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H2T - HipHop TugaReportagem sobre Hip-Hop português  in "Y" (suplemento de "O Público") de 18/07/2003

Pop?

  Será que ao aumento continuado dos projectos, das editoras e, vamos ser crentes, do público que se relaciona com o hip-hop irá corresponder o êxito comercial e artístico que o movimento só muito esporadicamente conheceu em Portugal? Existem condições para que o hip-hop crie o seu próprio nicho de mercado? Mais do que isso: é possível que consiga engendrar um efeito transversal de sedução que faça apelo a outros melómanos (ou não) para lá do núcleo duro de militantes do género? O hip-hop será um dia pop?

  Quando foi publicada, em Outubro de 1994, a colectânea "Rapública" constituiu-se no maior êxito comercial de um disco de hip-hop feito em Portugal. Terá vendido 15 mil cópias, sobretudo devido ao facto de o tema "Nadar", interpretado pelos Black Company, ter caído na boca do povo. Desde então, e descontando o mega-êxito do álbum de estreia de Abrunhosa, que não terá sido propriamente congeminado pela comunidade hip-hop, assistiu-se ao deserto no que respeita a figuras ou temas verdadeiramente populares. Ao deslumbre da indústria face ao hip-hop, sucedeu a depressão - ainda que nas margens ou nos subterrâneos da urbanidade ele se continuasse a mover.

  Quase dez anos depois, e o hip-hop em Portugal nunca esteve tão viçoso. Perdem-se a conta aos discos publicados todos os meses. O acesso a uma gravação de qualidade semiprofissional, ou mesmo profissional, é mais fácil. Os músicos estão mais bem equipados. Há estruturas que vão nascendo, caso de editoras como a Loop ou a Matarroa, e fenómenos internacionais, como Eminem, que vão gerando mais interesse num público cada vez maior. A pergunta impõe-se, novamente: é a hora do hip-hop made in Portugal?

  A fórmula
  Rui Miguel Abreu é uma das figuras de proa do movimento. Fez parte dos quadros da editora Nortesul, quando esta publicou discos dos Mind da Gap e Boss AC. Montou "workshops" sobre o género pelo país fora. Emitiu programas de rádio. Assumiu-se como produtor quando levou para a frente o projecto Arkham Hi-Fi, de que era uma das metades, e hoje preside aos destinos da mais importante editora de hip-hop portuguesa, a Loop Recordings. Ele acredita: "Acima de tudo, tenho-me apercebido do talento e da forma como os grupos evoluem das maquetas para os discos e dos discos para os segundos discos. Isso faz-me crer que alguma coisa vai acontecer. Os músicos começam a ter a noção de que não podem falar apenas para os amigos e há também grande preocupação no que respeita à escrita dos temas. Não se trata apenas de temas de hip-hop, mas de temas pop, que têm arcaboiço para passar na rádio. Todo esse crescimento artístico leva-me a crer que um dia alguém vai inventar a fórmula correcta e assinar um êxito."

  José Mariño é "o" decano da divulgação do hip-hop em Portugal. Em 1992, na já extinta Rádio Energia, era o responsável pelo programa "NRJ", exclusivamente dedicado ao hip-hop e onde passaram maquetas de protótipos de projectos de hip-hop português. Em 1994, ano em que foi publicado "Rapública", já estava na Antena 3, onde produziu o mais famoso programa radiofónico dedicado ao género, "Rapto", que durou até 2000. Depois disso fez parte da equipa que assinou na RDP o espaço Submarino, juntamente com o colectivo Raska e D-Mars. Hoje divulga hip-hop no Curto-Circuito da SIC Radical, que poderá num futuro próximo albergar um programa dedicado ao género na sua grelha de programação. Mariño prefere não fazer futurologia: "É arriscado dizer que um dia destes vai aparecer uma mega-estrela que vai vender tantos discos como os Silence 4 ou o Pedro Abrunhosa. É um bocado difícil, porque todos os artistas portugueses que venderam acima de determinada fasquia tiveram de fazer um 'crossover' enorme. Foram obrigados a chegar ao público que vai aos concertos, ao que não vai aos concertos, ao que gosta da música que toca no programa X ou na novela Y,... Quando há grupos que vendem 200 mil cópias de um CD é porque estão numa plataforma muito superior à dos outros grupos que existem."

  Apesar de oscilarem entre um maior ou menor optimismo, ambos os discursos assumem a impossibilidade de o hip-hop poder criar um êxito a não ser à custa de um compromisso capaz de "convencer" um público mais alargado e que extravase os limites das facções mais militantes. O mercado hip-hop é diminuto e é essa a questão que agora se impõe. Quem poderá quebrar essas barreiras e transformar-se no primeiro artista português de hip-hop popular, tal como Jay Z ou 50 Cent o são nos EUA? Surgirá em breve um Eminem lusitano? Há um nome que paira no ar: Sam The Kid.

  Para Rui Miguel Abreu, ele conjuga "uma série de factores que o tornam especial. Tem histórias para contar, tem carisma e tem um discurso organizado de uma maneira muito particular. Não sendo um intelectual, consegue dizer coisas profundas. Tem a dose certa de ingenuidade, a dose certa de criatividade e a dose certa de honestidade. Isso tem tocado no subconsciente dos 'media' quando procuram essa tal pureza. Por exemplo, já recebeu convites para todos os festivais de Verão e tem recusado esses convites. Foi convidado para protagonizar uma telenovela e não aceitou também, sendo que tudo isto acontece sem que tenha apoio de qualquer editora. Ainda não há ninguém que possa dizer: 'O Sam The Kid é meu artista'."

  José Mariño concorda: "Se há uma vedeta do hip-hop em Portugal - e vedeta com 30 mil aspas à volta -, ela é o Sam The Kid. Foi primeira página, entrevistado na rádio no mesmo programa que o Presidente da República, e isso já quer dizer alguma coisa. Agora, só se vai tornar numa estrela ou conseguir vender discos como os Delfins, quando o público em geral estiver disponível para comprar esses discos. Não sei até que ponto isso poderá acontecer, mas a música traz-nos grandes surpresas."

  Temos artista, mas ainda falta público. Depois de um frágil roteiro em que o Ritz Clube, em Lisboa, desempenhava papel importante, o hip-hop sente a falta de locais para se exibir. A rua será o seu habitat, mas a dignidade da sua arte só será alcançada no palco. Mesmo assim, as últimas experiências com grupos norte-americanos, casos dos De La Soul ou dos Blackalicious, não foram animadores relativamente ao número de entradas vendidas. O brasileiro Gabriel, o Pensador mantém carreira regular em Portugal, mas, depois da euforia inicial, passa ao lado da comunidade hip-hop e é visto mais como artista brasileiro do que rapper.

  Dez anos de Hip-Hop

  Por estes dias passam dez anos sobre a edição do primeiro disco de hip-hop em Portugal. As efemérides, já se sabe, valem o que valem. Mas numa altura em que a nação hip-hop volta a contar espingardas merece a pena passar em revista os discos que abriram um novo espaço na música urbana portuguesa. Factos são factos e a verdade é que eles foram os primeiros.

  Da Weasel - More Than 30 Motherf***s (EP, Margem Esquerda, 1994)
  Os Da Weasel abriram as hostilidades quando João Nobre (Braindead) fundou um novo projecto com o irmão, Pacman (ex-Lovedstone), Armando Teixeira (Bizarra Locomotiva, Boris Ex Machina), Fernando Quaresma e Yen Sung. O primeiro disco de hip-hop feito em Portugal não seria um disco de hip-hop em sentido estrito, até porque "More Than 30 Motherfucks" devia mais aos Disposable Heroes of Hiphoprisy do que aos Public Enemy e estava mais próximo dos Beastie Boys do que de LL Cool J. De Almada, lançaram então a primeira pedra. "God Bless Johnny" não seria no entanto uma pedrada no charco.

  General D - Portukkkal É Um Erro (Single, EMI, 1994)
  General D desde cedo se assumiu como porta-estandarte do hip-hop, o que nunca chegou a ser bem entendido por várias facções. As críticas subiram de tom quando o seu primeiro disco estabeleceu uma clara analogia entre o movimento racista norte-americano, KKK, e a situação portuguesa, na altura marcada por várias intervenções de "skinheads". Mas, na realidade, o disco não ambicionava ser mais do que uma tentativa de experimentar públicos e mercados. General D ainda não tinha banda e a EMI não ia mais longe do que a publicação de um single.

  Vários - Rapública (CD, Sony, 1994)
  Para o bem ou para o mal, "Rapública" ficará na história como um marco do hip-hop em Portugal. É a primeira tentativa de acompanhar e cristalizar um movimento que na altura ameaçava surgir com grande vigor comercial. A Sony contratou Hernâni Miguel como produtor executivo, mas as condições oferecidas a cada um dos projectos - todos eles oriundos da Grande Lisboa - não seriam as melhores. Boss AC, Family, Líderes da Nova Mensagem, Zona Dread, Funky D e New Tribe tiveram aqui a sua estreia. Se alguns começaram a ganhar culto, foram no entanto ofuscados pelo proto-êxito de "Nadar" dos Black Company, os únicos com quem a Sony viria a assinar contrato.

  Pedro Abrunhosa e os Bandemónio - Viagens (CD, Polygram, 1994)
  Pedro Abrunhosa não possuía a "credibilidade de rua" dos restantes projectos de hip-hop que naquela altura também almejavam o tal contrato com uma editora, mas o seu primeiro álbum era nitidamente influenciado pelo disco dos Us 3 (publicado na Blue Note) que então estava na berra e seria a primeira tentativa de fundir rap e jazz à portuguesa. À época, o rap ficava bem a Abrunhosa, e de um ilustre desconhecido que tinha corrido o país com projectos como a Cool Jazz Orchestra e a Máquina do Som ele passou a superestrela capaz de atravessar classes etárias e sociais. Um fenómeno.

  Da Weasel - Dou-lhe Com A Alma (CD, Dínamo, 1995)
  Primeiro álbum a sério dos Da Weasel, desta vez numa fugaz editora de Manuel Faria (Trovante), que funcionava enquanto etiqueta da BMG. Os primeiros temas fundamentais da carreira dos Da Weasel, como "Adivinha quem voltou", "Educação é liberdade" ou "Ressaca", marcavam uma ruptura com o disco anterior ao serem cantados em português. O público percebeu isso e bateu palmas. A crítica também. Nos convidados contava-se Boss AC, mas foi o refinamento, na música e nas letras, que transformou "Dou-lhe Com A Alma" num dos mais sólidos manifestos do hip-hop em Portugal.

  Mind Da Gap - Mind Da Gap (EP, Nortesul, 1995)
  Estreia discográfica do primeiro colectivo nortenho de hip-hop, depois de terem chegado com a maqueta do tema "Piu Piu" ao primeiro lugar da tabela do programa de rádio Rapto. Os Mind da Gap logo sobressaíram pela truculência verbal, mas eram as produções de Serial que marcavam a diferença. Nos seis temas do EP prometeram o suficiente de forma a se tornarem, hoje, no único projecto com uma discografia regular. Melo D, então nos Family e Cool Hipnoise, era o convidado especial.

  Black Company - Geração Rasca (CD, Sony, 1995)
  O primeiro álbum dos Black Company viria, afinal, a ser um tiro ao lado face às expectativas comerciais que então tinham sido geradas pelo sucesso de "Nadar". O hip-hop festivo dos Black Company não conseguiu repetir o êxito e as editoras multinacionais começam a mostrar desinteresse por um fenómeno para o qual não estavam devidamente enquadradas.

  Ithaka - Flowers And The Color Of Paint (CD, Fábrica de Sons, 1995)
  Primeiro registo da estada do fotógrafo e escultor Darin Pappas em Portugal. Na altura, Pappas partilhava um apartamento no Bairro Alto com DJ Grizzly, ou Pedro Passos. O álbum não é mais do que um encontro entre os samples sacados à colecção de discos de jazz de Pedro Passos e as histórias narradas por Pappas. Este viria a ficar bem mais famoso pela sua colaboração com os Underground Sound of Lisbon.

  General D - Pé Na Tchôn, Karapinha na Céu (CD, EMI, 1995)
  Primeiro álbum de General D, desta vez acompanhado pelos Karapinhas. Os temas, dos quais ressalta uma versão de "Black magic woman" (popularizado por Carlos Santana), frisavam de forma garrida um afro-centrismo inspirado nos Arrested Development e General D conseguia finalmente marcar a sua música com uma forte identidade, agora longe dos estereótipos norte-americanos. Marta Dias e Sam eram alguns dos convidados.

  Líderes da Nova Mensagem - Kom Tratake (CD, Vidisco, 1996)
  Mais um projecto que juntava alguns dos pioneiros do hip-hop em Portugal, entre os quais MC Nilton e DJ Jaws T (mais tarde dos Arkham Hi Fi e da editora Loop), a tentar a sua sorte. O álbum chegou no "timing" errado por duas razões: a euforia em torno do hip-hop feito em Portugal tinha passado e a proposta dos Líderes da Nova Mensagem, onde se incluíam samples de guitarra portuguesa e poesia declamada por Manuel Alegre, estava muito à frente.

   Diário da Rapública Portuguesa

  De promessa (eternamente?) adiada a "next big thing", o hip-hop feito em Portugal anda, desde há dez anos num virote. "Nação Hip-Hop - 10 anos de hip-hop em Portugal", uma colectânea que recolhe alguns dos temas mais representativos publicados na última década, é só mais um sinal deste entusiasmo. Porque para os escaparates das lojas de discos mais bem fornecidas entraram, só nos últimos meses, mais de 20 novos álbum de hip-hop feito em Portugal. Há um pouco de tudo, desde nomes incensados pela crítica como Sam The Kid ("Beats Vol.1"), passando por pioneiros como Boss AC ("Rimar Contra a Maré") e D-Mars ("Filho da Selva"), veteranos como os Mind da Gap ("Sem Cerimónias") e Micro ("Microlandeses"), ou sangue novo disposto a mostrar a sua raça como Infamous & Vrz ("100 Insultos").

  Os festivais e concertos ganharam igualmente novo fôlego, como foi demonstrado pela recente estreia em Portugal de nomes que, do lado de lá e de cá do Atlântico, arrastam um culto militante, caso dos De La Soul, J Live ou Blackalicious. Depois do terramoto provocado por Eminem, que passou de Diabo a Deus na Terra enquanto dura um "break", as televisões voltaram a centrar a sua atenção no hip-hop. E até os académicos se voltaram a interessar pela coisa. Depois de "Ritmo e Poesia", livro de António Contador e Emanuel Ferreira, publicado em 1997 com chancela Assírio & Alvim, surgiu recentemente nas livrarias a tese de mestrado de Teresa Fradique, "Fixar o Movimento", dedicada ao estudo das "representações da música rap em Portugal" no período que vai de 1995 a 1999.

  Para o núcleo duro de militantes do movimento, que já não é bem o mesmo de há dez anos, ainda existem consumíveis vários, para lá dos discos e dos concertos, capazes de dar cor à existência: quase de forma clandestina encontram-se revistas da especialidade, sítios na Internet, programas de rádio, muita parede para pintar e, sobretudo, um crescente interesse dos media que indica que algo pode estar para acontecer.

  Primeiros sinais.
  Entre o underground e o noticiário das oito, a verdade é que o hip-hop em Portugal não parou, nestes últimos dez anos. Resta saber onde vai chegar. Importado dos EUA, desde há uma década que a produção portuguesa se mostra em tudo idêntica e em tudo diferente. Até porque o caminho que vai da cópia à autenticidade - valor supremo numa cultura marcada pelo desenraizamento - não é assim tão longo, sobretudo quando se trata de regurgitar o passado em estilo livre.

  Há quem considere a Margem Sul do Tejo como uma espécie de representação lusíada do South Bronx de Nova Iorque. Miratejo e Almada são, também por isso, aceites como o berço do hip-hop em Portugal. Ainda na década de 80, Chuck D, dos Public Enemy, dizia que o "rap era a CNN dos pretos", mas a novidade chegava cá por via do cinema. Filmes como "Beat Street" instalaram a loucura de uma forma nova de dançar como o "breakdance" e o hip-hop começava, de mansinho, a instalar-se nos subúrbios de Lisboa e Porto.

  No final de 1989, o contexto sócio-político ajudava a que as coisas assim acontecessem. Grupos de skinheads fazem a exaltação de uma ideologia explicitamente racista e José Carvalho, dirigente do PSR, seria assassinado por um deles. O fenómeno é bem patente na Margem Sul, em zonas como Almada e Miratejo, onde se forma a primeira "crew" portuguesa. Os Beat Box Boys nunca tiveram uma existência formal mas ficaram para a história como uma aglomeração espontânea, necessária e suficiente para fundar o rap em Portugal.

  Da sua constituição fazia parte General D, moçambicano por ascendência e primeira figura de proa do movimento. Foi ele quem conseguiu captar a atenção dos media que então procuravam as primeiras manifestações do hip-hop em Portugal. Em 1992, o programa televisivo "Pop Off" grava excertos de um concerto em Almada e semanas depois o "Blitz" publica o primeiro artigo sobre o género, com protagonistas exclusivamente portugueses. No retrato de família ficaram General D, Bambino (Black Company), Nilton (Líderes da Nova Mensagem) e Maimuna Jales, entre outros aspirantes a rappers.

  D-Mars, hoje dos Micro, estava do outro lado do Tejo. Tinha vindo da Croácia e logo aos 16 anos formou a sua primeira banda, os Zona Dread. "Era algo completamente espontâneo até porque éramos muito poucos, não mais que 50 ao todo. Ouvíamos o programa do José Mariño na Rádio Energia, que funcionava como uma espécie de ponto de encontro. Pode-se mesmo dizer que o movimento nasceu a partir da rádio. Era para lá que mandávamos as nossas maquetas e lembro-me perfeitamente do primeiro programa preenchido exclusivamente por 'demo tapes'. Eu tinha mandado uma em nome individual, o Boss AC mandou outra sob a designação de Unknown Project..."

  O deslumbre e a depressão.
  O modo de produção do rap em Portugal, no início dos anos 90, era pouco mais que artesanal. Quando entraram em estúdio para gravar os temas de "Rapública", quase todos os projectos utilizavam a mesma caixa de ritmos para construir as batidas - uma Yamaha KY10 - que cedo se veio a mostar completamente desadequada para conseguir o efeito pretendido. É ainda D-Mars quem recorda: "Comprámos todos aquela caixa de ritmos na mesma altura, porque estava em promoção numa loja em Benfica."

  Os concertos aconteciam na Incrível Almadense ou no Trópico, hoje Armazém 7, ao lado da estação de Santos, em Lisboa, onde foi montado o palco para o primeiro festival de hip-hop em Portugal.

  Por vontade de imitar os seus ídolos, rimavam todos em inglês. General D era a excepção, tendo inclusivamente gravado, ainda nesta fase embrionária do rap em Portugal, o tema "Norte Sul", juntamente com Tiago Lopes dos Golpe de Estado. "Isso é visível no 'Rapública', onde ainda se encontram vários temas em inglês pois só no final de 1993 é que começámos a fazer algumas rimas em português", conta D-Mars.

  General D demonstrava já uma consiência política mais aguda, capaz de criar uma identidade centrada no afro-centrismo e na busca das suas raízes. O seu primeiro single, publicado em 1994 pela EMI-VC, intitulava-se "Portukkkal é um erro", numa clara alusão ao Klu Klux Klan, e contrastava com o lado mais festivo de outros projectos, como os Black Company, que cantavam coisas como "nós só queremos é diversão!"

  A edição de "Rapública", em Outubro de 1994, tornou-se, para o bem e para o mal, um marco histórico do hip-hop em Portugal. Ao contrário do que sucedia lá fora, onde se encontrava firmemente ancorado numa cultura marginal e não comercial, em Portugal foram as editoras multinacionais que começaram por apostar no hip-hop. A expectativa de vendas elevadas ainda se manteve depois da edição de "Rapública", mas aos poucos foi esmorecendo até redundar num afastamento quase total. Depois de "Rapública" ter conquistado um disco de prata, a Sony Music chegou a anunciar "Rapública 2" que, afinal, nunca viria a acontecer. E, do lote de convocados para o primeiro tomo da compilação, só os Black Company assinariam um contrato discográfico que não renderia mais do que dois álbuns.

  Paralelamente, os Da Weasel faziam edições de autor ou publicavam em marcas como a Dínamo, enquanto a Nortesul abria uma nova frente, ao contratar nomes como os Mind da Gap, Boss AC ou mesmo Cool Hipnoise.

  As modestas vendas dos primeiros discos de hip-hop, com a honrosa excepção da colectânea "Rapública", viriam no entanto a desinteressar as editoras multinacionais que se tinham empenhado no movimento. Da euforia inicial, o hip-hop passaria a uma certa depressão e a um redimensionamento que o deslumbre provocado por "Rapública" não tinha previsto. General D abandonou a carreira ao fim de dois álbuns - mantém um disco inédito cuja secção rítmica foi gravada na Jamaica por Sly Dunbar e Robbie Shakespeare -, os Black Company tiveram o mesmo prazo de validade e Boss AC, depois do álbum de estreia, juntou-se a Gutto, dos Black Company, para formar uma dupla de produtores que trabalhou essencialmente em discos publicados pela Vidisco.

  Novas agitações.
  Apesar de afastados das luzes da ribalta, os guerreiros não dormiam. Em 1997 abrem, em Lisboa, lojas como a Big Punch e a Godzilla (hoje Kingsize) que funcionam como os novos pontos de encontro. Não há discos no mercado mas a descida ao "underground" proporciona um novo percurso. As "mixtapes" de Bomberjack, Assassino, Kronic ou Cruzfader - um brasileiro que tinha chegado de França - começam a agitar outra vez o hip-hop, agora remetido para a produção caseira. Surgem então títulos que se vieram a revelar decisivos na viragem então operada e que prepararam o terreno para produções e edições mais sérias como "Subterranea MCs", "Reencontro do Vinil", "Lisboa-Porto" ou "Colisão Ibérica".

  Estamos em 1999 e os personagens agora são outros. Surgem também novos pólos de atracção. Em Carcavelos nasce a Microlândia, e no Porto, Leixões ou Vila Nova de Gaia começa a notar-se alguma agitação. Micro, Chullage, MatoZoo, Mundo Complexo ou Valete são nomes que dão corpo a uma segunda vaga decidida a abraçar o faça-você-mesmo e a dispensar o apoio das grandes editoras. São então publicados os álbuns de estreia dos Micro ("Microestática"), Filhos de Um Deus Menor ("A Longa Caminhada") e Sam The Kid ("Entretanto"). No deserto começava a perceber-se um oásis.

  Por Miguel Francisco Cadete para o "Y" (de "O Público")

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