“Desculpa, euuu canto Rap!”
“Eles têm a mania que o Rap é masculino”. Elas (Hard-Hoof) têm a certeza que não. Mas a realidade é que há poucas referências femininas no Hip Hop português. A juvenil apresenta-te um quarteto de miúdas que concilia os estudos da secundária com o sonho de fazer Rap e agitar a multidão. E porque também há veteranas no Hip Hop fomos falar com a Jeremy das J.J.’s.
A “Pi” (nickname de Patrícia) não pôde vir ao estúdio ensaiar. Por isso, “Sean Queen” (nick de Oriana) vai puxar pelo fôlego e transformar em solo o dueto de um dos temas. A “Star” (na realidade, Edinete) ainda não se habituou ao “mike” (microfone) e a Jan (Jandira, no B.I.) aproveitou para treinar beat-box. Resta dizer que alguns dos beats (sons que servem de fundo para o Rapper rimar) foram feitos por “1º G”, (nome artístico de um dos MCs dos TWA – Third World Answer – um grupo de Oeiras que já faz hip hop há dez anos). Ufa. Ainda estão aí? OK, o movimento hip hop tem destas coisas. É preciso entrar no flow, aliás, no ritmo e fluência das palavras cantadas, uma das preocupações destas principiantes do Rap, que existem há menos de um ano, e se chamam Hard-Hoof. A escolha do nome deixa pistas sobre a mensagem que querem passar: miúdas, mas duras. Com idades entre os 17 e os 19, de ascendência angolana, salvo a Pi que vem da Amadora, as restantes vivem em Oeiras.
No estúdio alternativo em Lisboa, onde a juvenil as ouviu rimar, ensaiam quatro temas que falam sobre o vício do hip hop (uma doença para a qual dizem não haver cura), preconceito, exclusão social, injustiça e falta de liberdade de expressão “num mundo de brancos e pretos”.
“Deus, afasta-me os falsos brothers”
“Eles têm a mania que o hip hop é só masculino e que as miúdas vão ao movimento [aos concertos] só para arranjar namorado, ou exibir as roupas”, diz Jan. O resto do grupo concorda: ora aí está um preconceito entre o próprio universo musical que querem combater. O Rap pode usar saias, e “se houvesse mais raparigas entre os artistas e o público”, a atitude nas festas de hip hop podia ser mais positiva, explica Sean Ocean. No fundo, as Hard-Hoof contestam alguma violência associada ao hip hop, que se importou da realidade americana onde tantas estrelas morrem assassinadas (2PAC, Notorious Big e muitos outros). “As pessoas até dizem que os bandidos é que fazem o Hip Hop, mas não. Muitos já eram bandidos antes. Isto é mau porque influencia mentalidades, mesmo em Portugal. Cá também há rivalidades entre grupos, entre zonas, e conflitos nas festas”, diz Jan. E é esta atitude que querem combater. Menos violência nos concertos, menos rivalidades entre músicos e mais apoio dos veteranos aos que agora se estreiam no Rap.
No que toca a rivalidades no feminino, deixam o aviso: “os rapazes bem tentam promovê-las, mas ainda é pior. Agora, cada vez que nos vimos (grupos de “damas”) a festa é maior”, diz Sean Ocean.
As primeiras MCs femininas nos EUA rimaram sobre o mesmo preconceito masculino que as considerava impróprias para o Rap. Money Love, Salt N’ Pepa, Queen Latifah são alguns exemplos. Em Portugal, muitos anos depois, as rappers continuam a bater-se pelos mesmos direitos. Ou seja, além das dificuldades inerentes ao movimento underground, que procura circuitos alternativos de edição e divulgação, as rappers ainda têm a barreira chamada preconceito sexual. “Parece que não têm confiança nas damas! Às vezes vêm ter contigo e dizem: ‘Olha, queres rimar connosco no próximo concerto?’ E depois só querem uma voz feminina para fazer um refrão. Foge!!! Eu digo logo: ‘Desculpa, euuu canto Rap!’”, conta Jan.
“A música que nasceu no gueto”
“O meu flow? Não sei explicar. Tento mostrar agressão e suavidade ao mesmo tempo”, aponta Sean Ocean, e Jan remata: “Ela quer ser como o Padre António Vieira”. Risota, claro, na mesa de um café perto de um estúdio onde a conversa correu. E Sean prossegue a explicação num tom teatral que lhe é próprio: “O meu flow é uma mistura entre cantar, falar e representar”.
Quanto a Star, gostaria que fosse mais agressivo, como o de muitos rapazes (“sem desprezar as vozes femininas, que eu gosto muito”). E Jan tem visto no espelho um bom conselheiro, apesar de não ter tido ainda coragem para estrear flows que treina sozinha (“falta-me desinibir mais”). De qualquer modo, no primeiro concerto da banda, o à-vontade em palco era muito menor. Nessa altura era constituída por Star, Jan e Karine (Sean Ocean e Pi ainda não fazia parte), e no primeiro concerto que deram, no IPJ do Oriente, em Lisboa, Jan teve uma branca. Ficou estática a olhar para o público sem lhe sair uma só rima. Entre o público estava Sean Ocean que saltou para o palco e com um berro de pânico (“Canta! Jan!”), lhe desentupiu a garganta. Por enquanto, as HH não têm trabalho editado. Esperam amadurecer rimas, flows e beats para começar a pensar nisso. Até lá, querem poupar dinheiro para comprar um sampler, pois a solução de fazer música na playstation (muitos rappers sem produtor fazem os próprios beats assim) não as satisfaz. Por enquanto, contam com o apoio do DJ Link que lhes faz alguns beats e as acompanha a alguns concertos. Quanto a rimas são feitas por todas, depois de definido um tema.
Chullage, Dupla Consciência, Nigga Poison e Esquadrão Central são alguns dos nomes do hip hop nacional que estão entre as preferências das Hard-Hoof. Lá fora, gostam do trabalho de Jay-Z, Notorious Big, Busta Rhymes, Pitt Bacardi, Première Classe, Dilated People, Laurin Hill.
“Não é um estilo de música, é um estilo de vida”
Jeremy tem 27 anos, vive em Lisboa, mas diz que não representa sítio nenhum. “Eu sou do mundo. E essas barreiras e competições são completamente estúpidas”, explica à Juvenil. Foi em 95 que começou a cantar Rap. O grupo era cem por cento feminino e chamava-se Djamal (quatro rappers): “Naquela altura havia mais miúdas a fazer Rap. O movimento estava a rebentar e nós começámos por brincadeira, numa de nos divertirmos”, explica. Hoje, a banda de hip hop da Jeremy chama-se ”J.J.” (ela e a Tânia), mas continua a ver o projecto como um “hobbie”, apesar de levar as coisas “com mais seriedade: Em vez de irmos ao psiquiatra, cantamos”.
Jeremy não se surpreende por haver poucas mulheres no Hip Hop: “Entendo que elas desistam. É um movimento tão agressivo e revoltado! E as mulheres não são assim, são mais sensíveis”, diz. No seu caso, há uma explicação. Sempre foi “Maria Rapaz” e acha-se revoltada por natureza. Além disso, lembra que no Hip Hop masculino também há muita gente a rappar “porque está na moda ou para arranjar raparigas”. De qualquer modo, para Jeremy, esta é uma questão que deixou de fazer sentido. “No princípio, não compreendia que havia uma diferença e não queria aceitar, mas isso hoje já não me interessa. Se somos bons, as pessoas dão-nos valor”, argumenta. Muito mais importante é a vertente política do Rap. Sobre essa, está disposta a argumentar: “Uma pessoa que vive bem, não tem muito de que se queixar, pode desenvolver as suas aptidões. Mas o pessoal que vive no ‘gueto’ tem muitas coisas para dizer e recorre ao Rap, uma maneira que não te exige muito dinheiro. Por isso é que não é um estilo de música, é um estilo de vida”, conta Jeremy.
Por Isabel Freire para a revista "Juvenil" (do Montepio Geral)
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