Eles percebem o Hip Hop
Com pouco mais de um ano de existência, a Loop Recordings garantiu em 2002 um destacadíssimo lugar no panorama nacional, colocando o hip hop na ordem do dia. Graças a «The Lost Tapes», de Bullet, e «Beats Vol.1 – Amor», de Sam The Kid, a Loop arrebatou os lugares cimeiros dos discos editados em Portugal nos últimos doze meses. Quando na lista de melhores discos nacionais de 2002 votados pela redacção e colaboradores do Blitz nos deparamos com dois registos de uma editora independente nos três primeiros lugares (pelo meio ficou uma edição de autor), é impossível não concluir que algo se está a passar.
E, naturalmente, algo que exige tirar a lupa (ou loopa, se preferirem…) da gaveta e clama por um olhar mais atento sobre o que se passa nas instalações da Loop Recordings, em Linda-a-Velha. Enquanto ainda vão gozando os louros recolhidos com as recentes edições, Rui Miguel Abreu (ex-A&R da NorteSul) e D-Mars (dos Micro), os dois grandes impulsionadores da Loop, sonham já com a chegada às ruas de seis novos discos actualmente em preparação e com lançamento previsto para 2003. Embora tal dinâmica não o transpareça, a Loop abriu as portas à pouco mais de um ano, em Dezembro de 2001, quando imprimiu o seu logotipo no disco de estreia oficial dos Micro, «Demo Style». Mas desde logo avisam: «O hip hop há-de ser sempre central em tudo aquilo que a gente faça, mas não quer dizer que não editemos um disco de jazz em que uma das componentes seja um DJ a fazer scratch; um disco de R&B com batidas produzidas por um produtos de hip hop; ou qualquer outra coisa de que nos possamos lembrar em que haja sempre um elemento hip hop. Não queremos prender o hip hop e não queremos que o hip hop nos prenda a nós».
A Génese
Segundo Rui Miguel Areu, a criação da Loop «não foi uma coisa calculada». No entanto, admite, «sempre disse a toda a gente que a única editora para onde iria trabalhar a seguir à NorteSul seria a minha própria editora». A ideia para a formação de uma etiqueta centrada no hip hop foi depois tomando forma a partir de conversas com D-Mars, com quem Abreu, às tantas, realizou um programa de rádio. «Começámos a falar e surgiu uma série de sintonias», resume. E se Abreu tinha experiência à frente de uma editora, D-Mars trazia consigo edições a expensas próprias de um disco dos Micro e uma compilação por si idealizada. No fundo, como ele mesmo afirma, a fazer o mesmo «que todas as editoras de hip hop que estão por aí. Mas mal conversei com o Rui disse-lhe “vamos falar os dois, juntar as ideias e avançar”». Após o entendimento inicial, os dois seriam convidados pela associação Sons da Lusofonia para ministrar cursos de hip hop no Alentejo. A ocasião propiciaria, conta Abreu, «viagens de duas horas e meia entre Lisboa e a localidade para onde íamos, que foram sendo passadas a trocar ideias no banco de trás da carrinha. E foi um bocado por aí: “já que estamos os dois a pensar da mesma maneira, vamos juntar esforços”».
Mas, obviamente, a Loop Recordings não estaria neste momento a ter um presente tão frutuoso em termos artísticos e mediáticos se não houvesse um passado de Rui Miguel Abreu e D-Mars capitalizado na Loop. «Na NorteSul, a minha primeira função era A&R, mas fazia um pouco de tudo – tratava das masterizações e idealizava compilações», esclarece Abreu. É óbvio que todas as nossas experiências anteriores foram muito importantes – e até o conhecimento dos meandros do jornalismo, porque já tinha estado envolvido nessa área e na NorteSul trabalhava muito com a promoção. Foi por isso que olhámos um para o outro e pensámos que fazia sentido juntarmos esforços: eu tinha experiência numas áreas e ele noutras, e achámos que se complementavam». D-Mars, por seu lado, alega que o seu maior contributo reside no «conhecer o terreno como pouca gente. Neste meio tão específico, que tem as suas próprias regras, é importante conhecer o terreno. Já estava a tentar editar coisas e estive na Antena 3 a fazer o programa que era do Mariño e que depois passou a ser feito por mim e pelos Raska, em que fui responsável pela divulgação do hip hop nacional e recebia as maquetas todas. Tinha a noção do que se passava no movimento, quem estava a fazer o quê, e isso é muito importante do ponto de vista de projectos futuros. E trouxe os Micro: tínhamos um projecto já maduro e marcou logo a diferença da editora».
O Mo(vi)mento
Quanto a este ser ou não o momento indicado para uma casa com o foco apontado para o hip hop surgir no cenário nacional, Rui Miguel Abreu acredita que depois da falsa partidad de «Rapública» só agora o movimento atingiu realmente a maturidade. «O hip hop em Portugal tem funcionado muito por estímulos. Houve um momento depois daquilo a que chamo o “mergulho no underground”, a seguir ao “Rapública”, em que os projectos começaram a fermentar longe do olhar do público, com outro tipo de preocupações. A partir do momento em que surgiram as primeiras mix-tapes, isso foi um estímulo para toda a gente e todos queriam marcar presença nesse novo veículo. Depois alguém percebeu que as mix-tapes poderiam chegar ao público e serem distribuídas, e isso levou a que se subisse mais um degrau. Depois, das mix-tapes passou-se aos CD-Rs queimados em casa, de produção mais ou menos artesanal, e isto tem andado sempre assim, numa evolução muito lenta mas muito segura. Portanto, não podemos ser idealistas e dizer que o movimento já estava pronto para isto há três ou quatro anos. A Loop surgiu quando os Micro já estavam no ponto em que precisavam de uma estrutura um bocadinho mais séria».
Dada a atenção mediática e o consenso gerado por discos como «The Lost Tapes» e «Beats Vol.1 – Amor», poderá a Loop estar a construir uma ponte entre o «underground» e um público mais vasto para o hip hop? Abreu relembra que «é preciso ter uma noção muito aguda de que não jogamos com as ferramentas das grandes editoras. Por muita visibilidade e por muito que os media gostem dos discos que estamos a editar, uma coisa é agradarmos a uma minoria e outra é chegarmos ao grande público. Mesmo entre o grupo que mais vende em Portugal dentro desta área e o que menos vende, a distância não é assim tão grande. O hip hop em Portugal esteve uma série de anos metido dentro de um ovo e agora é que está a começar a sair, ainda não se deu nenhuma verdadeira explosão, nenhum fenómeno em termos de popularidade e de vendas. Mas espero que a Loop contribua para que as coisas evoluam e se houver um grande sucesso a acontecer que aconteça com um dos nossos projectos, porque estamos preparados para isso e acreditamos que a linguagem do hip hop pode ser válida em Portugal daqui a 10/15 anos, que estamos a fazer discos que podem transformar-se em futuros clássicos».
A Filosofia
Como afirmam os seus mentores, a Loop deixa-se guiar por um horizonte temporal que tem muito pouco a ver com o curto prazo. Querem alcançar álbuns que não se esgotem em seis meses de audições e mantenham toda a sua vitalidade cinco ou seis anos mais tarde. Como exemplo daquela que pretende ser a linha editorial da Loop, D-Mars avança com as edições instrumentais. «Uma das razões para termos avançado para isso – eu próprio fiquei surpreendido com os resultados – foi sempre termos tido uma preocupação em tentar educar. Temos o trabalho mais tradicional e as edições instrumentais parece que dão a volta mas, no fundo, são duas coisas paralelas. Se calhar o que estamos a fazer agora com os Mundo Complexo – quando o álbum sair as pessoas vão perceber que é um hip hop muito diferente – pode vir a ser a fundação de algo novo. Com as edições instrumentais já estamos a fazer isso, já há muito pessoal a aparecer a fazer só hip hop instrumental. Se calhar existe todo um mundo lá for a que estamos a potencializar». Abreu acrescenta que as às mãos lhe têm chegado «coisas muito interessantes, que vamos usar, algumas delas talvez ainda este ano. É como se as coisas existissem num estado latente e, de repente, aparece algo que as abana e as acorda. As nossas edições até levaram pessoas que dentro deste meio têm tido uma postura na música diferente – algumas dentro do hip hop, outras fora -, a pensarem “ali está um caminho que também posso explorar” e também temos tido algumas propostas nesse sentido. É provável que venham a aparecer algumas surpresas por aí nos tempos mais próximos. Os discos instrumentais são uma vertente que quisemos explorar porque temos noção que a língua nos liberta para muita coisa, mas também nos prende – nomeadamente se pensarmos num mercado for a de Portugal. E com instrumentais, todos os mercados são mercados potenciais. Se calhar há gente a ouvir o disco do Sam The Kid que diz que não gosta de hip hop, mas foi comprar o disco. E aquilo é o quê?».
Problemas e Armas
Como pequena independente e com um campo de acção muito específico, as principais limitações da Loop acontecem sobretudo (e sem surpresa) ao nível financeiro. D-Mars garante mesmo que «a única maneira de termos sobrevivido até agora foi produzirmos álbuns de baixíssimo custo. Mas quando olhamos e vemos editoras a gastar rios de dinheiro sem terem o retorno… Na editora, gosto sempre de ser muito forreta, porque acho que é a única maneira de sobrevivermos, não há espaço para loucuras». O ex-A&R da NorteSul completa a ideia com um pergunta: «O que é o sucesso? Um disco que vendeu 40 mil exemplares mas , feitas as contas finais dá 300 contos de prejuízo, ou um disco que vendeu mil exemplares e feitas as contas dá 300 contos de lucro? Nesse sentido, todas as nossas edições têm sido sucesso, sem excepção». Daí que uma das ferramentas fundamentais na vida da Loop passe pela utilização de um estúdio próprio onde os seus artistas podem proceder às gravações. Se a isto se juntar um frequente carácter «caseiro» ligado a determinadas edições de hip hop, os custos de produção de um álbum, naturalmente, descem a pique. Rui Miguel Abreu procura e encontra a palavra certa para a sobrevivência da Loop: auto-suficiência. Na Loop não só se gravam os artistas, como ainda se misturam os discos. Só o processo de masterização é deixado para terceiros porque, explica D-Mars, «é muito importante para este tipo de som». Pelo menos em termos de produção, o sucesso é de tal ordem que já são abordados para a gravação de grupos exteriores à editora.
Para finalizar, Rui Miguel Abreu procura deixar claro que muito mais que uma editora, a Loop «é uma entidade que tem interesses em variadíssimas áreas». As outras são, portanto, a actividade do estúdio, a vertente educacional, a produção de festas – em 2002 aconteceram na ZDB e na discoteca Lux – e, se tudo correr bem, a inauguração este ano de um ramo na distribuição, particularmente virado para a música vinda de Inglaterra. E uma vez que tanto D-Mars como Rui Miguel Abreu também são músicos (o último integrou o colectivo Arkham Hi-Fi), faz parte dos planos de ambos virem a estrear o seu projecto Loop Agents na sua própria editora. Até mesmo o anterior projecto de Abreu, que já pôs fim à sua existência, não está totalmente afastado da eventualidade de vir a figurar na editora. Diz o músico que «há muitas coisas gravadas e que poderão vir a sair. Só que sou um tipo com um grau de exigência estúpido comigo próprio e nunca quis editar aquelas coisas».
Retrato de Família
Data de formação: Dezembro de 2001
Contactos (inclusivamente para o envio de maquetas) : looprecs@looprecordings.com; Apartado 28, EC Linda-a-Velha, 2795-999 Linda-a-Velha
Estrutura: Com todos os elementos talhados para as funções de A&R e administração, D-Mars ocupa-se sobretudo do estúdio, Rui Miguel Abreu está mais vocacionado para a imprensa e Ernesto Bacalhau divide-se entre a promoção e a realização de telediscos.
Lançamentos para 2003: Fuse, «Sintoniza…», previsivelmente na primeira semana de Fevereiro; Mundo Complexo, álbum a sair em Abril/Maio; Segundos volumes instrumentais para Bullet e Sam The Kid; Compilação de novos valores na área dos instrumentais; Terceiro álbum dos Micro.
Distribuição: Ananana para os discos instrumentais, Emi-VC para os restantes.
Por Gonçalo Frota para o "Blitz"
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