPA das editoras sobre o hip-hop português, mas está para breve... Receio pelo futuro do hip-hop.» Para não ser mais uma vez mal interpretado, deixa cair alguns elogios às estrelas nacionais: Boss AC - «Tenho um grande carinho por ele» - e Da Weasel: «Arriscam bastante e é bom que vendam muito.» E também, claro, a Sam The Kid, que, em conjunto com Conductor (dos Buraka Som Sistema), produziu Serviço Público. «O Sam é diferente, é um verdadeiro compositor, que vai fazer história na música portuguesa e merece todo o sucesso.» Foi, aliás, com Sam The Kid que Valete deu os primeiros passos no hip-hop. «Tinha 16 anos e senti-me atraído por esse campo de liberdade de expressão infinito.» Afinal, mais do que ideologia, «o rap é revolta» e é exactamente por isso, defende, que é tão «apelativo junto dos jovens».
Por Miguel Judas para a revista "Visão"
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