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H2T - HipHop TugaReportagem com Dealema in "Y" (suplemento de "O Público") de 29/08/2003

Dá-me rimas

  Desculpem a demora
  mas não estava na hora
  estivemos a limar arestas até agora

  Após sete anos, os Dealema vão lançar, entre fins de Setembro e inícios de Outubro, o ansiado primeiro álbum. A explicação da demora, trazida pelos MCs Fuse, Expião (ou X-Pião), Maze e Mundo e pelo DJ Guze nas rimas do "single" "Cena Toda" - incluído na colectânea "Dez Anos de Hip-Hop em Portugal", e agora no álbum homónimo - levanta uma ponta do véu.

  "Está toda a gente à espera do disco, nós também. Sentimo-nos finalmente preparados para lançar uma coisa como deve ser, e em grande, sem pressão. Sem necessariamente o querermos, formou-se um mito à nossa volta, houve convites para entrarmos em quase uma dezena de colectâneas e há pessoas que gostam de nós", arranca Mundo.

  "É isso", continua Fuse, "as pessoas que nos vieram a acompanhar nestes anos vão ver no CD um 'best of', como um viajar no tempo. A nossa essência e o processo de amadurecimento estão lá desde a primeira à última parte, é como folhear um álbum de fotografias".

  A primeira dessas fotografias foi tirada em Gaia, no final de 1995. Guze e Mundo formavam os Factor X, Fuse e Expião eram os Fulashit, até que conheceram Maze, vindo de S. Roque, e perceberam que pisavam trilhos idênticos. "As coisas acabaram por surgir naturalmente, não houve sequer estratégia pensada", admite Mundo, recordando o dedo precioso do "padrinho" Ace, dos Mind da Gap.

  A maqueta "Expresso do Submundo" (1996), cuja edição limitadíssima ainda se distribui pelo país em formato MP3 e CD, é uma das fotos que quase passou a "placard" citadino, tal a aceitação que teve no crescente - mas ainda lento - movimento hip-hop do Grande Porto, depois do "crash" bolsista nacional que se seguiu a "Nadar", dos Black Company. A maqueta - gravada no 2.º Piso, um cubículo para ensaios situado no último andar da casa de um dos Dealema - foi passando nas noites de hip-hop do "Comix Bar", na Invicta, e no programa "Rapto", de José Mariño, na Rádio Comercial. Esse foi o impulso para os concertos, as participações em compilações e em trabalhos individuais de nomes como Cruzfader, MatoZoo ou Sam The Kid e a criação da "coalizão ibérica" com os Mind da Gap e os espanhóis La Familia, uma união da qual surgiram colaborações nos discos dos primeiros.

  Estamos juntos nesta guerra,
  na paz, na alegria, na tristeza, na merda

  Em 2001, Mundo & Expião criavam os Terrorismo Sónico, lançando o longa-duração "1.º Assalto". Fuse respondia com "Informação ao Núcleo" e, no ano seguinte, com "Sintoniza", pela Loop. Se não havia líderes, havia uns que, a trabalhar, arregaçavam mais as mangas do que os outros. Mas, em vez de fragmentarem o quinteto, cujos membros têm entre os 23 e 26 anos, as duas edições vieram "como complemento" e permitiram "clarificar a vontade de todos" - a sonhada estreia.

  "Não há líder. Existe uma química tal que as coisas saem naturais, nem precisamos de escrever em conjunto; é como as lâmpadas de Natal, estamos ligados em série, rebentas uma e as outras não funcionam", salienta Fuse. "Nas actuações é igual", atalha Mundo, "cada espectador prefere um de nós, pelas vivências que tem ou pela atitude e mensagem de determinado MC ou do Guze".

  As 17 novas faixas têm produção de Mundo, Sam The Kid e DJ Serial (Mind da Gap). Como convidados, estão os MCs Ace e Presto (Mind da Gap), em "Rota de Coalizão" - a "coalizão ibérika" terá de ficar para outra vez, porque a colaboração dos La Familia obrigava a abrir muitos cordões à bolsa -, além de duas vozes femininas: Raquel Rites, "uma amiga de longa data", e Marta Ren, cantora e letrista dos Sloppy Joe, que participa em três temas, sendo um deles o "single" "Talento Clandestino". O álbum homónimo tem ainda canções como "Brigada Digital Anti Plágio", "Regresso do Expresso", "Infiéis", "Saberás" ou "Amanhã".

  Depois de terem dado uma dezena de espectáculos neste Verão, com destaque para os Festivais Sudoeste e Paredes de Coura, os Dealema actuam amanhã à noite na 12.ª edição do Noites Ritual Rock, nos jardins portuenses do Palácio de Cristal, com Mesa, Terrakota, e Blasted Mechanism, e preparam-se para encetar uma digressão nacional. O objectivo é o mesmo de sempre: continuar a fazer a revolução viva e a ensinar os putos desses becos que não conhecem o caminho certo, "porque não há tempo a perder / os putos estão a crescer".

  Para quem se sente representado por Dealema,
  os vossos advogados de defesa (...)
  temos a vossa confiança, não dizemos treta

  A mensagem "dilemática" - como eles gostam de apelidar - tanto calca a situação social e política como atira pregões destrutivos, apela ao bom senso, sugere incentivos e solta desabafos pessoais. A mensagem urbana obscura, cinzenta e "hardcore" que se esconde sob o ritmo criado por Mundo e os pratos de Guze é, acima de tudo, de esperança. "Sim, o sentimento de não desistir, de acreditar na cultura e na evolução, mesmo que muito tempo passe e as coisas estejam más, há que atingir um objectivo", sublinha Maze.

  Mas, mais do que "rappers", os Dealema - que têm um elemento "graffiter" e incluíram no passado um "breakdancer" - consideram-se jornalistas, onde a caneta é substituída pelo microfone.

  Fuse dá uma achega: "Procuramos a universalidade do termo 'mensagem', por assim dizer. Procuramos abarcar toda a gente, mas não pretendemos apanhar ou atacar uma faixa etária, isto não é um jogo. Nós não criticamos, mas sim instruímos, abrimos os olhos a certas situações. No fundo também somos jornalistas da cidade, que andamos na rua, vemos e relatamos isso, escrevemos crónicas. Contrariamos aquele estereotipo de que o hip-hop tem de ser necessariamente música de crítica e intervenção".

  Certo. Mas, agora que chega o debutante CD, onde é que os gaienses pretendem realmente chegar? A pergunta provoca risos. "Felizmente já não estamos naquela onda e opressão do 'eh pá, não somos reconhecidos, as editoras não apostam em nós'. No entanto, só queremos fazer a nossa música para a nossa gente, sem grandes ilusões de discos de platina, de ir tocar a estádios e estar no top. Não é isso que pretendemos, até porque estamos em Portugal", considera Expião.

  E, como os itens de compras de supermercado, vai-se desfiando o novelo chamado mentalidades, que tem as costas largas, o espírito retrógrado e popular e ainda impede o consumismo de produto nacional como deveria ser. Há muita música portuguesa boa, e não só do alternativo e "underground", mas não há a mentalidade para dar valor à música de qualidade, "pois ou se ouve estrangeirada ou pimba/popular", repisa Mundo. O hip-hop, ao qual se junta a sua filosofia inerente, acessível somente a quem a pocura e está predisposto, sofre por arrasto. A solução estaria em fomentar-se mais programas que explicassem o que é a sonoridade, o que pretende transmitir, quem são as pessoas que a fazem, onde a podem ouvir. Pelo menos, fora assim que o rock e o dance cresceram.

  "Há poucos jornalistas especializados no hip-hop e o espaço que lhe é concedido pelos média é residual, principalmente na TV, onde não há imparcialidade porque praticamente só passam Ágatas, de qualidade próxima do zero", nota Maze. Daí que um disco de platina de Tony Carreira, que leva 20 mil pessoas ao Pavilhão Atlântico, seja "óbvio".

  Temos orgulho naquilo que somos,
  para onde vamos não sabemos,
  pois irão haver muitos encontros

  Mas é preciso ter calma, como reza um verso de 1994. E esperança, como profetizam os Dealema. E encarar os desafios, porque se fosse fácil não valia a pena. A metamorfose e evolução sociais espreitam-se no horizonte, através da juventude, que dobra as costas para chegar à prateleira hip-hopeira. Curiosamente, os putos da nova geração portuga já não procuram ouvir hip-hop estrangeiro, mas querem arranjar hip-hop portuga, ao contrário dos "rappers" actuais, que há uns anos eram poucos e tinham de buscar influências no exterior.

  Embora fraco, o mercado hip-hop está a crescer visivelmente. Há editoras independentes a afirmar-se, como a Loop Recordings e uma figura a nascer, Sam The Kid. E há um importante nicho de emigrantes na França, Suíça e Alemanha.

  "Talvez daqui a uma década as coisas sejam diferentes e tenhamos quatro bandas nas 'playlists' das principais rádios", concorda Expião. E há que manter o "feeling" original do movimento, para não cair no comercialismo americano que atingiu o rap de Eminem e Nelly e no qual os franceses estão aos poucos a enveredar, descendo a qualidade e aproximando-se do estatuto MTV.

  Por Nuno Passos para o "Y" (de "O Público")

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