O Rapper Alentejano
Vem do Alentejo um dos mais aclamados álbuns de hip-hop nacional do ano. Chama-se "Visão de Um Estranho" e é assinado por Suarez. Não estamos nos arredores de Lisboa ou nos subúrbios do Porto. Lá fora, em vez de paredes graffitadas, vê-se uma imensa planície amarelada pelo sol, e decorada, aqui e ali, por alguns sobreiros. O cenário pouco tem a ver com a imagem do hip-hop, tido como urbano e citadino; mas, como os lamas que lá fora pastam com um rebanho de ovelhas, estranhamente integrados na paisagem, também a música de Suarez faz todo o sentido aqui, no Alentejo.
O álbum de estreia do alter-ego musical de Luís Soares, um alentejano de 23 anos, nascido e criado em Beja, podia até ter sido gravado em qualquer cidade do mundo - mas não foi e é também isso que faz de "Visão de Um Estranho" um disco especial. «Vivo no Alentejo e conheço uma realidade diferente da das grandes cidades. É claro que isso se sente na minha música», reconhece Suarez à Visão. Mas a distância não lhe afectou o talento, antes o apurou, como se vê pelo bom-gosto da produção, com laivos de melodias funk e soul a sublinhar a acutilância das rimas, política e socialmente interventivas. «O Alentejo também tem muitos problemas, nesse aspecto o que não falta é assunto», diz. Temas como o isolamento, ou a falta de oportunidades, tratados de forma mais ou menos directa, estão presentes ao longo de todo o disco.
No princípio era a cassete
Lançado em edição de autor, "Visão de Um Estranho" tem distribuição nacional e já passa em estações como a Antena3 ou a Rádio Universitária de Coimbra. «Já me senti mais discriminado do que agora», confessa Suarez com um sorriso. O disco foi gravado e produzido no estúdio que construiu no monte de família, nos arredores de Beja. «Hoje basta um computador para aceder a toda a música e já se consegue gravar com toda a qualidade sem sair da casa», sublinha.
É aqui a sua base. De Suarez e dos amigos MCs e DJs, seus conterrâneos, que colocaram a capital do Baixo Alentejo no mapa doo hip-hop nacional. Todos eles participam no disco: «Podia ter convidado o Sam The Kid ou o Boss AC, mas como não os conheço parecia que fazia mais sentido trabalhar com pessoas de quem sou próximo.»
Suarez tinha 15 anos quando fez as primeiras remisturas. «Passava horas, com os meus amigos, a produzir sons, primeiro em dois gravadores de cassete, e depois na playstation», lembra. «Sempre gostei de fugir aos rituais habituais. Estarmos juntos para fazer música era o nosso ritual.» Juntos fundaram, em 2002, o Movimento Clandestino, e foi sob esse nome que deram os primeiros espectáculos ao vivo. «Seis ou sete macacos a rimar em palco, com uma beat-box a fazer barulho», mas que mesmo assim chegaram a juntar mais de 400 pessoas em frente ao palco.
Em 2005, Suarez foi o responsável pelo lançamento das compilações "Além do Tejo" e "Rusga", preenchidas unicamente com projectos alentejanos de hip-hop. Um disco em nome próprio era «um sonho antigo», agora realizado. «Este álbum é uma compilação de temas feitos em diferentes períodos. O próximo vai ser diferente, mais homogéneo», explica. Tem já algumas músicas novas, prontas para outro disco. Uma delas é a faixa "Movimentos Perpétuos", que surpreende pelo som forte e arrastado de uma guitarra eléctrica, pouco habitual no hip-hop. «O rap para mim é isto, uma fusão entre os mais diversos estilos», sustenta. A mesma razão, aliás, que apresenta para justificar os nomes de Rodrigo Leão, Sara Tavares e Fernando Girão, como os músicos nacionais que mais admira. «O Fernando Girão, então, é um verdadeiro génio. Adorava trabalhar com ele...».
Por Miguel Judas para revista Visão
|