Materializar o som
Uma das frentes mais visíveis do interessante movimento hip hop de Espinho aposta na diversidade e na autonomia, revelando-se com um álbum em edição de autor. A música que brota de um bunker.
O projecto Bunker Intervenção é uma espécie de «upgrade» operado por Bicio, Intruzu e Aisha sobre a sua encarnação prévia como R.L. (Revolução Lírica). Não se tratou de uma simples substituição de designações – o trio afirma que os R.L. ainda existem, mas agora absorvidos por um conceito mais abrangente, que foi buscar o nome ao estúdio onde Bicio compõe e supervisiona as gravações (Bicio: «Entra-se, tem umas escadas e é como se fosse uma cave») e, através do álbum «É Só Pedir…», lançado por conta própria no final de Fevereiro, reúne o contributo de uma série de projectos ligados ao hip hop feito em Espinho: «Começámos a fazer montes de música em intercâmbio com pessoal de Vilarmada, Shingaii», lembra Bicio, «e foi quando vimos que já tínhamos material com uma qualidade suficientemente boa para ser lançado em CD» que surgiu a nova designação, híbrida, revista e ampliada. Embora não se trate do primeiro registo discográfico de uma formação local nestes domínios musicais, a verdade é que a representatividade do elenco e o contexto extremamente favorável que o hip hop português atravessa conferem a «É Só Pedir…» uma importância que transcende o já de si notório valor do resultado musical.
Várias pistas são deixadas ao longo da conversa que permitem perceber que Bicio tem visão, meios e, sobretudo, ambição e ideias que poderão ajudar a conferir aos seus projectos uma envergadura muito assinalável – como o facto de ter construído todos os instrumentais de «É Só Pedir…» sem o recurso à manipulação de trabalho alheio, o que não é uma mais valia intrínseca mas, ao constatar a inesperada variedade de fontes sonoras reflectidas no álbum, de um piano afro-cubano ao ragga, da escola clássica de DJ Premier ao funk sofisticado dos 70s, do jazz ao 2-Step, revela alguém com a força da convicção de querer seguir um caminho individual, ainda por cima em trajectos que chocam com algumas ideias apertadas sobre o grau de pureza de hip hop; ou o facto de seguir um percurso paralelo a solo na área do drum’n’bass; ou como uma recente passagem pelo B Flat, em Matosinhos, levou à convocação de um baterista, um pianista, um baixista e um DJ, para uma reinterpretação de «É Só Pedir…», levando o repertório para «um sítio mais original» (Intruzu); ou o facto de dedicar boa parte do seu tempo a um curso de Produção e Tecnologias da Música, no Porto; ou o objectivo de, um dia destes, fazer a sua carreira a partir de Inglaterra.
As actividades dos R.L. arrancaram no final de 1999. Antes de «É Só Pedir…», o trio divulgou o seu material através da internet (Bicio: «Na altura, só tínhamos um domínio; metíamos as músicas e depois avisávamos só o pessoal que queríamos. Agora temos mesmo um site, em www.bunker.no.sapo.pt») e via participação em álbuns dos conterrâneos Sector Urbano e Vilarmada. «Eu fazia música electrónica, já sabia produzir, e ele [Intruzu] estudava em Gaia e curtia hip hop. Na altura, eu ouvia hip hop estrangeiro, tipo Beastie Boys, Cypress Hill, aquelas cenas que toda a gente já conhecia, mais comerciais. Uma vez, mandei-lhe uma dica, “Eu faço umas cenas no computador, se quiseres ir lá mandar umas rimas, na boa”. Foi assim que começou».
Segundo Bicio, a genealogia do hip hop em Espinho reflecte o percurso do género em Portugal, da rarefacção em meados de 90, território pós «Rapública» em que somente um punhado de projectos teve força para atravessar o deserto do desinteresse geral – papel cumprido, naquelas paragans, pelos Vilarmada (aka Triângulo Dourado), que introduziram a «Ganza na Mochila» no vocabulário rap a norte -, aos primeiros sinais de movimentações colectivas na viragem de século, momento em que surgiram os Sector Urbano e os R.L., até à explosão actual, notável fenómeno geracional facção adolescente, de que os mais elucidativos exemplos locais são os Shingaii (formados por alguns ex-Sector Urbano) e os ainda mais recentes N.U. Os Bunker Intervenção tiveram o apoio pedagógico dos antecessores, e tratam de projectar idêntica atitude à mais recente fornada.
A adesão «teen» ao hip hop em Espinho, tanto no papel de ouvintes como de praticantes, é, na opinião de Bicio, idêntica ao que está a suceder no resto do país; alimentada, em primeiro lugar, pela internet (troca de ficheiros musicais e canais IRC), mas também pelos telediscos e por exemplos de persistência recompensada, como os Mind da Gap. A rádio é tratada com a mesma indiferença que aplica ao estilo. Num meio urbano relativamente pequeno como Espinho, esclarecem, não há espaço para divisões geográficas. O hip hop ganha corpo, sobretudo, nas escolas secundárias, geradoras de bandas e de uma renovação total do público que acorre aos concertos de hip hop naquela cidade. Bicio e Intruzu lamentam a quase total ausência de locais para concertos em Espinho, bem como o pouco interesse que o poder local e os proprietários de espaços nocturnos manifestam pela música produzida na região. Neste contexto, o improviso é o melhor remédio, e as duas edições do «Rap Mobile Fest», realizadas num armazém alugado na zona industrial, chamaram um volume muito interessante de ouvidos curiosos.
A ligação entre quem faz e quem escuta a música é um factor igualmente relevante. Bicio: «Uma cena fixe que os Shingaii fizeram foi a divulgação junto dos miúdos, nas escolas, inclusive através de um workshop, para mostrar como se fazem as cenas num computador. Eu também sempre estive em contacto com alguns desses miúdos, digo-lhes para passarem por lá [pelo Bunker].» De movimento de culto para, literalmente, meia dúzia de interessados, o hip hop local ganhou tantos adeptos que «agora uma pessoa até já perde a conta». O fenómeno parte do local, antes de chegar, se é que algum dia chega, ao global: «O pessoal começou a curtir a cena mais por saber que existiam coisas na sua cidade. Conheço alguns desses chavalos, falo com eles, e foi exactamente o que me aconteceu: comecei a curtir o hip hop que se fazia ali, depois o hip hop que se fazia em Portugal, e depois o hip hop estrangeiro.» Intruzu conclui com uma perspectiva curiosa sobre a demografia do género: «A única coisa que vejo que falta mesmo em Espinho é pessoas só a curtirem hip hop. Em vez de o fazerem, ou pintarem. Isso já há. Pessoas a representar o movimento, já existem. Falta gente que apenas goste de hip hop».
Por Jorge Manuel Lopes para o "Blitz"
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