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H2T - HipHop TugaValete (in "Blitz" nº987 de 30/09/2003)

Invisibilidade à esquerda

  Fortíssimo idealista, Valete afirma-se um rapper anti-indústria, reivindicando o lugar devido à palavra no hip hop. Avesso À exposição mediática, prefere mostrar-se em "Educação Visual". Não é por acaso que, na foto que acompanha esta entrevista, Valete aparece enquanto vulto, fotografado em contra-luz, defendendo-se dos holofotes ao máximo. Tendo começado a rappar em 1997, Valete formou pouco depois com o MC Adamastor os Canal 115, passando em seguida por mix-tapes de nomes de referência do hip hop nacional como Bomberjack e Cruzfader (que marcam presença em alguns temas de "Educação Visual", ao lado de Sam The Kid, Ace, Fuse e Chullage, entre outros). Valete quer educar a visão do seu público porque diz ter percebido, a certa altura, «que as pessoas não sabem ver, "Educação Visual" mostra as histórias que estão por trás da imagem, as causas. Se vires miúdos a roubar dizes “é criminoso, põe na prisão”, mas o que está por trás? Vamos saber as histórias desses miúdos, vamos saber porque estão a roubar, quais são os problemas. Se calhar a culpa não é deles, é de todo o sistema social que está corrompido. Mas também é culpa dos nossos governos que são muito neo-liberais, muito de direita e gostam de analisar tudo muito superficialmente. Eu, como sou de esquerda, prefiro aprofundar».

  - Porque fazes tanta questão em resguardar a tua imagem?
  Valete - Pertenço a uma geração hip hop pós-Rapública, a geração da invisibilidade, que não tinha assédio dos media, não tinha assédio de nada. Nessa altura dizia-se que o hip hop estava morto, nós éramos os homens invisíveis, fazíamos barulho no underground, e algum núcleo desse movimento pós-Rapública criou uma aversão à indústria, aos média, à comunicação social, perceberam-se os perigos da fama. É uma coisa muito anti-popstar, anti-rockstar, anti-rapstar. Tomei esta posição numa altura em que comecei a perceber que muitos dos músicos que andam por aí amam muito mais a fama que as coisas que a fama proporciona, do que a própria música. Só tenho afinidades com a música, não as tenho com mais nada. Portugal é um país muito pequeno, amanhã tens uma foto num jornal, TV, etc. e já não podes andar na rua, és famoso.

  - Essa postura perante os media não deixa de ser curiosa, uma vez que também és estudante de Ciências da Comunicação…
  Valete - Muito desiludido (risos).

  - Porquê?
  Valete - Quando entrei tinha os meus 17/18 anos, não percebi o que era a comunicação social, tinha uma visão muito romântica do jornalismo. A maior parte dos órgãos de informação é controlada por grandes grupos económicos, toda a ideologia é capitalista, de audiência, de fazer números, de dinheiro, de lucros, e isso são coisas que não me interessam. Neste momento são coisas contra as quais luto. Por isso, sou um estudante no 4º ano de Ciências da Comunicação com vontade de mudar de curso. Estou desiludido com o que a comunicação e o jornalismo representam hoje.

  - Daí também dizeres que o teu disco é uma resposta à suposta verdade que a televisão mostra?
  Valete - Essa frase é um bocado radical, mas é mais ou menos isso. Omite-se muita coisa. E às vezes a omissão é pior que a mentira. Também se mente muito, engana-se muito as pessoas, não se informa, desinforma-se, deseduca-se. Para mim serviço público não existe, excepto num ou outro órgão de informação que não atrai as massas, e o resto é tudo uma promoção de «pimbalização», de audiência fácil. Acho que vivemos num mundo muito escuro, de miserabilidade humana mesmo. É um ciclo: o homem está a ficar cada vez mais miserável, mais fútil, mais individualista. Este homem moderno está a atrair para si todos os conceitos negativos. E a comunicação social ajuda muito a isso.

  - E em coerência com isso presumo que não tenhas mostrado o teu disco a nenhuma grande editora.
  Valete - Não (risos).

  - Partiste logo para a edição de autor?
  Valete - Negociei a distribuição. Tinha três propostas, mas não foram para a frente por causa do preço. O meu álbum está à venda a €10,00, e por uma uma questão de princípio teria que ser este o preço. Isso, para mim, era inegociável. E as distribuidoras que estavam interessadas não aceitaram. Queriam o álbum a preço de mercado, €15,00 ou mais… Faço música para os pobres, faço música para o povo e acho que os álbuns são muito caros. O que está a acontecer agora no hip hop é que já foi música de subúrbio, periferia, e agora está a fugir para as classes médias. E a minha mensagem ainda é muito periférica, muito suburbana.

  - Mas vês essa passagem para a classe média como um dado meramente factual, ou achas que há alguns elementos perversos nessa passagem?
  Valete - E que elementos perversos! Sobretudo nos Estados Unidos, claro. O rap nos EU está a ser completamente usado, explora-se aquilo ao máximo, perdeu as motivações ideológicas que tinha. Aquilo é que é música pimba! Se querem perceber o conceito de música pimba têm que perceber o rap americano mainstream: é falar de miúdas, pôr miúdas boas nos clips e carros, exibicionismo do mais nojento e primário que pode existir, e a indústria explora isso ao máximo.
  Às vezes até há rappers que nem têm uma mensagem tão radical a esse nível, mas a editora obriga o gajo a pôr umas miúdas lá nos vídeoclips. Está a ficar muito nojento… E tudo isto é perverso, e chega à classe média assim. À classe média, que é cómoda e económicamente estável, e não lhe interessam tanto essas lutas sociais quanto às classes baixas, preferem essa música mais leve, mais fácil, mais dançável, mais descontraída.

  - E é a esses rappers a que te diriges no tema «Pseudo Mcs»? São esses que pura e simplesmente estão arredados da mensagem mais social ou falas para todos aqueles que se mostram prematuramente?
  Valete - As duas coisas. O «Pseudo MCs» é um conceito muito largo - são esses rappers que denigrem ao máximo a cultura e a ideologia hip hop e são também os rappers que ainda não estão preparados para serem MCs - ser MC não é tão fácil como parece, não é um miúdo que começou a ouvir rap anteontem e já está a pegar no microfone. Tive que ofender esses miúdos para eles perceberem, porque às vezes ofender é muito pedagógico. Pseudo MC é todo aquele que não está preparado para seguir a linha e a pureza que representa o hip hop. Comecei a ouvir rap em 91/92 e rimávamos porreiro mas não punha maquetas na rádio, não queria aparecer logo. Agora é mais uma atracção por ser rapstar do que pelo amor ao rap.

  - Dizes que também não te expões mais por não te sentires identificado com o novo público hip hop. E que público é esse?
  Valete - É um público que não se interessa muito pelo hip hop de intervenção. O hip hop de intervenção em Portugal não exerce muita atracção. O meu álbum não é muito explicitamente de intervenção, mas acho que é na linha do hip hop consciente, e sou muito mais elogiado pelo flow, etc. Gostam da mensagem, mas se desse umas coisas mais leves gostavam mais. Este público não me interessa muito, sinceramente. Costumo ter concertos completamente underground, para 30/40 pessoas e é aí que me sinto feliz, com gajos que são da velha escola e percebem bem o hip hop. O que está a acontecer é muito perigoso: muitos miúdos que começam agora a ouvir hip hop não conhecem rappers como KRS-One, Rakim, Nas, e isso é a formação, é a escola. Na minha opinião não podes começar a rimar sem ouvir esses gajos. Agora também há actores que o são do dia para a noite, mas acho que é mau. Preciso de me identificar com o público para poder dar esses concertos, para poder mostrar-me mais.

  - Mas para um puto em formação provavelmente as primeiras fontes serão precisamente as tais do hip hop americano…
  Valete - Sim, é verdade, e o puto não tem culpa disso. A questão é que o hip hop é mais um meio para chegar a um fim. É uma luta. Acredito nesta luta e interessa-me mais estar ao lado do público dos subúrbios, das classes inferiores, mais consciente, preocupado, consciencializado, do que de este público que só se quer entreter. E actualmente os concertos de hip hop são a €10,00 /€15,00, e o meu público não pode ir e teria que enfrentar um público que é o de entretenimento. E esse público não me interessa.

  - E quando dizes que a mensagem terá sempre de ter o seu cariz social e este novo público quer mais é entretenimento, não achas que isso também pode ser um pouco decorrente da mensagem social ser, por vezes, demasiado igual a si mesma?
  Valete - Percebo que musicalmente fique cansativo, mas o hip hop é uma música de sentimento e nunca será sempre igual. A mensagem, o conteúdo, a forma até podem ser os mesmos, mas há lado artístico. Ouvi uma música do Chullage em que ele numa história resumiu todo o estilo de vida que existe num gueto. Contou uma história e interligou-a e artisticamente isso é genial. Por exemplo, escrevi uma música chamada «Serial Killer», em que falo de uma história de amor mas é a relação de um gajo com a heroína. Artisticamente pode fazer-se muita coisa com o mesmo tema.

  - Se acaso vendesses qualquer coisa como 10 mil discos o que aconteceria à tua carreira?
  Valete - Isso das vendas e muito simbólico e os simbolismos a mim não me interessam muito. Interessa-me que as pessoas percebam mesmo o que estou a dizer e que não comprem rap porque está na moda. Quero que as pessoas captem a mensagem, mesmo que discordem dela. Estão a acontecer coisas graves. No rap está-se a matar o MC e a mensagem. Só se criticam os beats, a sonoridade. O MC também é importante! Muitas vezes o MC, que é o autor do álbum, nem produz e está a ser criticado por uma coisa que não fez. Por exemplo, a Source, que é a bíblia do hip hop, só fala dos beats. Acho que isso á grave.

  - Mas isso levarte-ia a questionares-te sobre o que estarias a fazer, visto que tens essa ideia de que é suposto ficares a um nível mais underground e há perigos em ultrapassares esse patamar?
  Valete - A questão é que no meio underground pensa-se que as massas não estão preparadas para muita coisa, só querem as coisas fáceis e são ignorantes. Por isso, quando um álbum é bem recebido põe-se muitas dúvidas. Duvido que aconteça no meu caso, mas se acontecesse, se calhar podia questionar: será que o que fiz tem profundidade?, será que está uma coisa levezita e deu para dançar?, ou será que as massas até estão despertas? Ia ficar nessa dúvida. Mas acho que não dá, até porque o hip hop tem muitas barreiras em entrar mo circuito comercial, no circuito do mercado. Os hipermercados não querem hip hop português. Mas não é um objectivo e não quero ficar nessa elite, nessa classe dos mais vendidos.

  Por Gonçalo Frota para o "Blitz"

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