O hip-hop vem da rua
Depois de Vila Nova de Gaia e da Maia, o hip-hop a Norte tem um novo centro de operações: Leça da Palmeira. Aí, numa garagem convertida em estúdio, estão a preparar-se novos lançamentos dicográficos, não só no hip-hop mas também no r&b. Tiago Novo, mais conhecido por New Max, é o mentor e produtor de tudo isto, com a recém criada etiqueta Max Records. O primeiro CD de hip-hop intitula-se «Debaixo da terra no topo do Mundo» e revela um novo talento: Capull. Sai dentro de dias.
Capull nasceu em Leça da Palmeira e tem agora 24 anos. Quando tinha apenas 10, «colou-se» a três amigos africanos dos pais – D (já falecido), Dino e Gama – que dançavam breakdance. Começou a «curtir os movimentos» do trio dançante e a interessar-se pela música que estava por trás das coreografias. Ainda muito puto, começou a ir com eles para discotecas africanas do Porto, como O coqueiro (no centro comercial Dallas, entretanto encerrado). Pouco depois, estava a ouvir hip-hop a toda a hora. Descobriu o poder dos Public Enemy. Começou a «comprar uns CDs, umas roupitas e a escrever rimas». Com um amigo, criou um duo: IDE/Inimigos do Estado. Mas foi sol de pouca dura. A partir de certa altura, começou a andar sozinho. Deixou de estudar e começou a viver cada vez mais na rua. New Max chama-lhe «guna», na brincadeira. Actuou algumas vezes como hip-hoper, em bares como o Lazui (em Leça) e continuou «a aprender cada vez mais». Um dos seus amigos «de peito» era, já então, Bezegol (de alguma forma pioneiro do hip-hop em Leça e que neste momento joga cartadas importantes no movimento no Porto, na organização de eventos, com a nova loja de discos Funkativity Records e ainda como MC de drum’n’bass, além de ter colaborado num tema com os Sofa Surfers.
Com toda esta experiência vivida na rua (o single intitula-se mesmo «Cultura de rua»), Capull não podia ser mais genuíno naquilo que faz. «É uma cena que vem surgindo devagar… Tento ser eu próprio em tudo aquilo que canto», refere, acrescentando que «Portugal tem boas bandas, falta é serem eles próprios». E, aparentemente, não tem preconceitos, algo raro no meio aguerrido do hip-hop: «Respeito toda a gente, dos mais velhos aos mais novos». Acha que este género «trata do que está mal na sociedade» e que aquilo que faz «não é mandar bocas, é lutar por aquilo em que se acredita». Temas como a falta de oportunidades, a repressão policial, a discriminação social/racial ou a liberalização da cannabis estão na sua mira.
De New Max também já aqui falámos. Nascido numa familia de músicos, irmão mais novo de Hugo Novo (DR Sax, Hands On Approach, Kika, Loopless, produtor dos Austin), tem teimado em criar entre nós «outros sons» (tendencialmente mais mainstream) em torno do hip-hop, como o r&b, o g-rap ou mesmo o two-step. Com o rapper Mr. Demo, constitui o projecto de r&b Expensive Soul, cujo excelente álbum de estreia se encontra também em vésperas de edição. Depois do trabalho de Capull, esse será, aliás o segundo lançamento da sua recém-criada editora Max Records. Referindo-se à produção do álbum de Capull – que , saliente-se desde já, marca efectivamente uma diferença no hip-hop português em termos de produção, com uma forte aproximação à estética g-rap --, New Max assegura que «só o «beat» é samplado», que «não há «loops» aqui» e que «foi tudo tocado com instrumentos».
Nados e criados em Leça, New Max e Capull conhecem-se «desde putos». Entretanto, seguiram «caminhos diferentes» e voltaram a encontrar-se há pouco, por causa da música. Começaram a fazer uma experiências e New Max decidiu produzir o álbum de estreia do amigo. No tempo-recorde de cinco meses, «Debaixo da terra no topo do Mundo» foi escrito, produzido e gravado no pequeno estúdio caseiro que alberga a Max Records. New Max acrescenta que o disco «foi masterizado por mim e pelo Lino Mstos no estúdio LVM». O álbum deverá ser posto à venda no final deste mês em locais especializados no Porto e em Lisboa (de lojas de discos a estabelecimentos de «streetwear» ), terá uma tiragem inicial de mil exemplares e conta com a participação de Ivo, Mr. Demo, Dutch e New Max. Aqui fica o alinhamento: «Radio V.I.P. (Intro I)», «Epidemia no Bairro», «É Hip-Hop», «Cultura de Rua», «Debaixo da Terra no Topo do Mundo», «Ruas de Tortura», «O Meu Projecto», «Eu faço a Lei (Intro II)», «Discrimino», «A Festa Continua a Rolar», «Por onde passamos», «Lembras-te de Mim V.I.P.?» e «No Topo do Mundo (Intro III)».
Se tudo correr bem, haverá espectáculo, com Capull a fazer-se acompanhar por um DJ e pelos que participaram no álbum. No final, Capull deixa «um abraço especial pró pessoal de Leça e para todos os que fazem e que curtem hip-hop» e outro «para uns gunas que sabem quem são». O recado fica dado… E não se esqueçam de ouvir.
Por Rodrigo Affreixo para o "Blitz"
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