Música sem preço
Em breve , o mapa hip hop passará a ter uma nova morada. É uma garagem em Leça, sala de ensaios dos Expensive Soul (e sede da Max Records), onde se congemina um dos mais interessantes discos de fusão do género. Foi lá que falámos com Tiago Novo, aliás New Max, numa conversa que antecede o princípio de muita coisa.
Os Expensive Soul já levam uns anos disto. A formação tem cerca de cinco anos, os concertos já foram muitos, mas só agora o sinal do microondas os declara prontos a servir. A formação nuclear do projecto resulta da união de Mr. Demo (MC) e New Max (MC/Produtor): «Começou por uma brincadeira, éramos da mesma turma e ele [Mr. Demo] pediu-me para fazer um instrumental para mandar para um concurso da Antena 3. Fizemos essa brincadeira, uma música, e ele ganhou. O prémio era tocar ao vivo na Antena 3 e fomos lá». O entendimento criado entre ambos e o destino do percurso musical de New Max haveriam de solidificar esta relação: «Na altura ele já estava na cena hip hop e eu estava numa banda rock/funk que eram os Buzz. Entretanto, essa banda acabou e ele pediu-me para seguir com ele no projecto Expensive Soul, que já tinha criado. A partir daí começámos a fazer temas, fizemos uma primeira maqueta – só para nós – e fomos fazendo vários concertos pequenos, em escolas, até que passado algum tempo apareceu a oportunidade de fazer as primeiras partes de uma digressão da Kika Santos [por volta de Setembro de 2001]. Começámos a interessar-nos mais e fomos trabalhando cada vez mais».
Destes anos de trabalho resultou o material e maturidade suficientes para o lançamento de um disco, algo que se espera para breve: «Estivemos em estúdio a gravar. Gravámos os temas todos e o disco vai sair, seja por editora ou independente. O projecto já tem cerca de cinco anos e só agora vai sair um disco, o que por um lado até é bom. Só agora nos achamos com maturidade suficiente para gravar. Se calhar, se saísse há dois anos não íamos ficar satisfeitos. Podia ter saído antes, já tínhamos material suficiente para isso, mas agora temos uma coisa que ouço diariamente, que mostro às pessoas, e sinto-me bem a ouvir, uma coisa de bom gosto. E também estamos agora com a cena da banda…». A banda é a Jaguar Band, criada há cerca de dois meses e formada por cinco elementos. Participaram na gravação dos temas para o disco e farão parte da formação dos Expensive Soul, tanto em registos como em concertos. Há, por isso, uma aposta no som acústico, algo de invulgar em projectos nacionais de base hip hop: «Achamos que o acústico resulta. Até porque isto não é hip hop daquele mais pesado, que se está a fazer agora, mais underground; isto é mais soul/R&B e, para nós, mesmo ao vivo, ter uma banda soa bem melhor». Mas não se pense que, por serem um projecto com uma abrangência mais vasta («É uma fusão de hip hop, soul e R&B, sem ser especificamente nenhuma delas»), os Expensive Soul sejam descriminados pela comunidade hip hop: «Muito pelo contrário. O hip hop está a crescer, lembro-me de ouvir hip hop à dois ou três anos atrás e de ser bem mais pesado. Agora não, há mais pessoal a fazer um som mais acessível porque sabem que não há outra maneira de dar a volta a isto. O nosso projecto agrada não só ao pessoal underground mas também a um público mais vasto» Para já, num futuro mais imediato, o que se poderá esperar dos Expensive Soul é o início de vários concertos, em que mostrarão os temas que constituirão o disco a editar. Será então a oportunidade de ver os Expensive Soul no seu ambiente natural, os palcos: «O que gostamos de fazer e aquilo que fazemos melhor é espectáculos ao vivo. É aí que o projecto funciona melhor. Queremos tocar ao máximo com a banda. Gravar um disco é giro mas é só uma forma de chegar às pessoas, de elas poderem ouvir algo nosso em casa».
Os Expensive Soul são também mais uma prova de vigor do hip hop de Leça da Palmeira, bem como uma demonstração de que não se tratam de casos pontuais mas de uma comunidade estruturada: «Não só na parte musical mas também nas áreas do graffiti, breakdance, DJ… um pouco de tudo. Temos pessoal para tudo aqui. E já é um movimento muito grande. Quando há um concerto, por exemplo, o pessoal vai todo». Para ajudar alguns projectos a darem seguimento ao seu trabalho, New Max criou também a Max Records, com objectivos tão simples quanto directos: «Lançar projectos. Já que as editoras estão mal, temos de nos safar. Estamos a fazer as coisas por nós». Em breve, a Max Records editará um disco de Capull com produção de New Max, o álbum “Debaixo da Terra no Topo do Mundo”. Mas as portas estão abertas a quaisquer outros projectos. E há também um outro sonho que New Max acalenta: a produção de um festival de hip-hop em Leça, para toda a gente. Até lá, e para quem quiser ver os Expensive Soul com a sua Jaguar Band em concerto, a Casa das Artes, no Porto é o destino. A data é 17 de Janeiro, num concerto que incluirá também os Loopless de Kika Santos e Hugo Novo.
Por Sérgio Gomes da Costa para o "Blitz"
|