Homens De Palavra
O hip hop português voltou a dar que falar. Os álbuns, na sua maioria nascidos de edições independentes, vendem-se aos milhares. Os telediscos, quase todos de produção caseira, chegam à TV Cabo. E um rapper de Chelas foi considerado pela crítica especializada, o artista nacional do ano 2002. Quase uma década depois do lançamento da colectânea “Rapública”, para onde vai o hip hop nacional? A mensagem vinda das ruas ainda é o mais importante? Perguntas com várias respostas, dadas por MCs, DJs, produtores e até um sociólogo.
A conversa podia começar em Chelas, na Arrentela, em Linda-a-Velha ou na Amadora, mas começou em Benfica na cave de um centro comercial. E logo com um sociólogo a dizer: “O hip hop é um autêntico laboratório da música e da linguagem. É algo que se inventa ad eternum.” António Contador não fala em teoria. Antes de ser docente na Escola Superior de Educação de Santarém, andou pela cena hip hop do Montijo com o amigo Emanuel Ferreira, o mesmo com quem haveria de assinar, no final de 1997, o livro “Ritmo & Poesia – Os caminhos do Rap” (Assírio & Alvim), onde aparece a frase: “O rap, no fundo há-de remar sempre contra a maré porque é esse o seu desígnio e é esse o seu papel.” Ainda será assim? Sam The Kid, um rapper de vinte e poucos anos, foi eleito, pela crítica musical, o artista português do ano 2002, com direito a reportagem no telejornal. E as “mix tapes underground”, espécie de cassetes piratas de circulação reduzida deram lugar a CDs que se encontram nos supermercados culturais. O que mudou entretanto? As respostas podem ser muitas, mas fomos à procura das menos escutadas. As dos artistas que, vindos da rua ou quase, começam agora a dar que falar. São MCs (mestres de cerimónias), DJs (disc jockeys), produtores, ou tudo ao mesmo tempo. E não têm medo das palavras.
Como numa rima, saltamos do centro comercial para um café junto à igreja de Benfica. Sentado à mesa, numa manhã chuvosa de Fevereiro, Valete, autor do álbum “Educação Visual”, fala como se desse uma lição. “O rap já não é, de todo, a música dos subúrbios. Isso foi antes de 95, nessa época é que era o som dos guetos e dos negros. Agora, não há hipótese. Qualquer miúdo, em qualquer lado, ouve hip hop. O público é muito heterogéneo e há até quem faça rimas no Alentejo”. Donde vem esta capacidade de conquista? O sociólogo António Contador já deu uma dica, mas é Rui Miguel Abreu, sócio da independente Loop Recordings e produtor, que, na sua cave de Linda-a-Velha avança agora com uma explicação. “Este é provavelmente o único género musical que se conseguiu impor de uma forma verdadeiramente universal, pois nele nunca se colocou o problema da língua. O hip hop tem essa incrível capacidade de se instalar num país e absorver as suas marcas de identidade”, defende, continuando: “Claro que numa primeira fase, os músicos usam as influências americanas, mas depois começam a pensar que as suas próprias heranças e raízes podem ser utilizadas. Assim, há hip hop em espanhol que sampla música cigana, hip hop francês que sampla música árabe, hip hop português que sampla fado. Tenho a certeza que, neste momento, já há hip hop no Afeganistão.”
Mas será só esta facilidade de adaptação que conquista cada vez mais público para o hip hop? Todos estão de acordo: não. Há muito mais. Voltamos a Benfica e ao centro comercial para ouvir António Contador: “Parece-me que o hip hop remete para o conceito de ‘pop arte’, pois retoma ao espírito do faça você mesmo contra o ‘mainstream’ reinante.” O sociólogo vai mesmo mais longe. “O hip hop cativa porque há esse lado de ‘home made’, não é necessário saber música, ler uma pauta, andar em escolas. Para mim, o crédito mais glorioso do hip hop foi dizer às pessoas de todo o mundo, independentemente de serem pobres ou ricas, que este é o caminho para quem quiser usar a voz como forma de expressão artística.” Noutra cave, desta vez nos prédios do bairro da Boa Hora, na Arrentela, Chullage, autor de “Rapresálias...”, concorda e também tem uma teoria. “Se medíssemos a quantidade de palavras que metemos num verso, dava para muita gente escrever dez músicas. Conseguimos dar bué informação e isso é cativante”. Valete, bebendo a sua bica, também irá dizer que, “actualmente, não há nenhum estilo musical onde se trate tão bem as palavras como no rap, onde se coloque tantos neurónios a funcionar”. Daí que, para Chullage, “a comunidade urbana, seja brancos, pretos ou amarelos, pegue no hip hop”. E acrescenta: “Há liberdade, pode dizer-se o que se quiser.”
Mas será mesmo assim? É aqui que começa o desacordo. É o próprio autor de “Rapresálias...” quem lança a primeira pedra. “Para mim, o hip hop não é aquela cena americana do consumismo. Bué de carros, bué de roupa, bué de loiça… É a palavra. O rap é a minha arma de contra-propaganda ao que é publicado nos jornais e emitido pela TV. Falo daquilo que os jornalistas não falam, que omitem, a que atribuem clichés, que estigmatizam. Não gosto do materialismo, é o dinheiro que mete os putos a matarem-se uns aos outros.” Nos Guardiões do Movimento Sagrado, Darkface, Biggy e DJ Link estão de acordo. Afinal, o seu disco de estreia, “Guerrilheiros do Hip-Hop”, é um manifesto contra o sistema. “Como poderia não ser? Os mais fracos continuam fracos e os mais fortes estão cada vez mais fortes”, atira Biggy. Oriundo da Amadora, este colectivo não tem a vida facilitada. Depois do trabalho, onde calha, têm encontro marcado no parque central ou mesmo na estação de comboios. É aí que buscam inspiração para os seus temas e treinam as primeiras rimas. “Estamos no hip hop por amor à camisola, por acreditarmos na importância da mensagem”, adianta Biggy, sob o olhar atento dos companheiros. E Darkface acrescenta: “Vivemos numa falsa paz. As armas continuam a ser enviadas pelas superpotências para o continente africano e não só. Depois, o racismo está aí nas ruas. O mundo está mal. Precisamos desabafar e, doa a quem doer, vamos abrir a boca.”
Em Linda-a-Velha, D-Mars, líder dos Micro e sócio da Loop Recordings, vê as coisas noutra perspectiva e não tem medo da polémica. “Não acredito que o hip hop tenha de ser apenas interventivo, porque isso seria negar as suas raízes. As primeiras rimas falavam de festa, não de revolução. O hip hop é muito vasto e, se encontrei nele o meu espaço de expressão, posso rimar o que me apetecer.” Sam The Kid, o artista nacional do ano 2002, alinha por esta vertente. E, sentado à mesa de um café de Chelas, diz o que lhe vai na alma. “O hip hop está num nível que deve ser usado por todos. Mesmo que a minha vida não seja interessante o suficiente, porque felizmente nunca me aconteceram cenas dramáticas, posso exprimir a minha forma de ver o mundo. O hip hop não tem de estar sempre ligado a problemas e ter um papel político.” E o autor de “Beats Vol.1 – Amor” lança a sua crítica mais além. “Também não é por se estar ligado a uma multinacional que se é um vendido. Por exemplo, gosto sinceramente do Eminem, estou-me a cagar se ele é cada vez mais conhecido ou não. Nunca se pode tirar o mérito e o talento àquele gajo”, defende. As suas palavras encontram eco junto de D-Mars. “essa relação de amor-ódio do hip hop com o dinheiro sinceramente já me irrita. Antigamente, dizia que nunca iria rimar por dinheiro, mas agora que não tenho mais nada para fazer tenho também que rimar por dinheiro”, confessa o líder dos Micro. E aqui podia escutar-se o sociólogo António Contador constatar: “No fundo, o hip hop seguiu apenas a lógica normal de emancipação de produtos artísticos que vão ganhando expressão global.”
Opiniões divergentes à parte, estes artistas são incrivelmente unidos e noutra coisa estão de acordo: o poder deve estar nas mãos dos criadores. Daí que estejam a preparar o nascimento de uma nova editora, concorrente da Loop Recordings. “Vamos ser, tal como eles, uma das poucas editoras nacionais a respeitar a criatividade do artista, trabalhando desde a criação à distribuição”, avança Valete, um dos responsáveis pelo projecto. Chullage adianta mais pormenores, sem, porém, estragar o segredo que é a alma do negócio: “Vamos ter cinco equipas de produtores a trabalhar sob um único nome, Kombate. É a nossa forma de ganhar terreno numa área dominada pelas multinacionais, mas mantendo a independência.”
Kacetado é um dos rappers cujo primeiro álbum sairá já com este novo selo. Oriundo do Cacém, tem, aos 22 anos, um longo passado musical. Agora, quer brilhar. “Vou ter bué de participações importantes, do DJ Cruzfader ao Sam The Kid, passando pelo Chullage”, confessa, acrescentando: “O hip hop português está bom, está a ferver de cenas novas.” E, como numa rima, Valete conclui de forma redonda: “Vão acabar por aparecer gajos a dizer que o que é bom na vida é ter dez mulheres e quilos de dinheiro, mas isso é natural. O rap português vai deixar de ser um movimento único e depois se verá quem permanece fiel à essência.”
Valete
A voz da consciência
Se alguém se cruzar com ele numa rua de Benfica, não imagina que ali, debaixo das roupas desportivas usadas por qualquer jovem, vai o autor de “Educação Visual”, um dos álbuns de hip hop que mais atenções chamou em 2002. Valete gosta desta invisibilidade, pois, na sua opinião, o importante não é o rosto, são as palavras. “O Valete é uma personagem que só tem olhos, pensamento e voz. Fisicamente não existe, mas absorve tudo o que vê, deixa o cérebro ajuizar e depois expressa-se através do rap”, conta. O nome tem razão de ser, porque nele tudo faz sentido. “Lembro-me que vi um documentário num canal qualquer, onde os gajos estavam a falar de ilusionismo e diziam que, quando se faz um truque de cartas, se alguém escolhe o valete, a probabilidade de a cena dar certo é muito reduzida. Gostei da coisa porque achei que o valete é aquele que traz a verdade ao de cima.” A sua verdade não é, no entanto, para quem acredita em mundos cor de rosa. E a explicação sai de rajada. “Vamos olhar à nossa volta, sair do nosso pequeno universo quotidiano e abrir bem os olhos. O que vemos? Um mundo de capitalismo selvagem, de miserabilidade humana, de desigualdades extremas, um mundo do mal.” Pessimista? Ele garante que não é nada disso. Pelo contrário. “O Valete acredita num mundo mais humanista, altruísta e justo, senão qual era o sentido de andar a rimar? Há que apostar no pensamento revolucionário e usar as palavras para atrair mais adeptos para a revolução necessária”, justifica-se, acrescentando para quem ainda não percebeu: “A minha música é para o público ‘underground’, é dura e de intervenção.”
Criado nos subúrbios da capital, numa dança que o levou de Benfica para Amora e daí novamente para Benfica, iniciou-se cedo no mundo do hip hop. “Na adolescência, comecei a criar o gosto pela música e, através de um primo, entrei em contacto com o rap. Na altura, percebi logo que aquele espírito revolucionário se aproximava da minha personalidade, depois comecei a educar-me, a ler coisas, a observar”, recorda o autor de “Educação Visual”, preparando-se para a sentença. “Acredito que as palavras mudam as pessoas, portanto pensei que se escrevesse umas rimas podia tornar melhores aqueles que me rodeiam.” Filho de pais são-tomenses, essas palavras saem-lhe em português. “Não sei falar crioulo e o inglês não me interessa, a minha realidade é a portuguesa”, afirma. Daqui a pouco, vai desaparecer como chegou, uma sombra por entre a chuva de Fevereiro. Valete tem 22 anos e estuda Ciências da Comunicação.
Chullage
O músico da rua
Chullage fala como canta, com ritmo e tenacidade na voz. “Sou um fotógrafo, pego nas imagens da vida e transformo-as em poesia. Recrio as cenas da rua. O Rap é a minha forma de expressão, o meu instrumento de propaganda. O meu hip hop é bué político, bué social. Não rimar só por rimar. Não sou ‘fashion’, sou de intervenção”, apresenta-se. A sua imagem dura diz o mesmo sem precisar de palavras. Mas o autor de “Rapresálias...” gosta de as usar para explicar tudo. “Sou segunda geração, os meus pais são cabo-verdianos, estão aqui há 30 e tal anos. Cresci como todos os ‘brothers’, na rua. Ia á escola se me apetecesse, fumava droga se quisesse, não havia ninguém com tempo para me controlar. Mas não é por isso que tenho um ‘handicap’, irrita-me os clichés que nascem daqueles que não tentam conhecer e compreender realidades distintas. Não podemos ser superficiais, o tempo dos antropólogos etnocentristas já passou.” Aos 26 anos, Chullage tenta equilibrar-se entre dois mundos. “Nasci em Portugal e luto por conciliar aquilo que os meus pais trouxeram de Cabo Verde com o que este país me dá. Não é fácil, mas tem de haver vontade das duas partes”, afirma, confessando: “Estudo sociologia do trabalho, um dia vou ser um gajo dos Recursos Humanos a quem vão pedir para aplicar os preconceitos que agora combato. Isto é conflituoso e paradoxal. E, sobretudo, dá que pensar que tipo de sociedade é esta.”
Com uma adolescência passada no Monte da Caparica, foi lá que o hip hop apareceu na sua vida. “O ritmo, a linguagem, as palavras, tudo isso me cativou. Depois comecei a escrever umas cenas bué canucas e quando me mudei para a Arrentela, e me aconteceram umas cenas maradas, é que escrevi uma música inteira”, recorda. Foi o arranque, mas não foi fácil chegar ao primeiro álbum. Foram quase dez anos de ‘mix tapes’”, lembra Chullage, que se juntou a DJ Sas para criar “Rapresálias...”. “Ele é luso-descendente, cresceu em França e, por incrível que pareça, viveu lá cenas parecidas com aquelas que me aconteceram aqui. O mundo é pequeno quando toca à hipocrisia e à discriminação, seja de brancos ou pretos”, conta. Êxito inesperado, com milhares de cópias vendidas e um teledisco caseiro a passar no Sol Música, o disco já tem sucessor. “Não vou fazer um álbum cor de rosa. Passaram dois anos, mas continuo a combater as cenas capitalistas, racistas e globalizantes. E também vou lutar contra aqueles gajos que só usam o hip hop para promoção pessoal. Eu não mando recados, digo. E quem não gostar, paciência.”
Sam The Kid
A poesia está nas rimas
Para quem foi considerado, pela crítica especializada, o artista nacional do ano 2002, Sam The Kid está muito calmo. Sentado no café do seu bairro, por onde circula grande parte do dia e se sente à vontade, Samuel é ainda um puto de Chelas. “Agora, não me apetece dar concertos. Há quem me telefone a pedir, mas não estou nessa. Há que saber sair no momento certo, não fatigar as pessoas, deixá-las sentir saudades e depois voltar. Isto não é mania, é uma defesa criativa. Não quero ficar cansado de andar sempre a cantar as mesmas músicas, quero criar cenas novas”, desabafa. Afinal, bem pode descansar. No ano passado, lançou dois álbuns em nome próprio (“Sobre(tudo)” e “Beats Vol.1 – Amor”) e assinou colaborações em muitos outros. “Deixei de ter pressa, o meu próximo disco vai ser nas calmas, até porque é o trabalho pelo qual sempre esperei. Vai ser o primeiro sem desculpas, gravado num estúdio, com todas as condições”, afirma. As suas aspirações são altas e Sam The Kid não tem vergonha de confessar um sonho. “Quero que digam que sou poeta. Juro. É a esse nível que quero chegar. Ando a trabalhar na estrutura das rimas e nas minhas músicas todas as sílabas vão rimar. Nem que tenha que passar os dias metido no laboratório.”
O laboratório é o seu quarto, ou não fosse Sam The Kid a personificação, por excelência, do espírito faça você mesmo do hip hop. “Há quem diga que estou sempre metido em casa, mas esquecem-se que estou a trabalhar. E nem sequer tenho um grande equipamento, apenas o suficiente para estar ali entretido a criar para mim e para uns amigos”, conta. A primeira caixa de ritmos foi comprada na adolescência, altura em que formou um grupo com “o pessoal que andava lá na escola”. Mas terá sid aí que tudo começou? O artista tem dúvidas. “Quando é que começa a contar? Quando já és bom ou quando fazes uma cena de merda, mas estás a tentar criar? Para mim, é tudo relativo. Até pode começar aos oito anos, pois nessa altura já fazia rimas e as minhas composições eram em verso. Acho que isto é uma coisa que nasceu comigo.” Sam The Kid sabe que tem sorte. A mãe, com quem vive, sempre o apoiou e o pai, apesar de mais distante, segue-o atentamente. “Aceitaram o hip hop. É tão engraçado, a minha mãe sabe o nome dos MCs, tem favoritos, consegue cantar algumas músicas. O meu pai é uma espécie de ‘business man’, um intruja que tenta vender coisas às pessoas, e abre-me a pestana, alerta-me para eu lutar pela minha independência”, conta, rindo. Talvez por isso lhes tenha dedicado “Beats Vol.1 – Amor”.
Rui Miguel Abreu e D-Mars
Independência criativa
O hip hop apareceu nas suas vidas por cominhos diferentes. Rui Miguel Abreu deixou-se fascinar nos anos 80 ao ver um telejornal que falava de uma nova moda norte-americana. D-Mars não o esqueceu após escutar uns sons vindos através dos canos do prédio onde vivia no início dos anos 90. Um estava em Portugal, o outro na Croácia. Mas a vida dá muitas voltas e uma guerra no coração da Europa acabaria por juntá-los em Lisboa. Rui já tinha sido crítico musical, dono de uma loja de discos, uma das figuras de proa da Editora NorteSul, produtor. D-Mars, chegado ao nosso país em 1992, deixou-se levar pela cena “underground”, onde explorou todos os recantos do hip hop. Até que, há cerca de dois anos, chegou o momento. “Numa altura em que a escola já não está a acontecer e a única coisa que se tem é o hip hop, pensa-se: ‘Já que me lixei por causa disto, vou transformá-la em algo positivo’. Primeiro, ainda tentei fazê-lo sozinho, mas depois o Rui ficou disponível avançámos para a Loop Recordings”, lembra o líder dos Micro, sob o olhar atento do sócio, que acrescenta: “As nossas experiências complementam-se, a editora foi uma boa união de esforços.”
A julgar pelos trabalhos publicados não há como duvidar. É da Loop Recordings, por exemplo, o álbum “Beats Vol.1 – Amor”, de Sam The Kid. “Temos dois tipos de edições, as instrumentais e as vocais, onde só iremos publicar música que gostamos e acreditamos”, avisa D-Mars. Rui Miguel Abreu vai mais longe nesta declaração de independência criativa. “Temos uma série de projectos que implicam a abertura da nossa visão a estímulos exteriores. Por um lado, sabemos o que é o hip hop mais ortodoxo e isso interessa-nos, mas, por outro, não temos medo de o abrir a novas influências. Quero ser um reformado da Loop daqui a 30 anos, mas não quero estar 30 anos a editar o mesmo disco”, afirma, acrescentando: “O nosso ‘output’ é de qualidade e temos muito espaço para crescer. Se isto é o Empire State Building, ainda só vamos no 20º andar!” Para já, foram convidados para programar no Festival SuperBock SuperRock. “Vai haver uma noite de hip hop no Coliseu do Porto e outra em Lisboa, a 1 e 2 de Abril, com Micro, Sam The Kid, Mundo Complexo, Fuse, e ainda com os norte-americanos De La Soul, uma das nossas maiores inspirações”, avança Rui. Afinal foi também ele que ainda pouco confessou: “Não achamos que a indústria seja um papão e queremos funcionar dentro dela, mas o facto de sermos pequeninos dá-nos maior maleabilidade de acção. E nós gostamos disso.”
Por Cristina Azevedo para o "GLX" (suplemento do jornal "A Capital")
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