O Regresso do Expresso
A próxima estação dos Dealema é o álbum de estreia. É o regresso do expresso, com paragem obrigatória em todos os apeadeiros do submundo.
Estamos na estação de comboios de General Torres, em Gaia. A sessão fotográfica terminou e Expião está com pressa em avançar com a entrevista porque tem que ir trabalhar. Por isso é ali mesmo, nas escadas, que nos juntamos para procurar o fio dessa meada que é a história dos Dealema. É inevitável fazê-lo, até porque o que se vai ouvir em "Dealema", o disco, é uma compilação de temas dos sete anos do projecto. Mas, contada, a história ganha outros pormenores. Recua-se no tempo e os episódios começam a surgir. Cabe a Expião abrir o álbum de fotografias, em meados da década de 90: «Eu lembro-me do Mundo aqui em Gaia, no liceu, com um gravadorzito daqueles que agora nem se vendem, no recreio da escola a passar batidas e a rimar com o Guze a acompanhá-lo. Isto numa altura em não se sabia sequer o que era o hip hop». Estamos a falar de tempos longínquos, portanto, de tempos em que Guze ensaiava manobras «com aqueles pratos em que as agulhas eram de cozer».
O liceu de que se fala é a Escola Secundária Almeida Garrett, autêntico ninho de futuros talentos. Guze: «Foi a primeira escola onde houve hip hop em massa. Porque havia Djs, havia breakers, o Expião também estudava lá, e mais um monte de gente. O Dj Pasta e o Ace [dos Mind da Gap] também estudaram lá, toda a gente estudou lá». Mas Fuse vinha de outras paragens, das Campinas, no Porto. Como os tempos são mesmo longínquos, estamos a falar de uma época em que Fuse se descrevia a si e a Expião nos seguintes termos: «Tínhamos um bocado aspecto de cromos (risos). Eu não tinha nada a ver e o Expião tinha o cabelo comprido (risos)». Por essa altura, Expião já vinha de experiências diversas: «Eu tinha as minhas bandas hard core. Agora chamam-lhe nu metal, mas na altura isso não existia. Era com banda, era rimado, era para o motim mesmo». Fuse e Expião eram vizinhos e viriam a formar os Fullashit em 1995. No mesmo ano, Mundo e Guze formariam os Factor X. Falta Maze: «Eu era do Porto mas vinha para Gaia. Passava os meus dias em Gaia porque era aqui que havia hip hop. Na altura conhecia-os antes de os conhecer. Conhecia Factor X, ouvia Mind da Gap e foi aí que nos conhecemos. Vim parar a Gaia e começámos a rimar». Por essa altura começam também alguns encontros no Bloco 24, nas Campinas, em casa de Fuse: «As primeiras gravações que fizemos todos juntos foi no Bloco 24. Chegámos a fazer lá cenas com o Ace. Eram aos sábados de manhã».
Nesses tempos longínquos, havia também um outro ponto de encontro para o que viria a ser o movimento Nova Gaia. Mundo explica: «É um centro [comercial] que existe ao pé da igreja de Mafamude, aqui em Gaia. A gente juntava-se lá à noite a tocar djembés, a rimar, a tocar guitarra e a fazer breakdance. Não havia festas na altura e o pessoal juntava-se à noite, 30, 40, 50 pessoas». Expião prossegue: «Foi aí que cresceu o movimento Nova Gaia. Nós parávamos todos naquele sítio destruidor. Foi lá na rua que começámos a fazer as primeiras sessões de improviso. O pessoal sentia-se bem em Gaia porque é mesmo urbano e porque ao sítio onde estávamos a polícia não ia. Então chegavam a estar lá 50 pessoas de todos os sítios. Por isso não ligamos a rivalidades. Dávamo-nos com todo o pessoal das Antas, todo o pessoal de Matosinhos, vinha pessoal de Leça, pessoal do centro do Porto, toda a gente se reunia aqui e fazíamos autênticas festas entre nós. Nós estamos aqui para alimentar essa essência de onde viemos. Viemos da confraternização com as pessoas, da união, da descoberta de ideias, de rimar e não de estar a rivalizar estilos». Mundo aproveita a deixa: «O hip hop é mesmo isso, é uma cultura mais unida do que os resto dos estilos de música e é por essa vertente que os grupos colaboram muito uns com os outros. Acho que as pessoas são mais espontâneas. Telefona-se: “Vamos fazer um som?”, “Vamos lá fazer um som”. Vamos ao estúdio, se não for no estúdio é em casa, se não for em casa é noutro lado qualquer, e desde que haja um microfone e uma batida nós estamos lá».
Mas a história dos Dealema e do hip hop feito a partir de Gaia não ficaria completa sem falarmos do 2º Piso, autêntica instituição do movimento. Trata-se, literalmente, de um segundo piso, o da casa de Mundo. É lá, num pequeno quarto em forma de pentágono, que se congeminam muitas das investidas hip hop para fruição nacional: «Na altura do skate, em que começámos a ter este interesse pela música, este quarto era o sítio para onde eu, o Dj Guze, e um primo meu vínhamos passar as tardes. Mais tarde, lembro-me que foi no dia de um concerto do Gabriel O Pensador que sentimos a necessidade de arranjar alguma forma de fazermos as nossas batidas. Arranjámos material emprestado, juntámos aqui as cenas e começámos a fazer as coisas assim. Depois conhecemo-nos todos, eu adquiri um gravador de pistas e quando começaram os Dealema é que adquiri o computador. A partir daí começámos a vir para aqui mais regularmente. Isto foi ganhando mística se calhar porque, com o evoluir dos Dealema, começou a surgir a cena das mixtapes. O Cruzfader esteve aqui a gravar mixtapes, o Bomberjack também, e assinávamos as mixtapes com a sigla 2º Piso. Gravámos aqui montes de bandas. Depois comecei a trabalhar e tive um acidente de trabalho. Graças a Deus tinha seguro e devido à indemnização que recebi pude comprar mais material. A partir daí foram vindo montes de bandas. Muita gente tem aquela curiosidade do 2º Piso, mas o 2º Piso é este quarto, são estas quatro paredes todas riscadas, este pentágono. Há gente que pensa que isto é mesmo grande e que é um estúdio cinco estrelas. Temos uma caixa de ritmos, um gravador de pistas, um microfone e uma aparelhagem. Foi ganhando essa tal mística. No fundo, o 2º Piso para nós é um templo. É o nosso quarto, é onde fazemos as nossas orações e onde temos fé. Ámen».
Se há fotografia explícita que não existe no livro de memórias dos Dealema é a da génese do projecto em 1996, ausência que Fuse explica: «O mais engraçado nisto tudo é que não houve aquela decisão, “olha, vamos formar um grupo”. Isso não aconteceu. É como se estivesse tudo predestinado. Acho que tropeçámos todos uns nos outros e não houve aquele objectivo de formar um grupo. Começámos a fazer as cenas e quando demos por ela já tínhamos um grupo. Quando foi para escolher um nome é que foi do carago (risos), até curtia ter o papel com as várias hipóteses que apontámos». À falta do papel, temos a definição de Mundo para o nome escolhido: «Tinha a ver com o grupo. Tens que marcar sempre uma posição e qualquer que ela seja ficas sempre a perder, mais ou menos. Acho que viver é um dilema, a gente tem que optar sempre por alguma coisa. Em prol de alguma coisa abdicamos de outras. É isso que somos. Somos os Dealema». Pouco tempo depois começam a surgir os primeiros registos dessa união. «HIVedeta» torna-se tema regular no mítico programa radiofónico Repto, e mais tarde aparece a maqueta "Expresso do Submundo", hoje tida como um clássico: «Fizemos a maqueta com poucos meios», diz Maze. «Foi uma maratona. Um microfone, um gravador de quatro pistas, e quando alguém se enganava, volta atrás e grava tudo de novo. Tudo numa noite. Não contávamos que essa maqueta tivesse o impacto que teve, ainda hoje há muita gente à procura dela». Fuse completa: «Não foi por ambição. Nós fizemos aquilo porque era a nossa cena e tínhamos que gravar alguma coisa. Naquela altura ainda não existia ambição, nós queríamos era fazer alguma coisa de que gostássemos e nem imaginávamos que viria a ter aquele impacto. Porque não foi impacto só naquela altura, foi impacto ao longo destes anos todos. Fala-se hoje do "Expresso do Submundo" e o pessoal diz logo “hei, grande cena”. Vais ouvir aquilo e parece-te do tempo dos dinossauros. Mas o pessoal adora. Se calhar porque se nota que houve alguma coisa que começou com o "Expresso do Submundo". Houve um estilo qualquer que nasceu, qualquer coisa que se iniciou aí. Se calhar nós marcámos a diferença quando gravámos essa maqueta. Acho que foi aí que nasceu o nosso estilo, o estilo Dealemático».
Chegamos então ao momento do tão ansiado álbum dos Dealema. É a história do projecto revista e aumentada, tal como Mundo confirma, já no 2º Piso e sob escuta atenta dos gatos residentes: «O disco foi uma construção dos melhores pedaços de Dealema. Nós fomos fazendo música e quando entrámos no processo de gravar o disco aproveitámos tudo. Fomos juntando as peças do puzzle e agora engatámos as peças umas nas outras. Quem conhece o nosso trabalho desde o início vai ouvir muitas coisas que ouviu noutras edições. Não vai ouvir músicas iguais, mas vai ouvir trechos de rimas que apelam ao primeiro disco [A maqueta "Expresso do Submundo"] que fizemos». Fuse não deixa as palavras de Mundo arrefecerem: «Temos refrões que eram de rimas antigas. Frases que nos ficaram no subconsciente ou que já fazem parte da nossa identidade. Houve também muitos pormenores no álbum que foram surgindo e que se foram construindo à medida que o fomos gravando». Mas houve uma óbvia evolução, o que se pode repercutir na própria abordagem dos temas. Mundo: «Estamos um bocado diferentes da tal intervenção directa. Também estamos a crescer e a aprender. Agora, se calhar, temos uma visão mais construtiva sobre as coisas. É preciso ver o lado bom das coisas, não queremos ver só o lado mau. O lado mau já o vemos todos os dias. Queremos pôr na folha o lado que nós vivemos mais o outro que gostaríamos de viver. Mas todos nós sonhamos que algum dia isso possa vir a acontecer». É altura de entrar Fuse: «Agora fomos mais versáteis, houve um dinamismo maior neste álbum. Houve músicas de que eles gostavam e eu não gostava. Músicas em que eu achava que não me enquadrava e eles fizeram-nas. Mas a nossa virtude são também essas diferenças».
Além de Mundo, "Dealema" conta também com produções de Serial e Sam The Kid, numa colaboração que procurou dinamizar o disco. Mundo: «No início eu ia fazer os beats todos. Depois dei a ideia de pormos uns beats do DJ Serial e do Sam The Kid porque traziam uma outra dinâmica ao disco. São dois produtores que respeitamos. Falámos ao Serial, ele fez uma faixa. Na altura ele não gostou muito e quis fazer outra mas nós acabamos por fazer tanto uma quanto outra. O Sam The Kid mandou-nos uma remessa de instrumentais e nós escolhemos dois temas que se identificavam mais com aquilo que a gente faz, e acho que se encaixam perfeitamente no disco». Sabendo-se que há mais produtores no projecto, fica no ar uma possível contribuição destes num futuro álbum, opção que Fuse começa por rejeitar («As produções do Mundo têm mais a ver com a nossa cena») mas que Mundo não renega: «Não quer dizer que no futuro isso n venha a acontecer. Quem me dera ter 20 temas de Dealema e cada um ter contribuído com quatro faixas. Isso ainda ia aumentar mais a dinâmica de grupo. Mas há-de acontecer, quando houver os meios para atingir os fins».
É óbvio que com os Dealema não poderia deixar de se falar das actuações ao vivo, campo em que já demonstraram ser um dos melhores projectos nacionais (de todos os géneros musicais): «Acho que a credibilidade de um grupo conquista-se quando se vai a concerto mostrar aquilo que se fez no estúdio. Temos vindo a aprender muito porque éramos cinco gajos super desorganizados nesse aspecto. Preocupamo-nos sempre muito mais com as rimas e som a interpretação do que em estarmos ali. Não temos coreografias, tudo o que fazemos é espontâneo, só que começámos a ter mais atenção a essa espontaneidade, a fazer com que o caos seja organizado, como dizemos numa música. Os Dealema são isso, o caos organizado. Há uma ordem que é espontânea. Não há nada ensaiado, tivemos que nos habituar a ser cinco em cima do palco». Um hábito que se vai tornando regular. No próprio dia desta entrevista os Dealema partiam para Lisboa para mais um concerto. Mais uma oportunidade de darem caos à ordem do hip hop.
Por Sérgio Gomes da Costa para o "Blitz"
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