Hip, Hop, Urra!
Tu, aí, podes gostar ou detestar. Tu, aí, podes ouvir ou evitar. Mas quer queiras quer não queiras eles vieram pra ficar. Mind da Gap é o seu nome, hip-hop sabem cantar. O EP já ‘tá na berra, o álbum ‘tá pra chegar.
A verdade é que nem o rap nem o hip-hop fazem parte das minhas preferências. Além disso, antes desta entrevista, mal tinha ainda ouvido falar dos Mind da Gap. Quando chegou o dia “E”, “E” de entrevista, e à hora combinada – com os devidos descontos para o caótico trânsito portuense – lá estávamos nós no Cubo da Ribeira, bibó Puorto, prontinhos para botar for a faladura.
Apresentámo-nos – nome, estado civil e grupo sanguíneo – e escolhemos uma esplanada, cuja música se fazia ouvir a um nível de decibéis suficientes para eu ter de escrever este texto sem perceber nada da gravação, e daí estar a patinar um bocado antes de ir directo ao assunto. Mas lá vai: Ace (N. Carneiro), DJ Serial (R. Sá) e Presto (H. Piteira) são os nomes de guerra. Os primeiros nomes, mandam os usos e costumes do Hip-Hop que não se revele. O Ace está a acabar o 12º, o DJ Serial trabalha na Valentim de Carvalho e o Presto é universitário – “Universitário não! Estudo na Universidade!”. Moram todos na Área Metropolitana do Porto e… e pronto. Estão apresentados.
Na sua música, quando escrevem as letras não têm a preocupação de serem interventivos, activistas ou politicamente incorrectos, como é vulgar suceder com bandas que flutuem na mesma onda. “É lógico que temos as nossas preocupações, mas não queremos dar sermões a ninguém. Até porque em relação à maior parte dos temas as pessoas já estão mais ou menos conscientes do que se passa”, argumenta R. Sá.
“As pessoas têm muito a ideia de que rap é só sermão, uma palestra sobre política, ou que fala de acabar com o sistema”, passa N. Carneiro a H. Piteira que remata à baliza: “O rap é como qualquer outra forma de expressão. Assim como os Blind Zero decidiram fazer rock nós preferimos fazer rap. Só isso! Antes de sermos grupo (há cerca de três anos atrás) nós só ouvíamos rap; se ouvíssemos rock se calhar hoje fazíamos rock”.
Descubram as diferenças
“Mas há uma coisa que gostávamos de deixar bem claro: é que os Mind da Gap não fazem rap. Fazem hip-hop. Rap é o acto de ‘rapar’; qualquer pessoa pode fazer rap, hip-hop é que é mais difícil”. É Presto a vincar a diferença, que os Mind da Gap traduzem-se mesmo assim: “Tomem atenção à diferença”.
Talvez por isso tenha sido, pelo menos até agora, a rádio da diferença (XFM) aquela que mais lhes deu tempo de antena, pondo a rolar qualquer um dos seis temas que compõem o EP “Mind da Gap” (“Piu Piu Piu”, “Deixa-te Disso”, “Dádiva”, “Passeio Mental”, “Tá-se mal” e “Pesadelo”). Além deste álbum, já têm (pelo menos) um tema editado na colectânea “República das Bananas” e um novo CD poderá estar para breve.
Caixa de ritmos, sampler, uma grandecíssima colecção de discos e um molhinho de cordas vocais é tudo aquilo de que precisam para cozinhar uma das suas modinhas. Tira-se um som daqui, um ritmo dali, uma batida dacolá, “fazemos um puzzle e aí têm a melhor banda de hip-hop do país”.
É que, modéstia à parte, quanto à expansão do rap e do hip-hop em Portugal, comenta Presto, "os critícos gostam de falar no boom, mas eu acho que não houve boom nenhum. Quando muito houve um traque!" (risos – tem mais piada oralmente).
E mesmo que houvesse boom, não haveria público: “Quando vamos fazer um concerto a qualquer lado (bares, discotecas, teatros e cinemas) fica toda a gente a olhar para nós e a perguntar o que é isto? Damos conta que só p’raí 20 pessoas é que estão a gostar – os nossos amigos!”.
Por Renato Filipe Cardoso para "Fórum Estudante/Correio da Manhã"
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