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H2T - HipHop TugaReportagem sobre Red Bull Street Gallery in redbullstreetgallery.com - 05/2007

Red Bull Street Gallery

Nota H2T: O texto que se segue diz respeito à iniciativa Red Bull Street Gallery, levada a cabo pela Red Bull Portugal www.redbull.pt. Uma "operação relâmpago" programada para a madrugada de 18 Maio 2007, em jeito de celebração do dia internacional dos Museus. O desafio era criar um conjunto de mupis/10 A0 a fixar temporariamente durante a noite junto a varios museus na cidade de Lisboa, numa intervenção simbolica que fortalece "o sonho de transformar as ruas em galerias de arte". Dez artistas urbanos portugueses protagonizaram a acção (Paulo Arraiano, MinimalAnimal, Ram, Addfueltothefire, Skran, Kusca, Mar, Quill, Vhills, Sphizza) e falam agora sobre a experiência numa entrevista produzida e divulgada pela própria Red Bull Portugal.

PAULO ARRAIANO - Museu do Design e da Moda (Futuro MUDE), Rua de Sta Catarina

"A escrita, a palavra, a mensagem, a música que a rua nos pode trazer são marcantes no meu trabalho. As técnicas e os meios são irrelevantes - a mensagem e o processo é que contam.
  Irei apresentar um conjunto de 5 mupis que interagem com o futuro Museu do Design e da Moda (MUDE). Terá um conjunto de personagens que irão estar presentes no espaço sem terem sido convidadas. Estas figuras darão a sensação de que a rua está a interagir com o museu.
  Actuo na relação entre espaço aberto e livre a qualquer mensagem versus espaço fechado e sujeito a determinadas restrições que alimentam o dogma do museu enquanto espaço sagrado. A minha obra também é um manifesto no sentido em que gosto e acredito no design embora não compreendo como é formatado. Por isso o Museu do Design é um bom espaço para soltar criaturas e deixar que elas façam o seu trabalho.
  O que mais me chama a atenção no sitio onde vou expôr é o rio Tejo, a maneira como a cidade olha para o rio. O Tejo, o Adamastor e Sta Catarina são um mundo infindável de símbolos, monstros santos e criaturas. Uma bela festa!"

Uma cidade inspiradora: "Lisboa, porque aqui se conseguem encontrar mil histórias em cada recanto."
  Uma cidade artística: "Depende da perspectiva: em Nova Iorque ou Londres encontramos inúmeros espaços de arte; por outro lado, em Roma, Barcelona ou Paris, há um património inesgotável."
  A cidade preferida em relação à arte urbana: "Barcelona: o espaço urbano e as intervenções são um todo."
  A cidade com mais vibração na rua: "Barcelona."
  Uma bela cidade: "Florença."

www.pauloarraiano.com

MINIMALANIMAL - Museu Escola das Artes Decorativas / Fundação Ricardo Espírito Santo, Largo das Portas do Sol, 2

"Comecei a fazer arte urbana em 1998, mais concretamente graffiti através da influência de um amigo. Em 2004 comecei a utilizar o stencil como base dos meus trabalhos, e desde então tenho vindo a desenvolver essa técnica. Sinto que nunca tive influência por parte de outros artistas, pois tento fazer sempre algo diferente, mais complicado que supere o que fiz anteriormente. Como tal, pratico o stencil sem ajuda de qualquer programa informático; o grande desafio do stencil é esse: criar por mim mesmo as diferentes camadas, personalizando o que tento representar.
  Mais recentemente tenho desenvolvido os meus trabalhos com base em suporte e não tanto na rua, o que me tem possibilitado desenvolver a sensação de tridimensionalidade, através da utilização de um maior número de layers, e aproximar-me mais do realismo.
  Perto do Museu Escola das Artes Decorativas / Fundação Ricardo Espírito Santo, irei apresentar uma obra cuja figura principal é uma geisha. Pensei nesta figura como forma de conceber algo com originalidade, realismo e diversificação. No entanto, há um objectivo que não vou apagar da minha mente: Criar um choque com o espaço envolvente."

Um slogan para a tua arte: "Outra forma de represenação."
  Um slogan da arte urbana: "Harmonia com o espaço."
  Um slogan que nunca te tenha saido da cabeça: "Click me on."
  Um slogan para o que vais criar no Red Bull Street Gallery: "Todo o lugar, todas as pessoas, têm o seu quê de geisha."
  Um slogan de vida: "Viver o dia como se não houvesse amanhã."

www.fotolog.com/minimalanimal / stencilorg.blogspot.com

RAM - Casa Museu Dr. Anastácio Gonçalves, Av. 5 Outubro, 6-8

"Desde que me lembro que a rua e a natureza são os meus locais de diversão. Foi aí que comecei a fazer skate aos 11 anos e alguns anos mais tarde o mar chamou-me: com 16 iniciei-me no surf . Mas há um sitio que sempre habitou comigo e me contagiou, é Sintra, a sua natureza, a sua força e mística que me foi transmitida pelo meu avô. São estes os locais que me impulsionam a criar - desde sempre.
  O meu primeiro contacto com latas spray foi aos 12 anos. Como era adepto de skate, e era natural exprimirmos os nossos sentimentos e emoções, pintei duas frases clássicas: sk8 is not a crime e sk8 for f1. Inundei Sintra com essas palavras de ordem, numa altura em que já me fazia acompanhar por cadernos de desanhos e lápis de cor para rabiscar as ideias que me surgiam na cabeça.
  Estudei Arte e Design Gráfico, trabalhei em vários estúdios e comecei na arte urbana de forma mais profunda e empenhada em 1996. Desde 1999 sou um artista visual freelancer.
  Outras influencias foram-me transmitidas a partir de jogos de computador e os seus inesquecíveis gráficos - é impossível esquecermos a quantidade de vezes que vimos e ouvimos os sons a 8-bit com a frase Tape Loading Error escrita no ecrã.
  Falar do que vou fazer nesta iniciativa é invocar o exercício de improvisação. Tudo o que faço é freestyle, é partir em busca de ideias, a partir do que sinto e tendo em conta os diversos equilibrios que devem existir numa obra. É este o meu modo de trabalho mas também a minha forma de estar na vida.
  As minhas criações são uma história, originada pelo momento e produto das circunstâncias. É uma vibração que me guia, vinda de mim, das pessoas que me rodeiam, da natureza, da rua."

www.fotolog.com/trans_former / www.theram.net

ADDFUELTOTHEFIRE - Museu de S.Roque / Arte Sacra, Largo Trindade Coelho, Igreja de S.Roque

"O meu trabalho não é arte sacra na sua essência. Tenho influência dessa disciplina, mas também devo muito à ilustração, aos comics, desenho e design gráfico. Gosto de expressar humor, integrando a estética dos filmes de sci-fi, de 70/80, e também de filmes de horror B.
Essas influências levam-me a criar com o objectivo de transmitir visões alternativas. As obras que vou apresentar têm temas relacionados com religião, dado expor perto de um museu de Arte Sacra. A ideia é dar uma visão colorida a diferentes aspectos da religião e fazer com que o observador dê um segundo olhar ao que, teoricamente, é o caos afixado perto de um museu.
  Inerentes ás minhas obras estão ópticas alternativas aos dogmas religiosos, ao mesmo tempo que formulam perguntas familiares. Por exemplo, na obra Creation questiono quem criou o quê e quando? É impossível estar a elaborar uma peça sem me abstrair do próprio Museu de São Roque. Não o seu espaço físico, mas sim o que ele representa - foi isso que me cativou para a criação das obras."

Uma cor para te descrever: "O preto: identifico-me com algo que é o que é e não há espaço para suposições."
  Uma cor que descreve a criatividade: "Branco. É importante usar o branco com sentido: nunca é facil deixar o tal espaço em branco."
  Qual é a cor que melhor assenta nas ruas de Lisboa: "Não apenas uma cor, mas quatro: o branco com prateado e dourado reforçados com preto."
  Que cor melhor descreve a ironia: "Só pode ser rosa. Encaixa bem com tantas cores, traz vida ao suporte e é fashionable."
  Qual é a cor para a música: "Amarelo Dourado. Tem boa disposição e a luz do amarelo dourado é a vida do sol."

www.addfueltothefire.com

SKRAN - Museu Nacional de Arte Antiga, Rua das Janelas Verdes

"Comecei na arte urbana em 2003 com o meu irmão [Minimal Animal]. Do incentivo mútuo e competição saudáveis para irmos fazer coisas boas para a rua, acabámos os dois a pintar a rua em conjunto.
Eu tenho predilecção pelo stencil, que é a técnica que mais utilizo. O meu trabalho caracteriza-se por uma distorção da realidade, distorcer a imagem da mesma maneira que é distorcida pela nossa realidade hoje em dia. Quero que as pessoas olhem para a minha arte e façam uma auto reflexão da sua vida e realidades. Eu acho que hoje em dia os cidadãos vivem apagados, agem por nenhuma razão, fazem porque têm comportamentos automatizados.
  Neste sentido a minha obra tem como objectivo levar o observador a sentir o desenho, a reflectir sobre a sua realidade e a sua existência. Perto do Museu Nacional de Arte Antiga colocarei as obras na zona mais alta, para que chame atenção a quem passa de longe e irem ver de perto, porque é no pormenor que está a virtude. E visto que o espaço é junto de uma fonte, quero fazer a relação cidade/natureza."

"Pintaria na parede da Assembeleia da República, um conjunto de homens de fato sentados de cara distorcida, por falta de identificação e de palavra dos mesmos."

"Desenharia na parede do Museu do Louvre a cara da Mona Lisa, com 90 anos, para simbolizar o quadro que nunca envelhece."

"Na parede da casa do Marlyn Manson não gastava um pingo de tinta."

"Gostava de pintar na parede da casa do Fernando Pessoa a sua própria cara com uma coroa - para mim ele é o melhor português de sempre."

"Na parede do Banksy fazia uma coisa bem grande e boa para provar que os artistas portugueses também dominam a arte do stencil."

flickr.com/photos/25259657@N00 / www.fotolog.com/skran

KUSKA - Museu de Arte Popular, Avenida Brasilia, ao CCB

"As minhas referências são de várias latitudes; RGB, CMYK, TV, rádio e as clássicas cassetes pirata. Não me esqueço dos livros e muito menos das revistas da especialidade, ou especialidades que me atraem - e são várias. Quando crio uso preferencialmente técnicas de stencil, prints, pen e, não menos importante, discutir ideias.
  Para o Red Bull Street Gallery criei uma peça para estar junto do Museu de Arte Popular, que posso chamar de: Frente Museu A.Popular - Decomposição para poster A0 - ou o fim do cinzentismo.
  Baseei-me na arte popular, e o que ela representou neste espaço para agitar algo conotado como arte popular - criação artistica e museu; também esbocei algo para agitar e fazer olhar, pensar, fazer mais.
  O conteúdo da minha obra interliga-se com o museu pelo facto de durar pouco tempo, ou seja, pouco mais de um dia. Pretendo que seja uma experiência gráfica que viva com o edifício e o tema proposto, que brinque com o museu, com o formato dos prints e da informação apresentada.
  É impossível ser indiferente à carga que este museu acarreta: o local onde está, o seu historial e o que representa. A arte popular, ou a noção que tenho dela é a de existir uma política muito presente, assaz tosca na forma mas também bastante cuidada ideologicamente. Para o bem ou para o mal..."

Um ícone da arte urbana: "Grafitó"
  Um ícone de Lisboa: "Carlos Paredes"
  Um ícone de um museu em Lisboa: "Isso agora não por favor!..."
  Um ícone da tua vida: "?"
  Um ícone do Séc. XXI : "Mouse cursor pointer."

www.flickr.com/photos/k_delights

MAR - Casa Museu Fundação Medeiros e Almeida, Rua Rosa Araújo, nº 41

"A principal característica dos meus trabalhos... deve ser a construção de personagens e fundos - onde utilizo a deformação para criar ilusões em situações poico comuns. É esta orientação que vou seguir para os cartazes intitulados: OUTLAWSERIESFFIVANDALSRESEARCH_07.
  O seu conceito anda à volta do próprio artista de rua, o seu mundo e materiais que utiliza para levar a cabo os seus propósitos; passando uma mensagem ao traseunte mais atento, despertando-lhe dúvidas. O objectivo é o de despertar novas atenções e questionar porque eu vejo o museu no sentido mais amplo e não tão objectivo como o senso comum.
  É uma instituição que alberga obras de arte, que foram catalogadas como tal, mediante padrões pré-estabelecidos. De uma forma paralela, na arte urbana as ruas são os museus e as paredes telas. Há que filtrar e compreender as várias mensagens e códigos, mas a minha obra tem uma ligação indirecta com todos os museus, não necessáriamente com este ou outro qualquer - há que manter essa individualidade na abordagem para existir um conceito sólido e vitalizar as ruas enquanto espaço de arte por excelência."

Um personagem de banda desenhada: "Demolidor, o homem sem medo, desenhado por Frank Miller."
  Um personagem da tua cidade: "Xico Maravilha, artista circence, tem sempre um truque na manga."
  Qual o personagem mais singular da arte urbana: "Na arte urbana todos são singulares, mas é impossível não falar do Banksy: está num patamar acima de todos."
  Um personagem cómico: "Kramer da série Seinfeld; na BD será Chiclete com Banana e seus personagens."
  Um personagem inigualável: "Todos aqueles que perseguem os seus sonhos, sem nunca desitirem e manterem-se fiéis aos seus ideais."

www.fotolog.com/mar_leg

QUILL - Museu da Marioneta, Rua da Esperança, 146

"Desde muito cedo que a BD me fascinou nomeadamente Marc Silvestri e Frank Miller. Tem estado sempre presente em mim a importância do desenho; inicialmente não passava de reproduzir as páginas das BD da Marvel e DC e creio que a evolução e procura de uma linguagem pessoal foi natural. Isso deve ter influência no que vou criar; cinco mupis cujo conceito é tentar criar um ambiente perturbante explorando a tal ideia meio spooky que as marionetas me transmitem. O objectivo é fazer com que as crianças do bairro não consigam dormir na noite seguinte com medo das marionetas!
  Gosto muito de usar as linhas: rectas, paralelas, curvas, aleatórias, tracejados; e a cor é outro ponto, tento sempre manter alguma coerência e harmonia cromática. Gosto de usar as paredes como folhas de papel gigantes."

A ideia mais bizarra que tiveste: "Abrir um restaurante em que a especialidade era puré de batata com batatas vindas do Peru."
  A ideia mais criativa que te apareceu na mente: "A ideia de desistir [temporariamente] do restaurante."
  Com que ideia abordas a arte urbana: "A arte que fazemos reflecte quem somos. Na minha fase inicial tinha ideias mais alegres mas com o passar do tempo tornou-se tudo menos concreto e mais abstracto ao ponto de as minhas obras perderem a forma concreta - o que deixa em aberto a sua interpretação."
  Artistas urbanos com mellhores ideias: "Gosto muito do trabalho do Lister, Chris, Yormick, David Frost, Baglione, Gémeos, entre muitos."
  Uma ideia para o Museu da Marioneta : "As marionetas sempre me fascinaram pelo seu aspecto sombrio e até assustador quando deviam fazer o contrário e é precisamente esse lado spooky que vou explorar."

www.fotolog.com/quill/8161025

VHILS - Museu de Arte Moderna [José de Azeredo Perdigão], Rua Dr. Nicolau de Bettencourt

"Para mim arte urbana é a maneira que encontramos para personalizar todo este nosso ninho artificial, visando através da cor, formas, da naturalidade - que sempre caractrizou o ser humano -, devolver às ruas da cidade a humanidade que as deveria rechear.
  Em resultado do modelo urbano todos os dias caminhamos anestesiados pela cidade cinzenta e uniforme. A arte urbana, na minha opinião, tenta que o cidadão se aperceba da realidade em que vive e, se possível, se torne também num interveniente deste espaço que é de todos: o espaço visual urbano. Encaro a arte urbana como uma forma de reacção natural contra esta urbanidade do betão e do negócio, uniforme e artificial, que nada tem a ver com a natureza de que o homem é originário. É com esta lógica que apresentarei uma obra que será uma crítica a um aparente ícone nacional, apenas com o intuito de questionar."

O primeiro desenho que fizeste: "Os primeiros que me lembre tinha praí uns 3/4 anos: aqueles desenhos básicos da casinha na ilha com uma palmeira."
  O primeiro writer que te surpreendeu: "Banksy: usou o poder do graffiti e do stencil para passar uma mensagem, com algum humor negro e anonimato, que tanto alimentou os media."
  Que pintor te fez surpreender pela primeira vez: "O Sector, um bomber da Margem Sul - em cada canto ele estava lá. Bizar também é surpreendente."
  A primeira obra de arte urbana que elaboraste: "Já não sei se foi numa fábrica abandonada ou se foi na paragem de autocarro no final da minha rua. Foi por volta de 2000/2001."
  A tua primeira ideia quando crias: "Intervir, Questionar e Atacar."

www.alexandrefarto.com / www.fotolog.com/vhils

Original em: redbullstreetgallery.net/artistas.pdf

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