Filmes da vida real
O que têm em comum Sir Scratch e os MAC? Ambos lançaram agora os discos de estreia baseado em histórias que são também retratos da sociedade.
"O hip hop é provavelmente o género que lança mais discos em Portugal". A frase é de TNT, um dos MCs dos MAC (lê-se M.A.C. e significa Missão a Cumprir, o mesmo nome do álbum) e retrata o crescimento em termos de produção e até mediatismo por que este tipo de música tem passado. É certo que nem sempre há correspondência com a capacidade criativa, o que não se deve concerteza nem aos M.A.C. nem a Sir Scratch. Este último, por exemplo, é provavelmente o melhor músico que apareceu nesta área desde Sam The Kid, o que explica a participação e os elogios deste último a Cinema. Beats certeiros, instrumentais ricos em sons, letras que não são apenas rimas e uma personalidade qu impressiona para quem tem apenas 20 anos. Um álbum muito aguardado dentro da sua "comunidade", que fez esgotar a sua primeira tiragem (1000 exemplares) em duas semanas. Um número nada desprezível para um artista no começo da sua carreira, longe dos holofotes mediáticos, e ainda por cima a viver na Irlanda há 5 anos. "Comecei a rimar por volta de 97, com o meu irmão mais velho (Kapone) no duo Plunasmo. Fui para a Irlanda em busca de outras oportunidades e com o intuito de estudar".
No caso dos M.A.C., a formação tem origens semelhentes. "Somos um grupo de amigos. Conhecemo-nos há uns anos atrás, através do skate. Crescemos juntos e tínhamos gosto pelo rap". Como é habitual dentro da comunidade hip hop, a desmultiplicação em participações de discos alheios é um fenómeno quase incontornável, o que nestes dois casos também se confirma. Por exemplo, Sir Scratch tinha já colaborado com Xeg e Cruzfader e nas compilações TPC e Poesia Urbana. Não espanta, por isso, a presença no seu álbum do all star do hip hop nacional, que vai desde Chullage a Valete passando por Sam The Kid ou por Bomberjack ("o patrão da Footmovin', responsável pelos dois lançamentos). Já os M.A.C. contam com os Nexo, Chullage e com os músicos dos Sonda 25, que os acompanharam na vitória no concurso de bandas modernas de Almada. Antes já tinham participado em gravações de Bomberjack, de Chullage e de Kosmikilla, além das inevitáveis colectâneas.
Por falar em músicos, ambos os álbuns incluem temas com instrumentos reais. "Sou uma pessoa que gosta muito de música. Eu sou capaz de passar o dia a ouvir neo-soul, jazz, etc., só para alimentar o espírito. Apesar de respeitar e admirar as origens de como é feita a nossa música, referindo-me a semplers e caixas de ritmos. Também gostaria de um dia poder fazer um álbum instrumentalizado, mais "vivo", refere Sir Scratch. "Acrescenta mais no sentido musical. Tem que ser bem feito, até porque nós trabalhamos com bases ritmicas feitas a partir de computadores e caixas de ritmos. Quisemos introduzir sons mais orgânicos", afirma Kulpado, ao que TNT acrescenta: "Os instrumentos até apareceram por brincadeira. O guitarrista (Nélson) quis fazer um sample a partir de um original dele. Ao vivo utilizamos bateria, baixo, saxofone, guitarra e djembé".
Apesar do panorama hip hop em Portugal estar em plena fase de desenvolvimento, não é por isso que estes MCs descuram o seu papel de intervenção social. Por exemplo, Sir Scratch considera que se trata de uma questão global. "Sinto é que há falta de honestidade e originalidade. Poucos são os discos em que sentimos e apreciamos a música unicamente por ser boa, sincera, saudável e refrescante". Do lado de cá, TNT é mais optimista. "O estado das coisas preocupa-nos. São poucos os MCs que não falam do movimento. Há muita coisa a dizer mas já existem muitos trabalhos com qualidade na área do hip-hop. No geral, o movimento está bastante bem". Kulpado, no entanto, não deixa de tecer as suas considerações: "a nossa crítica visa o que se passa no hip hop na TV. Muito show off quando o hip hop é uma coisa muito mais simples. Não se trata só de ostentação...".
Cinema e Missão a Cumprir dois títulos de cariz cinematográfico. O que significam para os seus autores? "São beats e rimas baseadas não propriamente num filme mas numa espécie de cinema onde músicos são actores em busca de protagonismo, sucesso e contratos iludindo-se num mundo que não faz propriamente parte da sua realidade". Da parte dos M.A.C., as respostas complementam-se. TNT diz que "a nossa missão não é só editar e dar concertos. Tem a ver com os desafios que encontramos no dia a dia. No fundo, pode ter vários significados. Tem a ver com a música mas não só". Já Kulpado completa, dizendo que a missão passa por "mostrar-nos ao público, através do rap. Os nossos gostos e ambições. Mas há também o ponto de vista de espalhar a mensagem".
Para já, as ambições de ambos passam pela depuração do seu sentido estético e por chegar ao maior número de ouvintes. Algo que nem sempre é bem aceite por nichos muito fechados. "Até agora consegui conciliar as coisas de forma saudável, até porque posso dizer que sou um artista em início de "carreira". Em relação à Irlanda, não sei. Também costumo fazer alguns trabalhos aqui e tenho um projecto (Shortclan DF) mas está tudo ainda a dar os seus primeiros passos", explica Sir Scratch. Da parte dos M.A.C., a mensagem é vinculada por Kulpado. "Já temos ideias novas. Os novos sons são mais maduros. Aprendemos com alguns erros, que são naturais. Queremos introduzir algo novo".
Por Davide Pinheiro para o "DNa" (suplemento do "Diário de Notícias")
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