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H2T - HipHop TugaReportagem com Sam The Kid in "Y" (suplemento de "O Público") de 09/05/2003

Sam & Paredes, o Kid e o Senhor

  Chop-style
  Há "graffiti" a cobrir as paredes à porta dos estúdios de gravação Tcha Tcha Tcha, em Miraflores. O hip-hop meteu-se com a guitarra portuguesa. Mais tarde ou mais cedo tinha que acontecer.

  Cabelo apanhado por baixo de um barrete, "sportswear", Sam The Kid entra no estúdio e atira-se logo ao "sampler". Ao fim de duas horas, Carlos Paredes terá sido reconvertido em batidas, com Carlos do Carmo à mistura. Sentado frente ao MPC (Midi Programmer Centre) trazido por um amigo, o corpo de Sam The Kid balança com os ritmos. Ouve-se uma guitarra portuguesa, um piano, um acordeão, tudo ligado por "beats". Paredes com "groove". A Vítor Espadinha já aconteceu o mesmo no álbum de Sam The Kid editado no final do ano passado, "Beats Vol.1 – Amor".

  "Era muito difícil fazer um 'loop' só com guitarra, portanto, samplei uma música que o Carlos Paredes toca com o António Victorino d'Almeida, chamada 'Improviso'. Optei por cortar mais as notas, em 'chop-style'", explica Sam. Nada muda, tudo se transforma: os Lavoisiers do "sampling" fazem música nova com fragmentos da música de outros. Uma questão de sequências e pistas, de camadas e cortes, de sobreposição e colagem. No hip-hop a tendência é samplar soul e funk dos anos 70. Ele prefere música portuguesa. "Já tinha feito coisas com guitarra portuguesa no meu primeiro CD, tinha bué fado", adianta, referindo-se a "Entre(tanto)", onde se pode ouvir, por exemplo, Dulce Pontes a cantar Amália.

  Sam já vem com o trabalho feito de casa, no estúdio limita-se apenas a fazer as misturas finais, juntar as vozes nas sequências desejadas. Como a de Carlos do Carmo, um empréstimo do álbum do fadista de 1989, "Que se Fez Homem de Cantar". "Sabia que queria pôr vozes" - faz parte do seu "estilo", garante. "Esse é um disco que eu tenho lá em casa, em que ele, ao princípio, canta em 'a capella', encaixou bem na nota." Mas, a abrir, a voz é do próprio Carlos Paredes, retirada de uma entrevista à RDP, em 1971. A frase é profética: "Seria necessário voltar a tocar esses discos, não é, como doutros, para poder avaliar bem coisas que talvez nos esclarecessem e nos abrissem novos caminhos". É isso que Sam faz. O passado não é um país assim tão distante.

  Movimentos
  É nos estúdios Tcha Tcha Tcha que a música de Carlos Paredes tem servido de pretexto para um laboratório de sonoridades, com músicos e cantores entrando e saindo à vez, para gravar um tema. Sam The Kid é um entre 20. O resultado final será um duplo CD, intitulado "Movimentos Perpétuos", tendo por inspiração e matriz o virtuoso guitarrista. 2003 promete ser o ano de Paredes, não só porque a EMI-Valentim de Carvalho editou recentemente a integral "O Mundo Segundo Carlos Paredes", cobrindo 35 anos de carreira, entre 1958 e 1993, mas porque há um ambicioso projecto de homenagem em curso, do qual o disco "Movimentos Perpétuos" é só uma ponta. A iniciativa partiu de Noélia Patrício e João Pinto de Sousa, coordenadores do projecto, e de Luísa Amaro, companheira de Paredes. O pontapé de saída foi dado a 16 de Fevereiro, a assinalar o 78º aniversário de Paredes, num espectáculo ao vivo em Coimbra, cidade-berço do autor de "Verdes Anos". Segue-se o CD duplo, a editar pela Universal, a 24 de Junho, e uma série de "movimentos" até final do ano: um livro com inéditos de 30 escritores e jornalistas, entre os quais Eduardo Prado Coelho, Fernando Alves, Francisco José Viegas, Jacinto Lucas Pires, Jorge Silva Melo, José Luís Peixoto, José Saramago, Lídia Jorge, Luís Osório, Pedro Mexia, Pedro Tamen, Possidónio Cachapa, Regina Louro, Urbano Tavares Rodrigues, Vasco Graça Moura ou Yvete Centeno; um álbum de banda desenhada, juntando duplas como Daniel Lima e Sérgio Godinho, João Fazenda e Gonçalo M. Tavares, Manuel Cruz, vocalista dos Ornatos Violeta, e Adolfo Luxúria Canibal, líder dos Mão Morta, Nuno Saraiva e Mário de Carvalho, ou autores como Luís Afonso e José Manuel Saraiva; uma exposição, em Outubro, nos Armazéns Abel Pereira da Fonseca, em Lisboa, de 54 artistas plásticos, escritores, realizadores, músicos e autores de BD; um ciclo na Cinemateca e, a finalizar, a edição de um DVD com o registo documental do projecto e investigação paralela sobre a vida de Carlos Paredes. A contagem decrescente é feita no "site" www.movimentosperpetuos.com.

  "A ideia é fazer uma investigação sobre a vida e obra de Carlos Paredes", explica Carmo Stichini, uma das produtoras do projecto. "Não há registos, o próprio Carlos Paredes não tem todos os seus discos, não guarda nada. Diz-se que deu o seu último espectáculo em Outubro de 93, mas não se tem a certeza, porque há sempre pessoas que vêm dizer que o viram depois em concerto. Queremos fazer essa investigação global e criar um 'site' que torne a sua obra acessível. Todas estas actividades pretendem gerar receitas, um fundo monetário para possibilitar essa investigação."

  Um gajo tem de dar nome ao som
  A ideia subjacente ao projecto é o cruzamento de áreas e géneros. "Lançámos alguns desafios para as pessoas saírem um pouco da sua área e fazerem outras coisas", prossegue Carmo Stichini. "O José Luís Peixoto escreveu um fado para a Ana Sofia Varela, o Sérgio Godinho vai escrever BD..." O mundo de Paredes é vasto: no disco haverá Djing (pelo projecto Shelter Av., de Miguel Guia e Tó Ricciardi), jazz (Carlos Bica, Maria João e Mário Laginha), hip-hop, fado. Mísia canta um fado escrito por Vasco Graça Moura ao piano - para além disso, Mísia fará a sua homenagem pessoal no seu próximo disco, "Canto". Os Dead Combo y sus Viboras, novo projecto de Tó Trips, ex-Lulu Blind, com Pedro Gonçalves no contrabaixo, pegam no legado Ennio Morricone e Ry Cooder ("Paris, Texas") e devolvem qualquer coisa como um "western fado". Ricardo Rocha assume-se como herdeiro directo de Paredes na guitarra portuguesa. José Eduardo Rocha compôs "Prelúdios e fugas sobre Carlos Paredes", num sinfonismo delirante de harpa e violinos de brincar, da Chicco.

  "Isto é bué arriscado", arrisca Sam The Kid. Os mentores do projecto sabem-no. "Não houve qualquer tipo de encaminhamento", assegura Henrique Amaro, coordenador do disco. "Não queríamos um disco de versões, mas um disco inspirado em... Tentámos abranger artistas completamente diferentes, de áreas muito variadas e o resultado, até agora, é muito diverso." As gravações vão, sensivelmente, a meio.

  A cada músico foi pedido um tema inédito, absolutamente livre. Houve a intenção de convocar nomes pouco convencionais. Há projectos emergentes como os Loopooloo, banda rock das Caldas da Rainha, ou os Verdes Sons, dupla de free jazz. Ana Sadio, guitarrista de Coimbra, o pianista Marco Figueiredo, António Pinho Vargas, Bulllet (projecto de Armando Teixeira, ex-Da Weasel), Gabriel Gomes (acordeonista dos Madredeus), Gaiteiros de Lisboa, o colectivo Lupanar, Rodrigo Leão e os Belle Chase Hotel, com o Quinteto de Coimbra, completam o elenco.

  O tema de Sam The Kid está finalizado, só falta uma última coisa. "Iá, um gajo depois tem que dar nome ao som, não é? Os meus títulos são muito básicos. Só há pouco tempo fui à SPA [Sociedade Portuguesa de Autores], tive que assinar em quase todas as músicas: 'Tomei consciência que existe outra obra com este título e assumo as minhas responsabilidades'."

  Feira da Ladra
  Ouvem-se os temas já gravados. Sam escuta como quem pode tirar alguma coisa. Parece um rapaz na noite de Natal, à beira de abrir os presentes. Um som pode ser um espanto. "Costumo ir à Feira da Ladra comprar discos, ainda este fim-de-semana fui lá. O que eu penso é que se gastei dinheiro num disco tenho que tirar dali alguma coisa, tem de render." Enquanto se espera por um novo álbum, há, pelo menos, pistas das mais recentes prospecções musicais de Sam: poesia, Ary dos Santos, João Villaret, e soul dos anos 70. "O homem que é o rei dos álbuns é o Roberto Carlos. Pensas que já tens todos e ainda descobres que há mais..."

  Por Kathleen Gomes para o "Y" (de "O Público")

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