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H2T - HipHop TugaReportagem com Ace in "Blitz" nº987 de 30/09/2003

Em época de estreia a solo, Ace explica-nos como a exposição prolongada ao hip hop pode levar ao rock.

  Ace tem sido conhecido como MC dos Mind da Gap (MDG) mas há agora uma outra faceta que revela por inteiro: a de produtor. É isso que acontece na estreia a solo, com "Intensamente": «Antes dos MDG existirem já era um artista a solo - rudimentar, porque estava convencidíssimo que era o único gajo que gostava de rap nessa altura, mas depois tive a sorte de encontrar o Presto e o Serial e de encetarmos carreira com os MDG. Mas eu não planeei nada disto. A partir de certa altura comecei a movimentar-me bem com as máquinas e comecei a produzir- Foi um bocado isso, fui fazendo instrumentais e às tantas tinha 30 músicas, mostrava às pessoas e elas diziam-me “pá, isto está porreiro, desta vez tens que editar”. Senti que havia ali alguma coisa que me estava a dirigir para fazer um álbum. Tu sentes que já não podes guardar aquilo só para ti, apesar de ser uma coisa pessoal. A partir de certa altura comecei a sentir cada vez mais essa necessidade. Que não é uma necessidade, é um dever. As pessoas diziam-me “tens este disco, isto está tão bom, as pessoas iam adorar esta música, dizes aqui coisas tão bonitas, tão importantes”, e começas a pensar…Ultrapassas aquela coisa de que aquilo é a tua vida, que são as tuas experiências e que estás a mostrá-las a toda a gente».

  Sobre o seu estilo como produtor, Ace hesita, mas encontra o tom certo para a descrição: «Eu próprio não consigo definir o meu estilo, o meu tipo de sonoridade. Mas toda a gente que conhece os meus instrumentais, quando ouve um instrumental meu, sabe imediatamente que é meu. Acho que tenho tendência para a melancolia, mas isso é enquanto pessoa e reflecte-se em quase tudo o que faço. Sou um bocado mais virado para as cordas, para as mini-orquestras e soul, muita soul, até porque colecciono discos - discos não, CDs, sou um fake collector (risos). E depois também para as coisas um bocado… não queria chamar-lhe new age, mas tem um certo tom new age, umas melodias assim um bocado místicas, meio feiticeiro de OZ ano 2003 (risos). Acho que os meus beats não são iguais aos de ninguém. Os sítios onde ponho as coisas não é o sítio onde, por exemplo, o Serial as põe, ou o Mundo, ou Sam The Kid. Nisso acho que tenho a minha personalidade vincada». Passar em revista as prateleiras de Ace será então descobrir uma variedade tão vasta quanto as suas fontes: «Eu gasto mesmo muito dinheiro em música. Tenho os discos que compro só para samplar, e que nunca mais vou ouvir na vida - tipo aqueles discos de new age onde vou sacar uma nota qualquer; depois tenho os discos de soul, que além de coleccionar “roubo” à força toda; e depois tenho os outros discos. Gosto um bocado de tudo e essencialmente por causa do hip hop. É engraçado porque quando comecei a gostar de hip hop era completamente fundamentalista. O nosso primeiro press release, éramos ainda The Writers (antes de 95), foi escrito por mim e começava a dizer: “Os The Writers são um grupo anti-comercial” (risos). Continuamos a ser, apesar de a vida nos ensinar que há várias perspectivas. E fui aprendendo que, de facto, não há só uma maneira de ver as coisas, não há só uma maneira de interpretar as coisas. E isso reflecte-se na música. Por gostar de hip hop, e por começar a produzir hip hop, comecei a procurar samples e na busca de samples apaixonei-me pela soul. E descobri tudo o resto através do hip hop, até ao rock. Descobri os Queens of the Stone Age porque, quando ouvi o single [« No One Knows«], parecia que o Dave Grohl estava a tocar um break de uma batida de hip hop em loop. Portanto, comecei por ser fundamentalista por causa do hip hop e com o hip hop fui crescendo».

  Em termos de novidades, há também a de este disco ser a primeira iniciativa de Ace Produktionz: «A Ace Produktionz é um bocado um aglomerado dos meus talentos. Eu pinto uns quadros, tenho alguma queda para o design e em alguma altura da minha carreira, quando tiver alguma disponibilidade mental, vou dirigir-me para a parte de management. Tenciono organizar exposições, estou a escrever um livro de poesia - que, em princípio vai ser um projecto que tenciono que seja original. Quero que tenha um bocado de design gráfico. Provavelmente vou musicar alguns versos e o livro terá um CD como complemento». Mas não se ficam por aqui as intenções desta organização: «Também a produção de instrumentais, não só a nível de hip hop. Quero abranger mais porque não tenho influências de um só estilo de música. Estou um bocado a voltar às minhas origens - porque não nasci a gostar de rap, sou um gajo branco de classe média e não podia ter nascido a gostar de rap. Mas não vou fazer rock. Os meus beats, se não forem hip hop, vão ser uma coisa ou mais lenta ou mais rápida mas vão ser sempre breakbeat. É isso - é a empresa que eu inventei (que não é uma empresa, não está registada em lado nenhum), é a minha cabeça basicamente - que vai gerir, a partir de agora, o meu talento».

  Por Sérgio Gomes da Costa para o "Blitz"

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