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H2T - HipHop TugaReportagem sobre a Kombate Records com Valete e Gilbert Sacadura in "Blitz" Nº964 de 22/04/2003

Linha da Frente

  Em tempos de guerra, há lutas mais pacíficas a travar. Como a luta da Kombate, editora independente que assume a missão de editar, distribuir e divulgar pelo país os maiores talentos do hip hop nacional. Talentos nos quais as grandes editoras e as rádios não pegam, esquecem ou de que simplesmente não querem saber.

  No pelotão da frente estão os soldados Nuno Santos, Alexandre Cruz, Keidje Lima, Tiago Ribeiro, Luís Pires e Gilbert Sacadura. Nomes de código: Chullage, Cruzfader, Valete, Bomberjack e Darkface, por esta ordem. O luso- francês Gilbert Sacadura é o único que não tem créditos como artista, mas já anda nisto há algum tempo, tendo estado na frente de uma editora, a Lisofonia. Um contingente de luxo, com uma estratégia para vencer: o objectivo foi reunir no mesmo selo as produtoras (que anteriormente funcionavam como editoras) Encruzilhada, Horizontal, Dream Flow, Construe-som e Foot Movin’, além da Lisofonia. As armas são os discos. De gente como os próprios Valete e Chullage, mas também NBC, Bad Spirit, Bellini, Xeg ou Tekilla. «Estamos aqui para a batalha», diz Valete no final da conversa com o Blitz, como que a explicar o nome Kombate. «Sabemos que vamos ter muitas lutas, principalmente a nível de promoção».

  Mas antes de sabermos que lutas são essas, quisemos que contassem a génese de tudo. Gilbert Sacadura, o outro interlocutor, explica: «A Kombate é a junção de várias produtoras de hip hop que já existiam antes, mais ou menos recentes. Eram produtoras independentes, que estavam cada uma no seu canto a fazer as coisas. Decidimos juntar-nos para reunir todo o catálogo e oferecer uma melhor distribuição do hip hop independente em Portugal. A ideia é ter uma maior credibilidade nas lojas, porque o hip hop ainda é um nicho, é uma música contra a qual ainda há muitos preconceitos». Mas não é só isto. Valete revela qual é, afinal, a estratégia de combate da editora. «É uma estratégia de antecipação. O hip hop está a engordar e a crescer; e há muitas editoras, as “majors”, que estão a ficar interessadas. Percebemos isso e resolvemos tomar o controlo. A maior parte das pessoas que fazem parte da Kombate são artistas, são pessoas que vivem hip hop, que fazem parte do movimento. E são estas pessoas que têm de gozar do que o hip hop receber. Tínhamos de pegar no hip hop agora, reunir muitos artistas representantes do movimento e editar e distribuir os seus álbuns». Mas do outro lado haverá sempre resistência. Para a Kombate, há barreiras que têm de ser partidas já, e dão o exemplo de não se encontrarem discos de hip hop português nas cadeias de hipermercado. «Eles têm discos de hip hop sem expressão nenhuma em Portugal e que só vendem duas ou três cópias. Mas estão lá, porque têm a distribuição de uma “major”. A Kombate é mais do que distribuição, é mais do que uma editora, é também um centro de educação de massas. Aqui as pessoas podem aprender o que é o hip hop, podem aprender a mexer com isto», diz Valete. E depois, claro, há o problema das rádios de grande audiência, que pouco ou nada passam de hip hop. Ou seja, o hip hop, apesar de estar em pleno crescimento, não está a ser bem tratado pela indústria. «Existem “majors” que têm um ou dois artistas de hip hop, mas se calhar são a sua última prioridade». Na Kombate, garantem, os artistas podem «ter a certeza que o seu trabalho vai ser bem tratado».

  A Kombate nasceu apenas no último mês do ano passado, mas já criou o burburinho necessário para vir a ser uma editora grande dentro do conjunto das editoras independentes. Só os nomes dos elementos que a constituem conferem uma importância acrescida. Será que a Kombate sente esse peso, essa responsabilidade de ter de ser o que as pessoas esperam dela? «O peso vem dos nomes do catálogo», começa por explicar Sacadura. «São os nomes mais sonantes do hip hop feito em Portugal». Sonantes, mas independentes, e que estavam a fazer trabalhos dispersos. Para Valete, a Kombate é por isso «uma associação que reúne o seu trabalho. Agora vamos todos jogar pela mesma camisola». Mas os dois representantes da editora não deixam de frisar que esse trabalho disperso já é feito há muito tempo. Diz Valete: «É preciso que as pessoas percebam que o hip hop tem uma história muito “underground” em Portugal, e é uma história longa, de 10 anos. Foi tudo feito nos subterrâneos, sem controlo nem assédio dos media, com concertos, cassetes, mixtapes... Os artistas de que agora se fala, o Chullage, o Sam The Kid e outros, são artistas que antes já arrastavam multidões, de Norte a Sul. Faziam concertos com milhares de pessoas. Foram apresentados como coisas novas, mas já estão no hip hop há muito tempo». São anos de experiência que se revelam preciosos para o funcionamento de uma editora. Tal como os artistas não aparecem do nada, também uma editora não pode aparecer por toque de magia. «Sabemos onde vamos pôr os pés», explica Sacadura. «Isto por causa da experiência que acumulámos quando estávamos a fazer as coisas em separado. Claro que há sempre coisas a aprender; há sempre coisas a melhorar. Mas sabemos mais ou menos o que temos de fazer e onde é que temos de pôr os pés». Valete recorda que esses anos de experiência foram também anos de uma certa injustiça: «Sinto pena porque grandes artistas não tiveram reconhecimento das massas no início dos anos 90, quando o hip hop era a música dos putos, do “yo”. Nenhuma editora apostou neles. São artistas que já têm a vida feita, têm 30 e muitos anos e já desistiram do hip hop. E podiam ter feito grandes álbuns, que marcariam não só a história do hip hop como da música portuguesa». A pensar que a partir de agora isto já não pode acontecer, a Kombate está também aberta aos talentos escondidos que lhes queiram enviar maquetes. Para isso têm um apartado", embora não garantam edições para já. Mas será concerteza um bom sítio para se começar: «Temos os nossos artistas, e já há muito tempo que estamos a trabalhar com eles e que nos comprometemos a editá-los, mas isso não quer dizer que não vamos aceitar mais ninguém. Isso também seria absurdo, porque uma editora também tem de descobrir novos talentos», considera Gilbert Sacadura.

  Para lutar contra a apatia das editoras multinacionais, todos os exércitos são benvindos. Quisemos saber a opinião da Kombate sobre o «boom» das editoras alternativas portuguesas. Valete sorri: «Acho que é muito bom. Tenho um medo de “majors” que nem imaginas. Já fui assediado por algumas e fiquei em pânico, porque eles não percebem nada, tratam tudo mal, é só negócio, dinheiro e políticas imediatistas. As editoras independentes são a solução. Percebem o produto que estão a trabalhar, percebem o artista, percebem a música, e sabem que tipo de promoção têm de fazer, que mercado é que têm de atingir, conhecem bem o público. Claro que o contra disto é que não têm tanto poder». O colega concorda: «Também acho que a independência é a solução. Os problemas são os meios: falta capacidade negocial, faltam meios que depois também limitam a criatividade de um artista. Mas também não acredito que as editoras independentes sejam a solução para todos». «Mas é bom que não se vejam as editoras independentes como uma segunda divisão, como o espaço do artista rejeitado», alerta Valete. «Pode ser dos rejeitados no sentido de as “majors” não lhes reconhecerem talento, mas é nas editoras independentes, principalmente na música alternativa, hip hop incluído, que está lá a melhor qualidade, isso garanto».

  Há quem possa pensar que o discurso é sempre o do coitadinho incompreendido, mas a verdade é que a indústria parece desfasada do que está a acontecer nas ruas, nas escolas, nos locais onde a imprensa não está. Valete volta a mostrar a sua opinião sobre as multinacionais. «Temos esta estratégia de antecipação, de preocupação em ter o hip hop antes de toda a gente, mas também é verdade que ainda não estamos a sentir a ferocidade dos capitalistas porque eles estão a dormir: vais a uma escola preparatória e os miúdos só querem ouvir hip hop. Está na moda, claro. Mas o que querem ouvir é o Chullage e o Sam The Kid. E onde andam as editoras e as rádios? Há sempre canais alternativos que vão ajudando, mas as editoras estão literalmente a dormir, é impressionante». Sacadura completa: «Quando essas editoras acordarem e decidirem pegar neste ou naquele, nós já teremos dado as nossas provas junto ao público. Não só junto das lojas, para ganhar crédito na distribuição, mas também junto do público, para mostrar que há um hip hop diferente do hip hop que as “majors” vão oferecer. É também para afirmação e protecção do hip hop feito em Portugal». E a Kombate propõe-se fazer isso através dos seus dois mandamentos: a liberdade e criativa e o respeito pelas raízes ideológicas do hip hop. Que raízes são essas? Gilbert Sacadura começa por dizer que antes todos faziam um hip hop politizado mas que agora o que está em voga é uma música mais festiva. «É verdade que no início o hip hop era só festa, mas o hip hop começou mesmo a afirmar-se como cultura quando assumiu o papel educativo, de mensagem nas letras, e de transformar a energia negativa das pessoas, que era expressa pela violência, em energia positiva. O rap também serve para libertar todas as frustrações, toda a agressividade. Para mim é essa a raiz ideológica do hip hop». Valete continua: «O conceito de honestidade contigo próprio e com os outros é muito importante. No hip hop não podes imaginar um artista dizer que anda a matar 50 pessoas se realmente não o faz». No fundo, é a mesma coisa que cantar canções de amor quando não se está a sentir nada daquilo. «Quando os rappers escrevem colocam a sua alma no papel. Não há falsidade e quem vai ouvir vai perceber a honestidade. Por isso é que digo que o hip hop é heterogéneo, o que vais captar naquele álbum é a mensagem do rapper; é ele. Esta é a ideia da Kombate».

  Aparecidos em Kombate

  Data de formação: Dez 2002
  Contactos: Apartado 2744, 1118-001 Lisboa. Telefones: 963 984 407, 969 207 309, 934 194 829. Fax: 210878 213.
  E-mail: kombate@netcabo.pt Site: www.kombaterecords.com
  Estrutura: Nuno Santos (Chullage) – A&R, grafismo, site; Alexandre Cruz (Cruzfader) – A&R, promoção; Keidje Lima (Valete) – A&R, promoção; Tiago Ribeiro (Bomberjack) – A&R; Luís Pires (Darkface) – A&R, grafismo, site; Gilbert Sacadura – A&R, vendas e distribuição.
  Lançamentos para 2003: a primeira edição será uma compilação da etiqueta, com data de edição prevista para 15 de Maio. Nesse mesmo dia será reeditado o álbum «Educação Visual», de Valete. Ao longo do ano, esperam-se lançamentos de Bellini1ª Jornada»), Bad SpiritOdiado e Mal Amado»), NBCAfro-disíaco»), KosmikillaPolítica de Rua»), Xeg («Conhecimento»), Chullage («Rapensar»), Blackmastah («Crónicas de um Mestre»), Tekilla («Tequillogia»), Kacetado («Ontem, Hoje e Amanhã») e a compilação «Poesia Urbana».
  Distribuição: A Kombate encarrega-se da distribuição dos catálogos das ex-editoras (agora produtoras da etiqueta) Lisafonia, Encruzilhada, Horizontal, Dream Flow, Construe-som e Foot Movin.

  Por Rita Guerreiro para o "Blitz"

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