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H2T - HipHop TugaReportagem com as Djamal in "Blitz" de 25/02/1997

A estreia do gineceu

  Na época em que já muito pouca gente se lembra de «Rapública» e que os resultados dessa incentivo ao hip hop português são apenas visíveis com o auxílio de telescópio, alguns são os grupos que chegam garbosamente às edições e que, só por isso, merecem vénia sem reservas. Na maioria dos casos, estes grupos não chegam a vender nada ou quase nada. O certo é que, apesar disso, permanece junto dos grupos de rap portugueses um sentido missionário que, pelo menos em discurso, visa reconstruir a união entre os grupos. As Djamal são o último projecto a sair desse imenso caldeirão de grupos e acabam de editar o seu primeiro álbum, «Abram Espaço».

  De diferente de todos os outros projectos conhecidos publicamente, têm o facto de serem só mulheres, tipo «Clube do Bolinha» mas ao contrário. Jumping, Jeremy, Sweetalk e X-Sista, as quatro Djamal, não aceitam, porém, o epíteto de feministas. Limitam-se a atacar comportamentos machistas. «Feminismo não, anti-machismo sim», traduzem elas.

  Segundo contam as Djamal, o facto de serem o primeiro grupo de hip hop feminino a gravar um álbum de hip hop em Portugal é «uma coincidência». Dizem que há mais grupos femininos, «a começar como nós começámos, com pequenos concertos; não sabemos é qual é a perspectiva desses grupos em relação ao futuro no meio musical». O percurso até ao álbum teve, como palavra passe para o grupo, o trabalho. «Trabalhámos imenso, começámos a levar as coisas a sério, começámos a ter pessoas a querer trabalhar connosco a nível de management e, depois, apareceu esta editora», assegura o quarteto. A editora em causa, a BMG, viu no grupo, segundo as próprias, «originalidade» e «mensagem».

  O percurso de que se fala passou, em algumas fases, pelo apoio de pessoas exteriores ao grupo, sobretudo na parte sonora, de base. Didi (dos Family) e D-Mars (Zona Dread) foram dois dos contribuintes para esta caminhada, uma caminhada que foi encontrar, recentemente, Cláudio Souto (dos Bandemónio) para que este viesse a cumprir as funções de produtor de «Abram Espaço», o álbum de estreia que já tem em «Fora de Jogo» um forte veículo de promoção, não só graças à gravação de um vídeo realizado por Edgar Pêra como a aparição do grupo em programas de televisão dedicados à ilustre temática do futebol. Voltemos a Cláudio Souto. «Precisávamos de pessoas que trabalhassem bem com máquinas. O Cláudio é uma das poucas pessoas que está dentro do estilo musical que nos interessava. Para além disso, tem a mesma idade que nós, é pouco mais velho…» - explicam as Djamal - «Gravámos as maquetas e explicámos-lhe aquilo que nós gostaríamos que a música fosse. Ele fez isso e acrescentou o seu eu». Como resultado final, «Abram Espaço» é um álbum onde o hip hop surge em estado puro, depurado quase sempre, adornado em casos escassos. A base melodiosa e de tendência repetitiva pode lembrar Cypress Hill, mas não é só pelo grupo de «Insane In The Brain» que as Djamal afinam os ponteiros. «Ouvimos de tudo, não é justo estar a referir os nomes todos. Mas aquilo que nos levou ao hip hop foram grupos como os Public Enemy, De La Soul, Salt’N’Peppa…, isto há alguns anos».

  Ao vivo, as Djamal fazem-se actualmente acompanhar por uma banda, «uma guitarrista, uma baixista, uma baterista, duas raparigas no coro, dois bailarinos». Porquê só mulheres a tocar? «E porque não? Nós sabemos tocar tão bem como os homens, com muita qualidade; tens que ver estas mulheres ao vivo a tocar porque é altamente. Elas são fantásticas e nós só trabalhamos com profissionais». Ponto.

  No cenário habitualmente egocêntrico do hip hop, as Djamal tentar demarcar-se do estilo «eu sou bom, eu sou mau, vou-te espancar. Não queremos fazer nada disso, queremos falar das coisas. Podemos falar da primeira pessoa mas só como apresentação». Isso é visível, por exemplo, num tema concreto de «Abram Espaço», «Fake MC». «Fake MC» é um tema que critica os rappers que o são só porque dá estilo, porque tem boa onda, porque está na moda. As Djamal, porém, não concretizam os ataques, como é vulgar acontecer, por exemplo, nos norte-americanos que se envolvem nas guerras Costa Este/Costa Oeste e no gangsta rap. «Somos contra atitudes, não contra certas pessoas. Se a carapuça servir, óptimo. Mas limitamo-nos a fazer um apelo».

  «Fora de Jogo», um dos temas de «Abram Espaço» tem sido o principal cartão de visita desse álbum. Em «Fora de Jogo», as Djamal falam de futebol, da violência no futebol, na corrupção no futebol, nos grunhos do futebol. O vídeo promocional desse tema, que já teve exposição televisiva, foi realizado por Edgar Pêra e rodado em alguns cenários a propósito, como o Estádio Nacional onde para o efeito se juntaram alguns jogadores da selecção nacional de Sub-21. «Sou hiper-fã de futebol e levei-as por arrasto», clarifica Sweetalk, sócia convicta de Os Belenenses, fã de bons jogos e assídua espectadora nas finais da Taça de Portugal. «Fora de Jogo» surgiu, inclusivamente, motivada pela morte de um espectador no Benfica-Sporting no ano passado. «Estávamos no Porto, nesse dia, a ver o jogo na televisão. Aquilo chocou-nos imenso. Pensei logo: e se fosse eu? Já estive para desistir de ir ao futebol, mas o vício não deixa», continua a rapper que, como qualquer adepto que se preze, já se cruzou com o hooliganismo em ocasiões pontuais.

  Quando se fala de hip hop em Portugal, com pessoas que se movimentam nesse meio, é certo que, mais tarde ou mais cedo, na conversa surgirão as críticas ao estado de coisas e ao modo como os próprios artistas construíram uma «cena». No caso das Djamal, as queixas são estas: a) «falta a aposta das editoras»; b) «faltam produtores de rap»; c) «falta união entre os grupos porque sem união isto não anda»; d) «falta o apoio dos próprios rappers ao hip hop nacional, se sai um disco português eles compram discos estrangeiros»; e) «quando não havia editoras e dinheiro era tudo muito bonito, éramos todos muito amiguinhos». Isto num cenário pós-«Rapública», quando ainda estamos a anos luz de distância, por exemplo, da cena hip hop francesa, uma referência para as Djamal.

  Na sequência directa da inexistência de um movimento sólido que ultrapasse o foro das aparências, encontramos o facto de, em Portugal, os discos nacionais de rap não encontrarem um público consumidor que se veja. E a questão não passa, nem de perto nem de longe, pela qualidade dos discos que se gravam, já que em Portugal não tem um mercado tão exigente assim. «Enquanto as pessoas considerarem o rap como martelos, as coisas não evoluem». Isso ainda é assim? «Lê os pregões do BLITZ e vais ver. Não há informação disponível, o tipo específico de informação sobre hip hop não chega a toda a gente».

  Por Pedro Gonçalves para o "Blitz"

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