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H2T - HipHop TugaReportagem com Fuse in "Blitz" nº954 de 11/02/2003

Núcleo Sintonizado

  Entrevistámos Fuse, «uma pessoa muito calma, um amante da vida», sobre sua existência atrás do microfone. Enquanto tal, é um dos expoentes do hip hop underground e «Sintoniza…» o álbum que o traz de volta às edições. Mas não é desta que a devastação vai acalmar.

  «Sempre fui de meter tudo para dentro de mim. Quando o hip hop apareceu na minha vida foi uma forma de deitar tudo cá para fora». Já lá vão 10 anos desde que «aquele puto fechado no quarto, que transformava cassetes e livros em magia» começou no hip hop. Foi o tempo em que Fuse, com instrumentais alheios e dois gravadores de cassetes, começou a produzir os primeiros temas caseiros. Foram esses exemplos da técnica do «pause-rec» que usou como cartão de visita quando se encontrou com Expião. Daí resultou a criação dos Fullashit, com direito a maquetas e esforços para divulgação na Antena 3. O ano da graça de 1995 viria a remeter para novas mudanças. Fuse e Expião cruzam os seus caminhos com os de Guze e Mundo (dos Factor X) e decidem unir esforços num projecto seminal do hip hop português, os Dealema. A partir daí os acontecimentos sucedem-se, à velocidade que a realidade portuguesa permite. A gravação da maqueta «Expresso do Submundo» afirma os Dealema no panorama nacional, participam no primeiro álbum dos Mind da Gap, aparecem um pouco por todo o lado, em concertos, mixtapes, álbuns. No entanto, e apesar de serem um colectivo profícuo, os membros dos Dealema não se impedem de gravar álbuns em nome próprio. Fuse estreou-se em 2001, com «Informação ao Núcleo», e volta a repeti-lo agora, com «Sintoniza…».

  A conversa começa precisamente por aí, pela estranheza de este ser o segundo disco de Fuse, de haver iniciativas iguais por parte dos restantes elementos dos Dealema e de ainda não haver nenhum álbum do projecto que os une: «Não estou nos Dealema, sou uma parte dos Dealema. Antes do meu projecto a solo estão os Dealema. É aí que quero basear o meu futuro e é aí que me quero adiantar. Temos demorado algum tempo para conseguir gravar um álbum – já está quase todo gravado e vamos finalmente lançá-lo, é o nosso sonho. Só há aqui uma outra questão: sempre fui muito independente, em tudo na vida, e tenho que estar sempre a trabalhar. Mas gosto principalmente de trabalhar para outras pessoas. Portanto, o facto de o álbum dos Dealema não sair, não quer dizer que não grave dois, três, quatro álbuns a solo. Não gosto é de estar parado, tenho de estar sempre a fazer música.

  Tal como o título indica, «Informação ao Núcleo» foi um disco dirigido à comunidade hip hop, o que sai reforçado por uma frase da sua contracapa: «Para distribuição exclusiva no mercado negro». «Sintoniza…», por seu lado, reveste-se de uma outra atitude, pelo que se oferece à sintonização por um público mais vasto: «O meu objectivo inicial para este segundo álbum era trabalhar com muita gente. Tinha uma lista de convidados enorme e eram convidados tanto de dentro como de for a do hip hop – artistas que admirava e que queria que participassem. Mas, por uma questão de tempo, isso tornou-se muito difícil em termos de timing e organização, tanto mais que fui gravá-lo a Lisboa. Consegui, pelo menos, trabalhar com os produtores que mais admiro a nível nacional – tirando um, tive muita pena mas não consegui ter o Serial, dos Mind da Gap. Como trabalhei com mais gente, os temas também são diferentes, não é [um álbum] tão negro como o “Informação ao Núcleo”. Mas está lá a minha personalidade. No fundo é isso: faço música para toda a gente, não faço música para um público específico». As colaborações que fizeram este disco parecem, portanto ter sido decisivas para a sua atmosfera geral: «Há para mim uma grande diferença entre este e o “Informação ao Núcleo”; o “Informação ao Núcleo” foi todo produzido por mim e a minha onda é muito obscura, as cenas que sinto são as mais pesadas. A partir do momento em que começo a trabalhar com outros produtores, outro tipo de sentimentos, outro tipo de estados de espírito, é lógico que receba instrumentais diferentes dos que costumava fazer. Aí, o sentimento das músicas também sai diferente. Mas a minha essência está sempre lá. Não houve nenhuma intenção de fazer temas mais acessíveis, a minha personalidade continua presente. A única coisa que mudou foram os ambientes, porque também são os estados de espírito das pessoas que participaram no álbum». Mas um facto que sobressai neste álbum é a afirmação de um estilo próprio: «Por todo o trabalho que fiz até agora acho que já cheguei a esse patamar. Já sinto que tenho o meu estilo». Definição?: «Escuro mas sóbrio».

  Não se questionando a qualidade das produções deste álbum, colocar-se-á antes a dúvida sobre a razão porque não terá Fuse avançado para um álbum produzido por si, tal como fez na estreia: «Porque não tenho material. No “Informação ao Núcleo” foi tudo caseiro. Foi aí que comecei a produzir em computador. São as minhas primeiras produções e foi gravado no 2º piso com as condições mínimas. Agora, como tive a oportunidade de ir gravar a um estúdio, teria que fazer as coisas de uma maneira mais profissional. Fiz só três ou quatro produções, que tiveram que ser novamente produzidas com máquinas melhores. Como não tinha material não podia avançar. Mas também queria trabalhar com pessoas diferentes». O futuro reservará, no entanto, um Fuse mais presente na produção dos seus temas: «Quero ser MC e produtor. Aprendi uma lição com este álbum. É muito, mas muito difícil encontrar pessoas que estejam na mesma sintonia do que eu, e a nível de produção isso é muito importante. Conheço muito pouca gente que produza instrumentais duros e pesados como eu gosto. Este álbum foi mais uma experiência, uma boa experiência. Quando conseguir ter o meu material, aí ninguém me pára. É que ninguém me pára mesmo!”.

  Por Sérgio Gomes da Costa para o "Blitz"

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