Juventude (é qualidade)
Samuel Mira não tem ainda total noção do papel que desempenha no actual panorama musical Made in Portugal. «Beats Vol. 1 – Amor», registo instrumental datado de 2002, havia já conquistado novos adeptos. Agora, e com «Pratica(mente)» em mãos, o rapper ascende à categoria de essencial no relato urbano em versão cantada. Sam The Kid, ao vivo e a cores.
Pela primeira vez Sam The Kid saiu do seu estúdio caseiro e foi registar canções noutros locais, como é disso exemplo o estúdio da Enchufada, onde decorreu a entrevista. Uma nova experiência com os seus prós e contras.
«Foi uma experiência nova apesar de já ter tido algum contacto com outros locais de gravação quando participei nalguns álbuns de amigos. A grande vantagem é que tenho acesso a uma qualidade sonora que é impossível de obter em gravações caseiras. O contra é que em casa posso gravar quando bem me apetecer, e no estúdio tenho de ter em conta a disponibilidade do espaço e nem sempre a mesma coincide com a minha vontade (risos)».
O método de trabalho de Samuel: sem aparente plano mas devidamente orquestrado e dirigido para o produto final que vê em «Pratica(mente)» atestado máximo de qualidade.
«Não existe um método padrão para mim na concepção das músicas. Às vezes posso ter uma ideia de uma música mas não ter qualquer ideia de letras, mas por vezes também se pode dar o caso de ter uma batida tão boa que preciso de encaixar texto ali. Cada caso é um caso muito específico. Em grande parte das músicas deste álbum as batidas originais acabaram por não ser as finais. Mas o que eu aconselho sempre é que as pessoas escrevam direccionadas para as batidas».
A aclamação geral em redor da novidade do rapper tem sido quase total. Autor de um dos mais celebrados registos de 2006 em terreno nacional, Sam The Kid alia todo o protagonismo mediático a um espírito underground. Não?
«Depende do que quiseres dizer por underground. Se te referes à atitude e à pessoa ser fiel aos seus princípios logicamente que sim. Tento sempre ter os pés na terra. Não faz sentido ser outra pessoa somente por ter algum mediatismo, e se por acaso nalgum momento tiver uma postura não ajustada a quem sou serei o primeiro a reconhecer que posso ter estado mal. Mas toda esta boa recepção ao «Pratica(mente)» tem sido incrível».
As origens (pessoas, lugares, atitudes) são marca básica na identidade Sam The Kid. Com transposição directa para a obra musical.
«No rap é quase obrigatório dizeres de onde vens, é algo culturamente presente. Tenho muito orgulho em assumir que sou de Chelas, sempre vivi ali e já me custa estar muito tempo afastado daquela área. É um bocado como o perímetro dos táxis, custa-me ultrapassar a primeira tarifa [interior de Lisboa] para a segunda [arredores] (risos). É uma coisa natural, é o meu redor. E gosto de abordar Chelas mas também tento não repetir temas, falar de forma dinâmica».
A promoção de «Pratica(mente)» ajustou-se ao ano que recentemente findou: YouTube e MySpace foram alicerces fundamentais, em contextos diferentes daqueles até há tão bem pouco tempo vividos.
«É uma questão de nos habituarmos aos dias em que vivemos. Muita malta nova pergunta-me de que forma devem começar a divulgar música: a verdade é que os meios estão todos aí à disposição de quem quiser. Antigamente era tudo à base de enviar K7s para as rádios, algo que hoje em dia é completamente insuficiente. A Internet é uma máquina fortíssima de promoção e não é a pirataria que me faz mudar de ideias».
Por Pedro Figueiredo para www.discodigital.pt
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