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H2T - HipHop TugaReportagem com os Guardiões do Movimento Sagrado in "Blitz" nº941 de 12/11/2002

Frente de Combate

  Os G.M.S. não trazem apenas mais um exemplo de vitalidade do hip-hop. São também um exemplo de postura de vida, de perseverança e de amor à camisola. «Guerrilheiros do Hip-Hop», o seu álbum de estreia, é isso e toda uma série de histórias que esconde. Eles aí estão, Darkface, Biggy e DJ Link, guardiões da sua própria história.

  G.M.S. abrevia um nome quase tão extenso quanto longa tem sido a caminhada do projecto que nomeia: Guardiões do Movimento Sagrado. Após quatro anos de existência, vêem o álbum «Guerrilheiros do Hip-Hop» premiar a perseverança num percurso sinuoso: «A história é um bocado complicada» - começa por avisar Darkface, o mais interveniente - «Nós, na Amadora, temos o Parque Central e foi aí que comecei a fazer hip-hop, há já uns bons anos. E fui fazendo hip-hop, tinha um grupo que começou a levantar-se mas que depois teve uma quebra, porque um membro teve que ir a Moçambique e, por azar, faleceu lá por altura das cheias. O grupo chamava-se Four Gentlemen e tinha futuro porque o moço que faleceu, que se chamava Giorgio, era um grande produtor. O grupo acabou mas continuei a seguir o hip-hop. Volta e meia ia ao Parque Central, que é o nosso santuário, onde nos encontrávamos todos e onde aparecia também o Biggy». Biggy, mais reservado, acrescenta: «Eu nessa altura tinha um grupo, os Afroblood. Estive três anos com eles mas acabou por não correr bem». Darkface faz então a ligação dos percursos: «Queria voltar à actividade e fui fazer uma música com o grupo dele, os Afroblood, uma fusão que correu bem. E daí deu-nos na cabeça, já que ambos morávamos na Amadora, dar o passo. Formámos os G.M.S. [Depois] O DJ Link entrou, há cerca de um ano, e fomos trabalhando».

  Após participarem em várias mixtapes, o álbum surge como consequência lógica, embora não fosse um objectivo inicial: «Formámos os G.M.S. por brincadeira, por amor ao hip-hop, não era com o objectivo de um dia gravar um álbum. Não foi planeado. Mas passados esses anos todos quisemos fazer mais e decidimos fazê-lo. Depois estabelecemos contactos com a Edel, que é mais distribuidora do que editora, levámos-lhes uma maqueta, eles adoraram e aceitaram distribuir o disco». Biggy precisa um pormenor importante: «O que gostámos em relação à Edel foi não nos estabelecerem limites. Foi uma cena nossa. Fizemos e eles distribuíram». Mas os G.M.S. não estiveram de todo sozinhos neste passo. Com eles estiveram uma série de produtores e MCs que vão fazendo algum do melhor hip-hop português: «Uma cena que foi fundamental nessa altura foi o DJ Cruzfader. Ele deu-nos apoio, aconselhou-nos, produziu grande parte do álbum e deu grande parte do seu tempo, que era pouco. O Chullage e o Sam The Kid eram pessoas de que já gostávamos antes e com quem íamos falando. Em relação à Geny, vimo-la num concerto, achámos que tinha uma grande voz e convidámo-la. O pessoal da linha de Sintra, a Telma (que é uma amiga de há muitos anos), acabou por ser quase tudo pessoas ligadas a nós, que cresceram connosco no hip-hop» Como vai sendo notório, apesar de uma quantas questiúnculas territoriais, o espírito de união acaba por tornar-se denominador comum na(s) comunidade(s) hip-hop: «Quando há um álbum, a tendência é as pessoas juntarem-se. No hip-hop dependemos de nós próprios. Somos uma comunidade, uma família. O hip-hop ainda sobrevive de amor verdadeiro. Não ganhamos a vida com o hip-hop. Trabalhamos, damos, para fazer o nosso hip-hop, e quando há um álbum as pessoas juntam-se. É uma família, embora haja intrigas, mas quando é preciso estamos lá».

  «Guerrilheiros do Hip-Hop» poderá indiciar um disco violento, mas a sua escuta assegura que, embora de conteúdo cru, o que ali se realça é o espírito combativo no quotidiano: «Para se estar no mercado tem que se ser guerrilheiro. Tivemos muitos obstáculos. Ao princípio não tínhamos muito apoio, então batalhámos e estamos aqui , “Guerrilheiros do Hip-Hop”, fizemos por isso», diz Biggy. «Não é só um nome. Tivemos de batalhar contra tudo e todos. É preciso ser-se guerrilheiro para se ter alguma coisa neste mundo, tem que se batalhar e seguir em frente», acrescenta Darkface. No seu comunicado de imprensa, o projecto afirma que mais do que um disco de intervenção, este é um desabafo: «Todo o músico tenta desabafar nas suas músicas – amores traídos, bem sucedidos, etc. Nós mostramos aquele lado de que ninguém fala. Se formos a ver, a vida não é tão bela como se possa crer. Uns são bem sucedidos, outros não. Uns têm milhões, outros não têm nada. No hip-hop estamos do lado dos que não têm nada, desabafamos o que sentimos, usamos a nossa experiência. É isso o desabafo. Falamos também sobre o movimento hip-hop, que é o nosso movimento, a nossa força, a nossa luta, a nossa vida, o nosso amor, o nosso fanatismo». Segundo os mesmos, tamanha dedicação estará a produzir resultados: «Agora há mais união, mais trabalho, mais participações. Hoje já se consegue pegar em cinco edições de hip-hop tuga e dizer: “Este é do Chullage, é a visão dele. Este é do Sam The Kid e é ele que lá está, tal a qual”. Já não é a mesma história de há cinco ou seis anos, em que tudo o que se fazia era quase igual, à base de freestyle. Agora já cada um dá a sua visão».

  Nos próximos tempos não vão faltar oportunidades para se encontrar os G.M.S., tanto no que diz respeito a concertos como a participações em diversos projectos: «Temos a agenda quase cheia até Dezembro. Vamos entrar em várias mixtapes – na do Cruzfader, na do Bomberjack (com hip-hop tuga e francês), vamos entrar no álbum do Bad Spirit e em princípio no do Xeg».

  Por Sérgio Gomes da Costa para o "Blitz"

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