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H2T - HipHop TugaArtigo sobre Sam The Kid in "Diário Digital" - www.diariodigital.pt - 09/02/2002

DICAS
  «Beleza Interior»

  Pausado em Gent, na Bélgica, estou a ouvir o último CD do grande Michael Franti com os Spearhead numa sala aquecida que faz esquecer o frio que faz lá fora, com uma ajuda preciosa de um bom tinto. Além do tinto, só duas coisas me ligam neste momento à querida «tuga»: uma revista que comprei no aeroporto e um CD. É sobre este último que vale a pena falar um pouco.

  O álbum chama-se «Sobre(tudo)» e pertence a Sam The Kid, um rapper/produtor de Chelas. The Kid? Sim, o Sam tem 22 anos, mas no que toca à sua paixão, no que toca a viver o hip- hop, a sentir o hip-hop e a fazê-lo respirar, o Samuel é tudo menos um puto. Eu que o diga. Quando o conheci, cerca de 1996/97, já ele andava bem empenhado a fazer aquilo que nasceu para fazer: rimas e batidas. Na altura eu apresentava, em parceria com o K.J.B.(ex-Black Company), o programa «Ataque Verbal» na extinta Fm Radical. Strictly hip-hop. Recebemos uma maquete que nos deixou com vontade de saber mais sobre o tal puto de Chelas. E fomos saber.

  Com apenas dezassete anos, o puto Sam já tinha álbuns «imaginários» na prateleira, com direito a telediscos concebidos e gravados pelo próprio, com pouca ajuda, mas com muita pica. Tudo feito no seu quarto mágico. Ficámos impressionados. Quem não ficaria?

  Entretanto, muita coisa se passou. A maior parte dos elementos do «movimento» da altura dispersou-se, os contactos foram diminuindo e eu afastei-me – por motivos pessoais – quase totalmente do hip-hop que se faz na «tuga». Em casa e fora dela. Gostei de ver o que o A.C. (Boss AC) e o Gutto (ex-Black Company fizeram através da sua No Stress Records, nomeadamente da compilação que lançaram, «T.P.C.».

  Há um par de semanas recebi, através da colaboração que mantenho com a Antena 3 (com a rubrica diária «Mercado Negro»), o álbum «Sobre(tudo)». Preparava-me para gravar a semana inteira e já tinha todos os temas escolhidos, mas bastou- me picar o Cd durante uns breves minutos para escolher uma canção e passá-la para o computador.

  Curiosamente, no sábado seguinte, vejo, ao reler o «Y» do dia anterior, um artigo sobre o concerto dos ingleses Braintax, com prestação do DJ Harry Love e primeira parte assegurada por Sam The Kid. Se há coisa que concordo com a inefável Lili Caneças é que também não acredito em coincidências. O evento iria decorrer daí a meia-hora, na galeria Zé dos Bois.

  Quarenta minutos depois estava lá.

  Depois de um aquecimento eficiente por Harry Love, Sam subiu ao palco para apresentar o novo disco. O público aderiu entusiasticamente a uma boa dose de excelentes rimas e beats, com atitude q.b., proporcionadas por Sam e o seu sidekick GQ. Depois do seu concerto, assisti a um par de temas de Braintax e vim-me embora. Já estava de barriga cheia e parece que alguém tinha acabado de «levar uma ratada»...

  Desde então «Sobre(tudo)» tem sido presença habitual no «Mercado Negro». Porque é o espelho de um rapper que escreve com uma acutilância e sensibilidade incríveis, lado a lado com instrumentais requintados. E numa altura em que muito hip-hop vive de «show off» é reconfortante ouvir alguém dizer coisas como: «não quero, nem tenho a fama de garanhão/ furar damas sem ter o mínimo de atracção/ foda-se parece que é obrigação/ tipo uma competição, tipo bifas no Verão (...) beleza interior/ com sabor a espontaneidade/ que se torna muito superior/ ao reflexo de um vidro que reflecte uma face/ expressões atraentes de uma mente com classe» (em «B.I.»).

  «A cota Isabel manda B.I.», diz o Samuel. Sabes o que nós dizemos, puto? Tu também mandas. Tu também...

  «Sobre(tudo)», edição independente com distribuição e promoção asseguradas pela Edel encontra-se à venda em várias discotecas, mas apanham-na de certeza na KingSize.

  Por Puto Pac para o "Diário Digital"

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