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H2T - HipHop TugaReportagem com Fidbek in "Blitz" nº959 de 18/03/2003

Apanhado na Rede

  Fidbek integra o contigente do futuro do hip hop nacional, um futuro que marcará a derrocada das barreiras estilísticas. Na luta contra os fundamentalismos, conta com uma equipa recrutada graças às maravilhas online. O álbum de apresentação deve chegar em Maio, e marca a estreia de uma nova editora portuense de hip hop.

  A ainda curta carreira de Fidbek pode servir como uma espécie de história exemplar sobre os benefícios e transformações radicais que o advento da Grande Rede trouxe à criação artística, transformando a parcela do planeta conectada em www numa sala de ensaio / estúdio de gravação habitado à medida dos desejos e possibilidades de cada um.

  Residente na Pasteleira, Porto, Fidbek iniciou-se nestas coisas musicais sozinho: «Na zona onde vivo, não conhecia ninguém que se dedicasse ao hip hop. Comecei com aquela febre do breakdance, aqueles vídeos... Nem sabia que era hip hop. Lembro-me que imitava essas coisas com um primo».

  Por volta do ano 1998, com os processos habituais de descoberta pelo meio, Fidbek toma contacto, via internet, com VRZ, de Évora, organizador de sons com idêntica fixação no hip hop e necessidade de ultrapassar isolamentos estéticos e geográficos. VRZ tomou-se o principal produtor do material de Fidbek, e apresentou o rapper da Invicta ao Brigadeiro Mata Frakuxz (pai angolano, mãe portuguesa), que chegou a apresentar o programa radiofónico «Submarino», a meias com José Mariño, e onde revelou os primeiros frutos destas alianças geográficas. «O Brigadeiro é um amigo de longa data», conta Fidbek, «trocamos bastantes impressões, e até estou a pensar fazer um álbum com ele» e com VRZ a médio prazo. Entretanto, o Brigadeiro mudou-se para Londres, o que prenuncia mais um disco arquitectado sob mediação da internet. «É um projecto que já temos há muito tempo, mas as condições e a distância... Se estivéssemos todos cá, estava tudo mais adiantado».

  Fruto desta rede de contactos, a primeira aparição discográfica de Fidbek aconteceu em 2000, numa mixtape com os Hemoglobina, que teve distribuição comercial somente em Angola, e para a qual Fidbek remeteu o contributo via internet: «Aquilo também não está com um grande som. As condições [de gravação] lá em Angola são mesmo mínimas. Quem tem condições dentro do hip hop são aqueles grupos com um som mesmo comercial, e mesmo esses...».
(Para completar esta rede e trocar ainda mais as voltas à bússola, falta mencionar Infamous, produtor associado a VRZ, português residente no Canadá, e que só não participará no álbum de estreia de Fidbek porque «não calhou».)
  Álbum de estreia de Fidbek? Exactamente. O disco chamar-se-á «Erro Musical» e já esta totalmente arquitectado, faltando apenas dar entrada em estúdio. No final de 2002, à maneira de pré-apresentação, chegou a algumas lojas o single «Pouco Convencional (eu não vos Convenço)» em que rimas e música delimitam a sua presença dispensando proclamações apocalípticas em favor de uma estranheza e discrição interiores razoavelmente evocativas dos jogos mentais desenhados por uns Antipop Consortium (Fidbek confessa também uma admiração pelo «som sujo» dos Company Flow, típico das produções El-P). Um caminho a aprofundar. Tendo em conta as amostras de «O Erru Musikal» em formato maqueta já escutadas pelo BLITZ, mais um sinal muito prometedor do alargamento dos recursos estilísticos da nova geração hip hop nacional.

  O álbum terá produção executiva de VRZ, mas deverá contar com mais algumas participações no departamento instrumental, como Kiko (dos MatoZoo), New Max (Expensive Soul), e «pode haver outro, mas está pendente; se houver, é para a remistura de um tema num estilo que não tem nada a ver com o hip hop». O estilo de que Fidbek fala é o drum’n’bass, e essa tentativa de abordagem de outras linguagens sonoras é uma peça essencial dos seus objectivos artísticos; uma forma de se «distanciar de um estilo pré-concebido que há no hip hop português». Ou seja, «ter uma mente mais aberta para outros sons». Mais exemplos:
«Gosto muito de soul, de r&b, funk, jazz...»; o que explica na perfeição a chamada de New Max para um tema repleto de outros membros da Aliança do Norte, como Capull, Bezegol e Supremo G.

  A inspiração para as rimas de Fidbek parte «daquilo que eu vivo. A forma como abordo os temas é muito terra-a-terra. No álbum, falo de desilusões que tive, de propostas de emprego recusadas... coisas banais, mas abordadas de uma maneira... minha, com um estilo meu». Uma espécie de diário? «Pode-se dizer que sim. Também tem aquele lado de intervenção. Leio muitos livros de política (o meu pai é político), e isso também influencia bastante a minha escrita. Mas também é um bocado por fases».

  Comprovando que aquilo que na pop e no rock é visto como hiperactividade passa por ritmo de trabalho rotineiro no hip hop (o que podia levar a dissertações sobre a motivação e a frescura criativa das formas, e como isso pode estar ligado ao grau de anseios e de identificação com novos públicos — fica para outro dia), Fidbek deverá ainda, até ao fim do ano, estrear-se discograficamente como novo membro dos MatoZoo, já que o (agora) quarteto de Matosinhos está a preparar o sucessor de «Pa’trástoplay no Teu Melão», de 2001: «Um dia, sem saber como, fui parar a casa do Kiko. Começámos a trocar ideias e, passado um mês ou dois, já fazia parte da banda. O novo disco vem lá para o fim do ano, e vai ser ainda mais... esquisito [risos]. Tem muitas influências daquele hip hop alternativo da Def Jux».

  «Erro Musical», o regresso dos MatoZoo e um álbum de Infamous & Vrz deverão constituir os registos inaugurais, em 2003, da primeira editora de hip hop sediada no Porto. Chamar-se-á Matarroa, será dirigida por Martinêz, dos MatoZoo, e funcionará em associação com a Bor Land.

  Por Jorge Manuel Lopes para o "Blitz"

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