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H2T - HipHop TugaReportagem com Sam The Kid in "O Público" de 22/11/2002

Mãe, pai, tomem lá este álbum

  Os pais estão na capa e não sabem que a sua história de amor deu origem ao álbum do filho. Podem ficar descansados. Dificilmente Sam The Kid poderia compor fantasias sonoras mais calorosas em torno dessa relação como em Beats Vol.1 – Amor.

  As palavras saem aos ziguezagues , para cá e para lá. Percebe-se que, para ele, deve ser mais fácil criar música. O olhar é esquivo, descentrado, mas existe uma vontade enorme de comunicar. Fala com intimidade desconcertante, das máquinas com que cria a música, das MPC 200, dos Mini-Discs, das câmaras de vídeo, dos arquivos de som e dos amigos que diz filmar obsessivamente. Fala das fantasias instrumentais que criou de forma artesanal a partir de casa como se fossem a sua rotina.

  No final da conversa deixa escapar. “Não entendo o que se escreve sobre mim. Às vezes exagera-se. Tratam-me como se já estivesse morto”, ri-se. “Não creio que este álbum seja especial, são apenas batidas [temas instrumentais]. Não me deu trabalho. Bastou escolher 17 das centenas que tenho gravados. O próximo álbum, sim, vai ser mais cuidadoso. Trabalho, para mim, é escrever. Isso, sim, é difícil. Sou exigente, já não me interessa a rima, a última sílaba. Quero a poesia. Este é apenas um disco de batidas, nada mais”. Este é “Beats Vol.1 – Amor” de Sam The Kid, provavelmente o álbum mais radioso este ano lançado em Portugal.

  Fotos de família

  Para a maioria, Sam The Kid é um desconhecido. No entanto, no seu currículo já constam dois álbuns. Discos de baixo custo, a partir de materiais rudimentares (o sampler mais barato do mercado, um microfone e um gravador de CD) e de distribuição limitada. No final de 1999, quando nos cruzámos com ele pela primeira vez, tinha acabado de lançar “Entre(tanto)”, o primeiro álbum de hip-hop português em edição de autor.

  “Gosto de experimentar coisas diferentes”, dizia. “No hip-hop toda a gente sampla soul e funk dos anos 70. Comecei a utilizar outras fontes, como a música portuguesa”. E, na verdade, lá estavam referência inesperadas como Mário Viegas a recitar Almada ou Dulce Pontes a cantar Amália. Na capa do disco, outra surpresa: uma foto da família, onde figurava o próprio Sam.

  Seguiu-se, já este ano, “Sobre(tudo)”, e um fenómeno de culto que já lhe permitiu vender três mil exemplares e actuar em festivais de Verão. Chega agora “Beats Vol.1 – Amor” num lançamento da Loop Recordings que correspondeu a um repto mentor da editora, Rui Miguel Abreu.

  “Já me tinha desafiado a criar um álbum de instrumentais em 99. Nessa altura ainda trabalhava com uma Boss [sampler]. Cheguei a mandar-lhe três CD com batidas da Boss. Depois ele emprestou-me a primeira MPC. Ao princípio achava a máquina complexa, mas apaixonei-me. Fechei-me no quarto, fiz mais algumas batidas e criei o álbum.”

  Uma das mais- valias do disco é o fio narrativo que se desprende dos interlúdios, dos pormenores, naquilo que é sugerido e apenas podemos imaginar. “Tentei que existisse uma lógica, mesmo se ela funciona apenas para mim. O álbum é a forma como olho para a história de amor dos meus pais. Consigo ver isso, espero que as pessoas também, mas cada um pode construir a sua história. É como um quadro feito por um pintor, cada um vê uma coisa diferente… O segredo são os interlúdios que estabelecem a ligação dentro da minha cabeça.”

  Na cabeça de Sam The Kid é a história de amor dos pais, feita de encontros; separações e reencontros. A maior parte desses acontecimentos são-nos dados através de samplers vocais, alguns deles de música ligeira portuguesa. “As fontes são dos anos 60 e 70. Gosto muito dos trabalhos do Duarte Mendes… O hip-hop é isso, é descobrirmos as coisas que não conhecíamos… Alguns desses discos são dos meus pais, outros comprei-os, outros retiro-os da TV ou da Net.”

  Sam sabe a proveniência dos sons e a todos atribui um sentido. “A relação com as músicas passa pela ligação afectiva com os samplers”, argumenta. “Sei qual é a base principal de um tema, apesar de lhe acrescentar outros elementos.” De repente, sem que lhe tivessemos pedido, começa a descrever as faixas, como se fosse um escritor de canções. E não é?

- “Beleza é baseado num disco dos Commodores e é o meu pai a olhar para a minha mãe. É amor à primeira vista.”
- “ O que eu quero é o assumir que aquela mulher é a tal. Nessa faixa, existe uma voz minha a cantar para uma câmara de vídeo. Gosto de vozes nas batidas. Vozes de amigos, telefonemas que gravei, vozes de cassetes eróticas, coisas de telenovelas, risos da minha namorada. No fundo, samplo tudo o que me rodeia, a minha vida.”
- “Sedução é Vítor Espadinha e é o meu pai a bater coro ao telefone. Nesse tema, samplei uma conversa de um amigo com uma rapariga sem eles saberem.
- “Vem é Marvin Gaye, é quando acontece o primeiro beijo.”
- “Eternamente hoje contém a Minnie Riperton. É quando se trocam palavras de amor mútuo. É o amor em estado de graça, tudo é perfeito.”
- “Alma gémea é Maria Bethânia. É o momento do casamento.”
- “A fundação é David Axeldrod e o casamento da minha irmã mais velha. Depois, começam os problemas, a relação cansativa com o dia-a-dia.”
- “Fogo sem chama é Curtis Mayfield.”
- “Em Lances, ele conhece outra mulher e vai para a cama com ela.”
- “A manhã seguinte é Duarte Mendes… É o momento em que ele acorda e se sente culpado.”
- “Conta à mulher, existe discussão e vai-se embora em Até um dia
- “Mais tarde, pára para pensar e existe Arrependimento. Volta a relacionar-se com os seus amigos, conta-lhes os grandes momentos que passou com a mulher. Um amigo diz-lhe: Esquece isso, mas ele não consegue esquecer, não pode esquecer.”
- “Começam as saudades, reencontram-se, fazem amor mas não ficam juntos.”
- “O Quando a saudade aperta é baseado num poema de um alentejano amigo do meu pai. Aliás, ele vai entrar no vídeo que estamos a preparar.”
- “Eu e tu é Groover Washington Jr., enquanto o Recaída é retirado de uma fala do Sean Penn.”

  Faz-se, fazendo

  A outra paixão de Sam The Kid é o cinema (estudou produção de vídeo). Anda de câmara na mão, a filmar o que o rodeia. “Já fiz uma média metragem de 20 minutos… Tenho uma cassete que se chama vídeo-Chelas. É como se fosse um canal de TV onde registo tudo. Coisas reais, como as sessões de gravação com os amigos, mas também ficções. Tenho várias coisas gravadas a partir de uma personagem, o Peiadura, que é um traficante, e uma outra, o Megaferras, que lê o pensamento.”

  Mas a imaginação delirante de Sam The Kid não se fica por aqui. “Num outro filme, a personagem principal é o Byters que sou eu… Vão a minha casa para me copiar. Depois, roubam-me as letras e os discos. Passados cinco meses estão num programa de hip-hop português com as minhas músicas, tornam-se famosos e ninguém acredita que aquilo é material meu.”

  É ficção, mas podia ser realidade. Porque Sam é o pólo aglutinador da cena hip-hop de Lisboa.

  A maior parte dos discos que têm sido editados contam com a sua participação nas feituras das bases sonoras. “Gosto de colaborar com os amigos, tal como eles participam nestes projectos. São coisas imperfeitas, mas trata-se de evoluir. E é uma fonte de informação tremenda. A música, os vídeos. São expressões de acontecimentos, daquilo que sou, somos. Curto bué isso.”

  Era perceptível que, nos últimos anos, existia algo a acontecer no hip-hop em Portugal: lojas, agentes, DJ, produtores, circuitos e um público interessado. Este ano, aconteceram as edições de discos. O discurso ainda é virado para dentro, a qualidade não é a ideal, mas uma nova geração vem dizer à música portuguesa algo tão simples como isto: faz-se fazendo-se. “Existe gente a queixar-se, mas basta olhar para trás para saber que algo mudou. Este ano, todos os meses saíram álbuns. É um fenómeno único, apesar de, em parte, isso se dever aos baixos custos de produção, mas não interessa. Estão a acontecer coisas. É isso que vai dividir as águas e mostrar quem merece continuar e quem vai ficar pelo caminho.”

  Os pais de Sam The Kid ainda não sabem que são protagonistas do novo álbum do filho. “Quando lhes disser vão ficar satisfeitos, mas provavelmente não vão ligar muito. Agora, toda a minha família ouve os meus álbuns… Não gosto disso… Tenho de pensar em mim, não me posso preocupar se os meus tios e primos vão ouvir o que faço”, ri-se.

  Samuel Mira, mais conhecido por Sam The Kid, tem 22 anos e vive com a mãe, em Chelas, Lisboa.

  Por Vítor Belanciano para o "O Público"

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