Zona de Ninguém
No crescente movimento hip hop, as editoras independentes parecem conseguir compensar com iniciativa o que falta em dinheiro. A Matarroa é uma delas, mas a aposta está em não ser, definitivamente, mais uma.
Depois de, na semana passada, termos dado a conhecer a Kombate, esta é a vez da Matarroa, editora também dedicada ao hip hop. Na sua génese está o colectivo MatoZoo, cuja sede de ensaios – a casa de Kiko, um dos elementos – vinha servindo também de laboratório para numerosas experiências sonoras e para a formação de alguns outros projectos. Foi dessa dinâmica que Martinêz e Chemega, outros dois elementos do colectivo, retiraram o alento para criar uma editora, a Matarroa. O nome poderá soar estranho para alguns, mas Martinêz explica-o: «Sempre foi o que mais nos identificou enquanto MatoZoo. Achámos piada e depois também identifica Matosinhos, que é o sítio de onde somos. Não somos daqueles que gritam o nome da cidade como fanáticos, nem nada do que se possa parecer, mas é a zona que identifica o nosso som. Não sei se sabes mas em Lisboa diz-se muito, quem vem de África, “a zona matarroa”, que é a zona que não interessa a ninguém. Acho que, como somos aqueles mais alternativos, somos lá da “Matarroa”. Acho que é o conceito que melhor nos identifica».
Numa altura em que o hip hop demonstra uma dinâmica inédita, as editoras começam também a surgir. Sobre a Matarroa, Martinêz justifica assim o seu aparecimento: «Foi a necessidade de que começámos a sentir, mediante o trabalho que já temos como MatoZoo e com toda a gente que circula à nossa volta. Sempre fomos do género “venham cá a casa. Se não sabem fazer batidas nós mostramos, querem cantar nós damos umas dicas, ou então dão-nos umas dicas a nós”, etc. E depois foi tudo o que anda à volta do hip hop e todas as bandas que foram lançadas. Por exemplo, no meu caso, fiz 400 cópias em casa e vendi 400 cópias na[s lojas] Massive e King Size. Como eu, muitos outros. E uma pessoa pensa assim: “fazemos isto a brincar e conseguimos ter este sucesso, entre aspas, tudo feito com o nosso controlo criativo”. Então, com a segunda parte, que é o acordar dos media, o acordar das majors, eu decidi fazer assim e o controlo criativo continua a ser nosso. É verdade que agora é o boom das editoras mas, por outro lado, tanto a Kombate como a Loop estão sediadas em Lisboa. Aqui não havia nada. Mas também não vamos ser regionalistas. Somos sediados aqui, o que para um artista daqui se torna mais fácil. Mas o nosso primeiro lançamento vai ser de um gajo de Évora que trabalha com um gajo que está no Canadá. Não somos regionalistas, mas torna mais fácil para quem está cá».
Entra agora em jogo uma outra casa, também ela albergue para diversos devaneios artísticos. Já por aqui se falou daquela que foi baptizada de «A Casa», sede da editora Bor Land e exemplo a seguir não só pela Matarroa como por todas as estruturas editoriais: «Com o bom exemplo que tínhamos aqui na “Casa”, sabemos que é perfeitamente possível [o sucesso]. É preciso é investir. Consigo assim ter um trabalho mais sério, com melhor qualidade, desde o grafismo às fotos e à reprodução dos CDs, e ao mesmo tempo mais bem distribuído. Também me chateava receber telefonemas de Vila Real e etc, a perguntarem-me como é que haveriam de conseguir os CDs. Então conseguimos encontrar uma forma de ter os CDs à venda de Bragança até ao Algarve». Mas terminam aqui as ligações entre as etiquetas: «Não queremos essa associação de nomes porque são estilos muito diferentes. O que há de comum é o sítio, o facto de ser o mesmo local de criação e de nos conhecermos desde miúdos. O que há de comum é “A Casa”. Uma coisa que eu e o Rodrigo estabelecemos desde o início foi a de não associar os nomes, a de criar a marca “A Casa”, até ao ponto de podermos vir a criar uma associação». Um outro projecto para “A Casa” é a criação de condições para aí montar um estúdio de gravação: “Queremos ter dinheiro para ter aí uma placa de som e microfones e então vamos poder fazer umas coisitas, umas “marosquices”. É uma necessidade que vamos ter. Para não gastar dinheiro e levar alguém para gravar a outro sítio. Porque não é fácil alguém em casa conseguir uma maqueta com qualidade de som; então tenho que lhes pagar para irem a outro sítio. Até porque no hip hop não acontece o que acontece com as bandas, em que se juntam todos e é fácil assim juntarem 100 contos para pagarem uma horas de estúdio. Quem faz hip hop não tem normalmente essa hipótese, então tenho que ser eu a pagar-lhes. Isso encarece muito as coisas. E claro, toda a gente gostava de gravar as coisas em casa. Se conseguimos gravar coisas nesta casa onde estamos sempre, com qualidade, então temos o que mais queremos».
Além de ser uma editora dedicada ao hip hop, há também alguns outros princípios que orientam o sentido estético da Matarroa e que Martinêz estabelece: «Primeiro é o som ser alternativo a tudo. Mesmo dentro do próprio hip hop é alternativo. Tem que ser um som com que eu me identifique, tenho de gostar. Quando nos unimos tínhamos gostos em comum, havia um som que nos unia, aquele som antigo, da velha escola, com muito swing. Depois teve aquela época muito má e a seguir houve o boom com as editoras independentes que vieram lá de fora, e é esse som com que nos identificamos. E eu quero esse tipo de som, só gosto desse. Mas gosto, acima de tudo, muito de música. Acho que no hip hop há muito pouca gente a ouvir outras coisas. Ouço muito jazz, muito funk, muita soul, dos anos 60 e 70, e portanto gostava de, daqui a uns tempos, começar a fazer essas coisas, fusão ou seja lá o que for. Um som muito alternativo ao que se ouve. Se calhar vamos ter muitos problemas com isso, mas vai ser a nossa marca. Para mim não tem lógica dizer se é mais ou menos hip hop. É hip hop».
A juntar à especificidade sonora, a Matarroa pretende também destacar-se pela apresentação gráfica. A responsabilidade desta componente é de Chemega, que a define da seguinte forma: «Na parte do grafismo, vamos tentar ter uma imagem de marca, relacionada com a Matarroa. Uma das primeiras marcas é a de todos os álbuns serem efectuados em cartão, nunca naquelas caixas convencionais de plástico e sempre com o carimbo da editora. E até ao nível da promoção, por exemplo dos cartazes, cada cartaz terá sempre o mesmo formato, para se identificarem e criarem uma imagem de marca da editora. É lógico que cada um terá a sua linguagem, consoante cada álbum, mas cada cartaz terá sempre o mesmo formato. Antigamente não havia uma preocupação a nível gráfico nos álbuns de hip hop. Como o dinheiro foi sempre a maior dificuldade no movimento hip hop, a imagem foi sempre posta atrás do resto. Com a editora Matarroa vamos tentar não pôr tão atrás, tentar fazer equivaler o som e a imagem, e também ter uma coerência entre os álbuns e respectivas promoções». Mas não é só no aspecto gráfico que a editora pretende marcar a diferença. Também a política de lançamentos e o acesso aos álbuns vão ser diferentes: «Nós queremos muita, muita promoção online. Muita venda online, distribuir MP3, é o futuro da música e pouco poderá ser feito para o impedir. Vais ao site e fazes download, não do álbum todo mas há sempre temas para sacar. Também podes sacar o vídeo, está lá para isso. Nós apostamos muito nos netflyers, na informação, em ter o site activo. Pode-se também comprar os álbuns directamente no site por €10,00, mais baratos que nas lojas. Isso também tem a ver com a nossa política de preços e sobre o que achamos sobre os preços dos discos actualmente. Se comprares directamente fica-te mais barato e se fores à festa de lançamento do álbum fica-te ainda mais barato, levas o CD por €5,00». Já no que diz respeito à distribuição e à organização de eventos, a Matarroa tem parcerias com que pretende atingir uma maior eficácia: «Eu tenho essa parte [a da organização de concertos] entregue à Positiva, porque financeiramente é mais vantajoso. Em relação à distribuição, ela está assegurada pela O Rouco, o que para mim é vantajoso porque já que eles levam tanta coisa [para as lojas], já agora levam isto. Mas nós temos sempre uma palavra a dizer porque eles não se mexem tão bem quanto eu no hip hop. Muita da filosofia da Positiva vai passar por fazer uma festa por mês, em vez de duas, e trazer um artista estrangeiro. Vamos ter cá o J Live [a 1 de Maio], que já estava marcado há muito tempo. Vamos ter depois o Richie Pitch e vamos fazer o lançamento do álbum do VRZ. Mas depois, no mês a seguir, vamos ter outro, que se calhar vai ser uma surpresa, e vamos lançar o álbum do Fidbek».
Mas sobre os concertos e sobre a sua pertinência, Martinêz pretende também que haja mudanças: «Uma coisa que vai mudar é isso. Lançamento é lançamento e as pessoas têm lá o álbum para comprar. Não há apresentações nem mini-apresentações, porque senão o que é que se vai fazer no dia do lançamento? Quando lá se chega já as pessoas estão fartas de ouvir aquilo». Outra alteração que gostaria de ver introduzida é a da postura adoptada por muitos dos que assistem aos concertos: «É enervante estar lá tudo nos concertos com aquela cara de quem está a tomar notas. Isso pode ter a ver com a idade das pessoas que aderem agora ao hip hop e com a fase ainda embrionária que o movimento está a viver. Têm que fazer qualquer coisa. Muita gente acha que só pertence à cultura se fizer alguma coisa. Como ouvem dizer que esta é a cultura das quatro vertentes, metem na cabeça e acham que têm de fazer alguma daquelas coisas, senão não fazem parte da cultura. Acho que tem muito a ver com a idade e com o facto de estar a começar». Mas fica uma encomenda de Martinêz aos praticantes refundidos: «Quero muito receber maquetas».
Matarroíces
Data de formação: Fevereiro de 2003
Contactos: info@matarroa.com; Apartado 6167, 4461 – 802 Sª da Hora
Site: www.matarroa.com
Estrutura: Martinêz (responsável); Chemega (grafismo); Parábola Sonora (fotografia); A Casa (Produção Executiva).
Lançamentos para 2003: 15 Maio, «100 Insultos», de Infamous & Vrz; 15 Junho, «Erro Musical», de Fidbek; Julho, Compilação, V/A; Setembro, álbum de MatoZoo
Distribuição: O Rouco
Por Sérgio Gomes da Costa para o "Blitz"
|