Dar-lhe com a Soul
Num ano de muito e bom hip hop nacional, NBC traz uma estreia de luxo, apadrinhada por Sam The Kid e Bomberjack.
«Onde quer que estejas, não podes perder o rumo de quem és. Se tiveres isso em mente, onde quer que chegues, vais olhas para trás e saber que estás no caminho certo». E o caminho de NBC começou faz agora 10 anos, em Torres Vedras, ao formar, com o irmão Blackmastah, os Filhos de Um Deus Menor, revelados no festival Oeiras Rap 94. Nem por acaso, "Longa Caminhada" foi o título escolhido para a estreia em disco do colectivo, lançada em edição de autor em 1999; uma caminhada que se prolongou, depois, por uma longa série de participações em mixtapes e álbuns de Bomberjack, D-Mars, DJ Cruzfader, Sam The Kid e Bellini.
Não é, contudo, para falar só do que ficou para trás que NBC e o seu homie Pimp estão à hora marcada de uma tarde de sábado solarengo mas ventoso à entrada do Atrium Saldanha, em Lisboa, mas sim de "Afro-Disíaco", o primeiro disco a solo do MC, disco fluido e quente que evoca as inspirações soul e r&b da new school da West Coast americana. «Este álbum demorou-me ano e meio a gravar. Não quis, de todo, fazer um trabalho forçado. Tive a preocupação de que as coisas acontecessem com princípio, meio e fim, quis que o álbum fosse uma viagem…»
Ano e meio de gravação, primeiro disco a solo em 10 anos de carreira: não é muito tempo? «É, primeiro pelas dificuldades que existem para poder gravar, a nível de hip hop e não só…». Aliás, "Afro-Disíaco" vê a luz do dia na Footmovin’, uma das independentes aglomeradas no colectivo editorial Kombate, apesar do hip hop estar hoje com uma projecção que nunca teve desde os tempos do evento "Rapública"… «De facto, o hip hop agora está na moda. É um fenómeno que passa muito pelos media, também pela cena do Sam The Kid, que abriu um bocado as portas. Mas não vai ser de maneira nenhuma uma repetição do "Rapública", por diferentes razões. Hoje temos um público assíduo, persistente, que ouve e compra a nossa música, e já temos algumas condições. Já há uma revista, já temos estúdios, editoras, produtores… E no fundo as pessoas também estão a abrir as mentes, a aperceber-se que esta música faz parte do nosso quotidiano e da sociedade em que estamos inseridos. O importante é as pessoas deixarem de pensar que é uma música só para jovens, só para miúdos até aos 15-16 anos… É uma música para pessoas adultas, com consciência».
É, aliás, nessa linhagem que NBC quer inscrever-se. Separando a sua identidade a solo daquela que explora nos Filhos de Um Deus Menor, onde existe um encontro entre o seu estilo mais soul e a abordagem mais hardcore de Blackmastah, o MC explica que quis ajudar a desfazer a ideia do hip hop como gueto minoritário. «Senti necessidade de mostrar aos outros MCs e aos outros grupos que a delimitação que as pessoas criam relativamente à cena hip hop como algo de rude tem de acabar uma vez por todas. Temos de criar uma nova dimensão, passar a ver o hip hop como música e não só como um estilo fechado entre quatro paredes… Quero que uma pessoa que até possa não gostar de hip hop possa ouvir à primeira e topar o refrão engraçado, mas quando ouvir a segunda vez com mais atenção, veja que há lá um texto, uma cena importante a dizer».
Para obter os resultados pretendidos, muito ajudou a luxuosa dupla de produtores que NBC convocou para a "Afro-Disíaco": Bomberjack e Sam The Kid partilham entre si os 16 beats, todos feitos propositadamente para o álbum. O processo de criação das rimas, aliás, depende exclusivamente das bases… «Só escrevo para os beats: levo o beat para casa, ouço-o durante uma semana, sou capaz de estar com ele uma semana sem fazer nada. Não tenho uma única frase no caderno. É o beat que me inspira. É como se aquela música já existisse antes de estar escrita e eu fosse apenas o canal que vai deitar cá para for a aquilo que a musicalidade me está a dizer. E as músicas vão acontecendo assim, muito naturalmente…»
Foi, então, o processo ideal para fazer um disco, como defende NBC, reiterando que, como diz uma das canções de "Afro-Disíaco", «é diferente quando se faz por amor». «É, sem dúvida. Tens uma ideia, escreves num papel, chegas ao produtor, não há restrições, ninguém te vai oprimir. Quando se faz por amor, não há conceitos, não há regras, não há favores: fazes como entenderes, como achas que o coração manda. Esse é o conselho que eu daria aos novos que estão a aparecer: fazer uma cena que se sente. Não porque estamos na moda, porque isto é muito giro e agora vamos gravar um disco, não: que faça sentido na sua vida… É isso que é importante: que faça sentido na minha vida, que seja pertinente, hoje, amanhã e assim sucessivamente. Se só vier porque agora “está-se bem”, não faz sentido nenhum, porque, quando o ouvires mais tarde, provavelmente vais arrepender-te. E isso não pode acontecer: tens que ouvir mais tarde o que fizeste anteriormente e dizer que era isto que querias fazer».
O que NBC, para já, quer fazer, passa pela promoção de "Afro-Disíaco", mostrado na primeira parte dos Blackalicious em Lisboa e Porto. Depois, virá a participação numa compilação da independente Horizontal e o segundo disco dos Filhos de Um Deus Menor, a sair só depois do álbum em nome próprio do outro Filho, Blackmastah. Um novo a solo, por isso, «só lá para 2007», diz entre risos. Espera-se que não leve tanto tempo.
Por Jorge Mourinha para o "Blitz"
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