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H2T - HipHop TugaReportagem com os Mind da Gap in "Blitz" de 03/10/1995

O Sétimo Aposento

  Mind da Gap. Rap. Brancos. Porto. Ep. Sociedade. Alienação. Princípios. Estrangeiros. Instrumentos. Isto é um lead.

  Quase que apostava. 1995 vai ficar marcado, a nível nacional, pelo aparecimento em força do rap como forma de expressão para consumo das massas. E, como todos os movimentos musicais mais ou menos específicos, este é um daqueles anos de referência onde, por breves instantes, a qualidade se junta alegremente à quantidade. Depois, nada será como dantes, e os próximos anos devem trazer uma mediania alarmante, pontuada por meia dúzia de obras-primas que, à força de tanta vulgarização do género, até vão figurar nas colecções particulares daqueles que, hoje, juram que não percebem como é que uns galos a falar por cima de uns «samplers» (e em português, imaginem!) se pode considerar música. Aliás, não é difícil de prever que as listas dos melhores discos nacionais de 95 (listas de dez, naturalmente, não vamos abusar da boa vontade) das mentes que se prezam vão estar à pinha com os discos de General D, Da Weasel, Kussondulola, Ithaka e, quem sabe, dos Mind da Gap. Cinco em dez, ‘tão a ver?

  É verdade que, no momento em que escrevo estas linhas o repórter ainda não ouviu os seis temas do EP de estreia dos portuenses Mind da Gap. Enfim, não está em grande desvantagem, até porque as dezenas de milhar de potenciais leitores deste texto também não fazem ideia do seu som. Vamos por partes.

  Os Artistas e a História
  Os rappers de serviço chamam-se Ace e Presto. O DJ dá pelo nome de Serial. O grupo começou há cerca de dois anos, com o nome Da Wrezkaz. Segundo Ace, tinham como objectivo «angariar fundos para comprarmos material para fazermos uma coisa mais a sério». Angariaram, compraram e fizeram. Por isso, diz ele, «demos ainda poucos concertos, porque parámos para produzir os temas da primeira maqueta, que foi enviada à Antena 3, esteve em primeiro lugar no top de rap, e depois apareceu a NorteSul…».

  Quanto à eventual falta de público interessado em hip-hop, não estão muito preocupados. Presto acha que «não há muito, mas está a começar a aparecer, por enquanto tudo em Lisboa». Para Ace, «o nosso objectivo não é limitarmo-nos ao público de rap. Queremos atingir o maior número de pessoas possível, até porque a nossa música tem uma mensagem. Acho que, com o tempo, as pessoas tendem a aceitar melhor o nosso tipo de som».

  O processo criativo é simples. Ace «Nós estamos horas a pensar no que vamos fazer. As coisas aparecem, normalmente de uma forma espontânea. Nós gostamos de fazer as letras sabendo qual é a base instrumental de trabalho. Essa base tem que ser boa, para nos inspirar qualquer coisa. Os nossos temas podem ser agressivos como cool. O hip-hop é um som que, à partida, não aceita preconceito. E acho que, se estivéssemos, logo à partida, a abstermo-nos de certos estilos, seria errado».

  O grupo não esconde a sua simpatia pelo rap de Nova Iorque, nomeadamente os trabalhos dos Wu-Tang Clan, Nas, Method Man e Redman. Opções tão louváveis quanto originais, pois não é muito comum às bandas nacionais ir buscar inspiração aos mais recentes lampejos de criatividade que aparecem lá por fora. Outro ponto a favor.

  Vá lá, digam-nos como é o disco.
  Tanto quanto sabemos, deve ser redondo. Além disso, sai no início de Outubro, e tem seis canções.

  Vamos, então, fazer um jogo. Eu digo o nome das músicas, e vocês fazem o resto…

  «Piu, Piu, Piu»
  Teve a participação das Djamal e do D-Mars, que é dos Zona Dread. O tema pode ser tomado como uma crítica à Igreja, o que as pessoas querem dela, o facto de andarem tão iludidas. Não tem a ver só com a Igreja Universal do Reino de Deus.

  «Deixa-te disso»
  Funciona como uma introdução da banda, mostra a nossa maneira de pensar. Fala de certas limitações que encontramos na juventude, que devia ter uma mente mais aberta e com ideias novas. Mas a realidade não é bem essa. Acho que há muita «velhice» dentro dela.

  «Dádiva»
  Conta com o Melo D, dos Family. É uma canção que surgiu acerca daquela polémica da doação de órgãos, em que as pessoas têm que assinar um documento a dizer que rejeitam a recolha. É o nosso manifesto antidádiva de órgãos. Se quiserem aproveitar alguma coisa de mim eu não me importo nada, mas acho que o processo se inverteu.

  «Passeio Mental»
  É uma música muito difícil de explicar, porque foi escrita num determinado estado de espírito. O título não podia estar mais apropriado. É levar as pessoas a passear num ambiente que nós criamos, levá-las a pensar que queremos dizer uma coisa importante e depois, ao fim e ao cabo, acabamos por não dizer nada. É um tema muito abstracto, um passeio mental por via da poesia.

  «Tá-se Mal»
  Não tem nada a ver com o “está-se bem”, no sentido em que não foi escrito por oposição. É uma música anti-rotina. É daqueles dias em que uma pessoa acorda mesmo mal disposta, e tem que ir para a escola, tem que ir trabalhar, tem que fazer uma série de coisas que não gosta. Trata-se de um manifesto contra a rotina da vida urbana. Não é contra o “está-se bem” de Lisboa.

  «Pesadelo»
   É o tema mais pesado. Digamos que é um manifesto anti-social, é a frustração que um indivíduo pode sentir na nossa sociedade quando quer fazer algo de diferente, devido a todos os estereotipos sociais, e a todas as regras e padrões e etc. Isto provém de um processo em que estamos envolvidos desde crianças, chamado endoculturação, que não vale a pena estar aqui a aprofundar.

  Portugal, rap e futuro
  Esta problemática do rap em português e do seu futuro tem muito que se lhe diga. Rapazes optimistas, os Mind da Gap acham que só estamos no início, mas não deixa de haver pontos de interrogação. Diz Ace: «O problema é que Portugal é um país muito marcado por ondas. E nós falamos nisso no “Deixa-te disso”. Penso que o objectivo de todas as bandas hip-hop portuguesas devia ser tentar manter uma posição e tentar fazer um trabalho positivo e de qualidade, para que isto não seja mais uma dessas modas. Tirá-lo do underground, onde já está há bastante tempo, e torná-lo num fenómeno musical como ele merece ser. O “Rapública” é um marco incontornável, foi o primeiro passo que teve sucesso comercial. Foi bom porque chamou a atenção das pessoas, e deixou de ser aquilo que as pessoas não ouviam, ou quando ouviam no rádio mudavam de estação porque era música de pretos ou porque não lhes dizia nada». E acrescenta Presto: «A partir daí, as editoras começaram a ver dinheiro, e começaram a interessar-se».

  Kool Thing, fala-me de ti
  Para Ace, o desenvolvimento do rap cá no burgo passa em exclusivo pelas bandas: «Acho que a atitude não deve ser nem comercial, nem demasiado underground. As bandas devem ditar para si um certo tipo de princípios, não fazer nada muito comercial que traia os princípios do hip-hop, nem ficar naquela atitude “nós somos os durões” e não querer que o trabalho seja mostrado a toda a gente. Acho que os Mind da Gap espelham muito bem essa atitude de equilíbrio, entre o comercial, que nós não somos, e o underground, de que queremos sair. Agora, que estão a ser editados todos estes álbuns de rap, é o momento ideal para todas as bandas se unirem num esforço comum para que o hip hop seja reconhecido como estilo musical. O culminar de tudo isto só deve acontecer daqui a uns anos. Agora, isto só depende de nós, e de como vamos conseguir lidar com esta situação, e adoptarmos uma posição positiva em relação ao que vamos fazer». E para que não restem dúvidas, Presto promete que, «depois de sermos conhecidos, quer o disco tenha sucesso ou não, vamos continuar a ser nós próprios. A nossa atitude não vai mudar». Ace: «Há certos princípios que têm de ser estabelecidos à partida. Há coisas com as quais temos de aprender a lidar, como o caso das vendas. O nosso objectivo ao lançar um disco não é ganhar rios de dinheiro, mas também quero dizer que, se isso acontecer, não o vamos deitar fora. A nossa realização passa por ter um disco e poder assim mostrar o nosso trabalho às pessoas. Com um disco marcamos a nossa presença, a nossa atitude, as nossas ideias. Pode ser uma posição ambígua, mas é a ideal».

  Por Jorge Manuel Lopes para o "Blitz"

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