Nota H2T: Esta é uma entrevista retirada do programa “Pessoal e Transmissível”, programa que a rádio TSF transmitia de segunda a quinta feira ao final da tarde, repetindo depois após o noticiário da meia noite. O programa consistia basicamente numa entrevista informal, em tom de conversa com “gente que faz a diferença” como era apanágio próprio. O entrevistador em questão era Carlos Vaz Marques, e a rádio dispensa apresentações, extremamente qualificada pela veracidade e pontualidade na informação - TSF. Através de Sam The Kid, o hip hop nacional desperta o interesse e marca também a diferença nesta grande rádio.
Sam The Kid
De Chelas para o Mundo
Sam The Kid, o nome mais aplaudido do hip-hop que se faz em Portugal, tornou-se um fenómeno de culto com o disco que editou no final do ano passado. Sam The Kid garante que nunca será Sam The Cota e conta como conseguiu conquistar a crítica de música pop a partir de Chelas.
“Sam The Kid vai ser sempre, para sempre, um puto
Mesmo assim yo, com um estilo buéda astuto,
Ao pé da Zona I ou ao pé da Zona J,
Sam The Kid nunca vai ser o Sam The Cota”
- Samuel Mira, 23 anos, músico, Samuel no bilhete de identidade, mas Sam para os amigos. E para os fãs, Sam The Kid. Como é que apareceu esta alcunha, este pseudónimo?
Sam The Kid - Esse pseudónimo fui eu próprio que me baptizei, quando estava na escola. “The Kid” porque era ainda puto, era jovem. Não há nenhuma razão especial, não há metáfora nenhuma aí por trás, foi só porque me soou bem.
- Sam The Kid tornou-se, para a crítica de música pop, a figura do ano na música portuguesa em 2002 e os elogios têm sido tantos que Sam The Kid até já se sente um bocadinho incomodado. Surpreendeu-o este aplauso todo de repente?
Sam The Kid - Sim, fiquei muito surpreso. Fico contente mas acho que era cedo demais para me porem já nessa fasquia.
- Disse numa entrevista por exemplo que parece que o tratam já como se estivesse morto.
Sam The Kid - Isso foi por causa do press release que o Rui Miguel Abreu fez através do meu disco. Disse coisas tão espectaculares que parecia mesmo que eu já tinha morrido.
- Exageraram no que disseram?
Sam The Kid - Um bocadinho. Senti uma certo exagero, mas também é normal, uma pessoa quando está a vender o seu peixe (risos) é normal fazer isso.
- Qual foi o elogio que gostou mais de ouvir ou de ler no meio disto tudo?
Sam The Kid - Não sei. Mas é quando eu sinto que estão a reconhecer exactamente aquilo que eu estou a fazer. Elogios concretos não me estou a lembrar, mas gosto quando noto que sabem aquilo que eu faço.
- O Sam faz hip hop, um tipo de música ainda com uma história recente em Portugal. Como é que explicaria a alguém que nunca ouviu hip hop, o que é o hip hop?
Sam The Kid - O hip hop é um movimento, é uma cultura que tem quatro vertentes: tem o b-boy que é a dança, o breakdance; tem o DJ que é o gajo que passa música e faz scrath - scratch é movimentar o disco para a fente a para trás, fazer uns barulhos, uns ruídos. Mas tem mérito e é espectacular; tem o graffiti que é fazer aquelas pinturas com arte; e depois tem o MC que é aquele que escreve as rimas.
- MC que quer dizer?
Sam The Kid - Pode ser Mestre de Cerimónias…
- Mestre de que cerimónias?
Sam The Kid - Esse nome vem desde antigamente, quando o DJ era a pessoa mais importante, e o MC era apenas a pessoa que dava a cara ao DJ. O MC dizia ao público: “Façam isto, metam as mãos no ar”, era mais numa de festa. Entretanto, o MC passou para uma coisa mais intervencional…
- E o MC tornou-se mais importante do que o DJ…
Sam The Kid - Exactamente, o MC ultrapassou o DJ.
- O Sam The Kid é MC.
Sam The Kid - Sou um MC.
- E é DJ também?
Sam The Kid - Não, sou é produtor, entre aspas. Faço batidas, faço as minhas bases instrumentais para poder pôr as minhas rimas.
- Um exemplo. Tem alguma coisa aí à mão que possa servir de exemplo ao que são as batidas, as bases instrumentais?
Sam The Kid - Tenho por exemplo aqui uma cena em que brinquei com uma música do Carlos do Carmo mas está irreconhecível, nem ele próprio reconhece.
(Passa o som…)
- Isto é Carlos do Carmo?!
Sam The Kid - É Carlos do Carmo, mas aqui uso uma técnica que é legal, ou seja, não me podem processar por estar a utilizar música dele porque está tudo cortadinho.
- Já agora, que canção é que é do Carlos do Carmo?
Sam The Kid - Não me lembro precisamente.
- Mas ninguém diria, não se “vê” nem se ouve aqui Carlos do Carmo em parte nenhuma. Mais um bocadinho.
(Passa novamente um pouco mais do som…)
- Como é que isto é feito?
Sam The Kid - Isto é feito, neste caso, tudo cortadinho. É ouvir notas e notas e quando há uma nota que me toca, separo essa nota. Depois pode haver mais à frente, passado um minuto, outra nota que eu goste e separo essas notas e brinco com elas através de percussão…
- Mas a base rítmica não é do Carlos do Carmo.
Sam The Kid - Não. O bombo e a tarola, isso não, vou buscar a outros sítios, claro. Isto aqui não é tudo Carlos do Carmo, a melodia em si é que foi criada através de notas tiradas da música de Carlos do Carmo.
- O que o tornou mais conhecido foi, agora no final do ano que passou, um disco de batidas que lançou, onde não canta, são só instrumentais. Qual é a onda de um e de outro?
Sam The Kid - A que tem rimas está a mostrar uma imagem específica que às vezes até não toca as pessoas mais adultas, porque eu sou um jovem e falo das minhas coisas como jovem, e é normal um adulto não se identificar, mas não faz mal. Enquanto que nas batidas, como não tem palavras, dá a liberdade às pessoas de fazerem e criarem a história que quiserem. E ai eu tive sorte que já abordou esse pessoal mais adulto.
- Portanto, gente mais velha pegou mais nos instrumentais do que nas rimas.
Sam The Kid - Exactamente.
- E interessam-lhe mais as rimas ou as batidas?
Sam The Kid - Agora, neste momento, a minha luta é tentar fazer com que esse pessoal adulto também goste das rimas. Pode não se identificar com o conteúdo, mas ao menos que me dê valor “sim, ele trabalhou naquela estrutura rítmica e de rimas”.
- De que é que falam as suas rimas?
Sam The Kid - Falam de tudo, falam de tudo…
(Entretanto, toca o telemóvel que STK se apressa a desligar…)
- Já samplou o telemóvel alguma vez?
Sam The Kid - Mensagens que me mandam para o atendedor de chamadas já gravei. Mas retomando a cena… de que é que eu falo? Falo do meu redor, de todas as cenas que se passam e normalmente é de coisas que me chateiam porque quando estou contente não me apetece escrever…
- Coisas que chateiam?
Sam The Kid - Exactamente, porque a escrita funciona um pouco como terapia e quando alguma coisa corre mal, tu escreves aquilo como um desabafo, faz-te sentir bem de alguma maneira.
- Um exemplo ai de uma rima assim com uma punch-line (também é assim que vocês dizem) interessante sobre um problema qualquer recente.
Sam The Kid - Sei lá, posso falar da minha vida:
“Não sei se sou um plano ou acidente com tesão
originado com paixão ou com sexo pós discussão
minha raiz urbanizada na calçada e no alcatrão
não te esqueças de onde vens ou és esquecido então
eu só ponho uma questão:
Qual é a razão da minha origem?
Não te fies na virgem porque elas fingem
e não dizem o que fazem
caso casem ainda te acusam do que trazem
um ladrão da paz e harmonia
fácil empatia com a máxima ironia…”
- MC, Mestre de Cerimónias. Isso deve puxar pela caixa de ar.
Sam The Kid - Puxa e eu tenho asma (risos) e isto puxa muito. Eu por acaso gostava de ter mais caixa de ar. Se tivesse mais caixa de ar rimava ainda mais.
- Como é que começou a rimar? Como é que se lançou neste género?
Sam The Kid - Nas rimas é mesmo desde criança, desde as minhas primeiras composições na escola fazia sempre em verso. Mas depois, relativamente ao hip hop, comecei a partir de 93 quando um amigo meu me mostrou uma cassete de vídeo-clips e aí descobri o que era o verdadeiro hip hop. Primeiro quis fazer um grupo com ele, ele não quis, formei um grupo com outros três elementos, chegámos a fazer alguns concertos mas não correu bem e eu continuei a fazer as minhas cenas, mandei para programas de rádio, aceitaram, deu força para continuar, apareceu o CD-R, lancei o meu primeiro CD e até lá divulguei o meu nome.
- E estas coisas andam em circuito fechado, como é que funciona esse circuito fechado?
Sam The Kid - Existe uma certa organização e, sei lá… o público é para aí em 70% quase sempre o mesmo, se formos aos mesmos sítios tocar conhecemo-nos todos uns aos outros, existe essa coisa…
- Isso é bom ou mau?
Sam The Kid - É bom e mau, mas por acaso neste momento, por causa deste segundo “boom” do hip hop (porque o primeiro foi com o “Rapública”) diria que vejo muito mais outsiders a perguntar “quando é que há aí uma festa, um concerto?”. Ou seja, pessoal novo que está a aderir a esta cena. E uma coisa que faltava aqui há uns tempos era só os ouvintes de hip hop, porque antigamente, todos os que estavam lá nos concertos eram os que faziam também hip hop. Agora já há os puros ouvintes, que gostam apenas de ouvir e isso é muito bom.
- Que instrumento é que toca Sam The Kid?
Sam The Kid - Eu toco… é mesmo um instrumento, é uma MPC2000.
- É esta máquina aqui? É uma máquina cheia de botões, isto é uma coisa relativamente sofisticada…
Sam The Kid - Mas é uma máquina que não tem som nenhum, ou seja, não tem lá nada, é um sampler. Tu é que tens de ir buscar a música, ires “roubá-la” e meteres dentro desta máquina e trabalhares o máximo possível e alterares, e quanto mais alterares mais mérito tens da tua música.
- Mostre lá um bocadinho de uma coisa recente.
Sam The Kid - Isto aqui é uma cena que eu vou fazer para o Carlos Paredes. É o Carlos do Carmo com a cena do Carlos Paredes, misturei os dois.
(Ouve-se um excerto do tema “Viva”, inserido na colectânea “Movimentos Perpétuos”, de homenagem a Carlos Paredes. Segue-se um curto intervalo.)
- De regresso à conversa com Sam The Kid, um nome que se destacou no final do ano passado, um ano em que editou dois discos e em que se tornou uma espécie de um porta estandarte do hip hop português. A samplar a vida, é assim que costuma dizer, não é Sam The Kid?
Sam The Kid - Sim, posso dizer isso porque tento meter na música a cena mais pessoal possível…
- Um pouco de tudo, desde telefonemas como já ouvimos, canções do Carlos do Carmo… cabe lá tudo?
Sam The Kid - Cabe lá tudo, e quanto mais da minha vida tiver melhor, porque menos hipótese há de as pessoas terem uma coisa igual.
- Se calhar o melhor é começar por nos explicar o que é “samplar”, porque muita gente provavelmente não está familiarizada com o termo nem com a técnica.
Sam The Kid - Sample vem da palavra amostra, ou seja, tirar uma amostra de uma música, um pequeno excerto. Às vezes, metê-lo em ciclo (a rodar) é o suficiente para um MC depois escrever por cima. Porque no hip hop o mais importante é também a rima sobresssair, e se o instrumental for monótono dá para as rimas sobressaírem, se for muito complexo e tiver muitas variações acabas por não ter atenção à letra, vais ter mais atenção ao instrumental.
- Mas isto, uma vez que trabalha com música do Carlos do Carmo, ou da Simone de Oliveira, ou do Vitor Espadinha, ou do Marvin Gay… tudo isto exige um conhecimento de outras músicas. Ouve, para além de hip hop, muita coisa, outra coisa, o que é que costuma ouvir?
Sam The Kid - Claro, oiço todo o estilo de música, a minha mente está aberta para todos os estilos de música, até posso ouvir música chinesa só por um instrumento qualquer. Isso aí é essencial para eu tentar procurar novos caminhos para o hip hop.
- E como é que se descobre que isto dava uma coisa gira para pôr numa batida?
Sam The Kid - Experimentando. Eu até chegar a um produto final experimento dezenas e dezenas de samples naquela batida e depois há uma em que “É esta! Agora vou trabalhar mais nela e tentar pô-la mais bonita”.
- Isto é música ou é técnica de som?
Sam The Kid - Não sei explicar, mas eu considero música, apesar de ainda não ter esse mérito. As pessoas ainda não estão preparadas para lhe dar esse mérito porque nós trabalhamos com música dos outros, mas um dia, se elas estudarem mesmo a cena, vão ver que há uma diferença entre o original e aquilo que nós alterámos.
- O que é que gosta mais de samplar?
Sam The Kid - Aquilo que eu neste momento estou mais à procura e gostava de encontrar era músicos portugueses dos anos 70 que não tiveram uma grande carreira. Por exemplo, eu já samplei também Paulo de Carvalho, Fernando Tordo, Carlos Mendes, Fausto e esse pessoal todo, mas esses são muito conhecidos. Eu quero é ir buscar pessoas que não sejam muito conhecidas, que não tiveram uma grande carreira, porque assim, para já, há menos hipóteses das pessoas conhecerem de onde eu tirei esse som e, no fundo, é quase como dar uma continuidade ou uma homenagem a essa pessoa. É sempre uma homenagem, porque se eu “samplar” uma música de uma pessoa é porque gosto do trabalho dela.
- Já samplou Maria Bethânia, Dulce Pontes, o Vitor Espadinha que está no último disco… Pede autorização antes de usar esses pedaços?
Sam The Kid - Por acaso, neste momento estou a tratar disso com um editor, mas é a tal cena, como até agora ainda não tive nenhum problema com isso…
- Mas agora começa a ser conhecido…
Sam The Kid - Pois, é exactamente por causa disso. Quando estamos em casa a fazer para os amigos, ou vendes só cem, duzentas cópias, não há problema, mas acho que até agora vai estar tudo tranquilo. Se eu vendesse milhões, claro que as pessoas iam todas atrás de mim a querer uma fatia…
- Se começasse a fazer dinheiro com isso, quem depois estiver lá, ou se reconhecer nos bocadinhos que foi pirateando aqui ou ali… Porque isto é uma forma de piratear, ou não?
Sam The Kid - No fundo, claro que as pessoas têm todo o direito de não gostarem, porque por exemplo se a Ágata dissesse ou fosse “samplar” uma rima minha eu também tinha o direito de não gostar e isso aí eu respeito as pessoas, mas eu quando “samplo” é sempre por homenagem, é sempre porque gosto das pessoas.
- Está preparado para um dia destes o processarem e dizerem: “Não, não. Uma parte do dinheiro que for feito com esse disco tem de reverter a favor dos tipos que estão samplados”.
Sam The Kid - Mas é a tal cena, há duas técnicas: há a técnica em que é reconhecível, que eu também já tenho nos meus CD’s e, sim senhor, podem-me processar. E há a técnica irreconhecível. Se me processarem, eu vou continuar a samplar esse mesmo artista, mas de uma forma irreconhecível, em que nem ele dá por isso, como é aquele caso que mostrei do Carlos do Carmo.
- Outro exemplo.
Sam The Kid - Deixa ver se tenho aqui…
(Passa um novo o som onde um coro grita por cima da batida: “O povo unido jamais será vencido!”, vezes repetidas…)
- Isso é o quê?
Sam The Kid - Isto aqui é um instrumental que eu estou a fazer para o meu próximo álbum. Uma cena que tirei aí de música portuguesa e estou a tentar trabalhar nisso. Mas ainda não está acabado, isto é só a base, a estrutura.
- Ainda é só o esqueleto…
Sam The Kid - Falta aqui pôr o baixo e não sei quê… e também vai ter rimas. Isto aqui é só o suficiente para me inspirar para poder escrever.
- E de onde é que vem este som? Este “O Povo unido” foi tirado de onde?
Sam The Kid - Foi tirado aí de um CD que tem canções com história… por acaso costumo lembrar-me do autor e, sinceramente, neste momento não me estou a lembrar.
Eu gosto sempre de ir buscar coisas portuguesas para ser fiel à nossa cultura também.
(Sam mostra outro som…)
Sam The Kid - Isto é Simone de Oliveira naquela cena da “Desfolhada”. Está cortado, mas aqui dá para reconhecer.
- Em que ambiente é que se costuma ouvir o hip hop?
Sam The Kid - Em que ambiente?…
- Bares, discotecas… Não é uma coisa para se ouvir sozinho, ou é?
Sam The Kid - Existem, sim. Mas eu adoro ouvir sozinho o hip hop, porque isso depois inspira-me para poder arranjar ideias e aplicá-las ao meu estilo. Ouvindo sozinho é quando eu me inspiro mais. Ouvir em bares ou discotecas é para me estar a divertir.
- Além da música, a sua outra paixão é o vídeo. Estudou produção de vídeo, de cinema…
Sam The Kid - Sim, não cheguei a acabar o curso até, porque foi um bocado ilusão. Era aquilo que eu pensava que queria fazer, trabalhar no meio audiovisual, mas depois vi que era assim um meio muito de cunhas e…
- De cunhas?
Sam The Kid - Sim, ou seja, acabavas o curso e ias apanhar cabos. Descobri que bastava teres um primo que ias apanhar cabos à mesma mas consequentemente ias subindo. Por isso agora deixei os meus colegas acabarem o curso e eles no futuro vão ser a minha cunha (risos).
- E os vídeos? O “vídeo-Chelas”, quantos minutos é que já tem gravado desse vídeo?
Sam The Kid - Tenho aqui um arquivo tão grande… é só veres isso aí…
- Aquilo são tudo cassetes?
Sam The Kid - Sim, cassetes… aquilo são o meu arquivo todo: de concertos, filmes e vídeo-clips caseiros que eu sempre fiz, porque eu sempre gostei de brincar e de juntar o útil ao agradável. Juntar os meus amigos e meter-me nas filmagens, brincadeiras para recordarmos quando formos mais velhos.
- Mas é só para recordar ou tem uma ambição? A mesma ambição que põe na música e nos discos?
Sam The Kid - Não. Principalmente para ter uma imagem em movimento e recordar quando for mais velho.
- Mas há personagens. Há por exemplo o “Byters”..
Sam The Kid - Sim, é um filme que se chama “Byters”. Byters é uma expressão que existe no hip hop para aqueles que roubam as ideias dos outros, dão dentadas, tiram-te uma ideia…
- É um filme em que o Sam The Kid põe um pesadelo em cena. Ou seja, vêm cá os Byters e roubam-lhe as ideias.
Sam The Kid - Exactamente, e depois vão para a televisão fazer grande sucesso com as minhas músicas e depois, dos meus amigos, ninguém acredita em mim.
- Isso é um pesadelo que tem mesmo de facto, na verdade?
Sam The Kid - Existe um pouco isso às vezes porque já senti isso na pele, pessoas a roubarem-me as ideias.
- E o que é que acontece nessas circunstâncias?
Sam The Kid - Nessas circunstâncias só temos é de tentar avançar para outras ideias, tentar chegar a um nível que as pessoas não consigam imitar.
- Os pesadelos e os sonhos de Sam The Kid. Depois de um curta pausa voltamos à conversa com um filho de Chelas que diz que cada vez se sente mais poeta.
(Segue-se novo intervalo)
- Convidado hoje para a conversa pessoal e transmissível Sam The Kid, filho de Chelas e protagonista de um género musical que nasceu nas ruas dos Estados Unidos. O hip hop continua a ser uma música de rua Sam The Kid?
Sam The Kid - Sim, é uma música urbana, sem dúvida. Mas eu por acaso antigamente até dizia uma coisa que era feia, que era: “se calhar, se eu nascesse no Alentejo não faria hip hop”, mas hoje em dia já existe isso porque…
- No Alentejo também já se pode fazer hip hop?
Sam The Kid - Também já se pode fazer hip hop, até já há grupos que fazem hip hop no Alentejo, tenho conhecimento disso e acho que é um bocado injusto. Mas é principalmente uma música urbana.
- Há ideia de que é uma música associada aos gangs, à violência urbana… essa ideia tem algum fundamento, alguma razão de ser?
Sam The Kid - Tem, isso é verdade. Se calhar, ao principio o pessoal purista como eu, quando via uma reportagem de rapazes rebeldes e bandidos e por baixo passava hip hop… eu sentia-me assim: “Fogo! Estão a conotar o hip hop com este estilo de bandidagem!”. Mas depois pensei : “Se calhar este rapaz ouve hip hop” e também não faz sentido para este rapaz, negro, urbano, meterem heavy metal por trás. Por isso eu também dou razão. Toda a gente tem direito a ouvir hip hop, mas depois vem a conotação… cada um tem de ter a consciência que não é só de bandidos.
- Essa conotação é muito Americana, também funciona na sociedade portuguesa?
Sam The Kid - Sim, também.
- O hip hop também está associado aos gangs da grande Lisboa, por exemplo?
Sam The Kid - Não diria gangs, diria que como é de pessoas urbanas, a bandidagem também gosta de ouvir hip hop… mas não é só bandidos que ouvem hip hop.
- O Samuel é de Chelas, muito do hip hop português é feito aqui ou feito nos subúrbios da Margem Sul… isso é apenas por acaso?
Sam The Kid - É como eu estava a dizer, eu antigamente se calhar dizia: “só mesmo nascido em Chelas é que podia ter feito hip hop…” mas hoje em dia já não posso dizer isso, acho que já não há limites.
- Chelas tem muitos códigos?
Sam The Kid - Tem, como tem qualquer bairro. Cada um tem o seu calão, as suas dicas, vocabulário em si.
- Viu o filme “Zona J”?
Sam The Kid - Vi. E as próprias pessoas da Zona J não se identificaram muito com o filme. Achei três coisas: Para já, eu gosto de cenas simbólicas e os actores teriam de ser da Zona J (na minha visão, não quer dizer que eu sou melhor ou faria melhor). E depois também achei a linguagem com asneiras muito gratuitas tipo “Eu amo-te caralho! Foda-se, não vês?”… não foi espontâneo. E depois tentaram exagerar, com frigoríficos na rua e essas cenas… as pessoas não se identificaram muito com isso. Apesar de ser sempre um elogio, fazerem um filme sobre a Zona J e se calhar até meteram um nível de respeito que não é assim tão alto, também não é assim tanto, passas lá na boa, não há problemas.
- Chelas é um bairro particularmente difícil ou violento, ou isso é apenas uma ideia assim de senso comum, mal formada?
Sam The Kid - Sem dúvida que a Zona J, se calhar é a zona mais problemática. Aqui a Zona I também tem os seus problemas… E depois isso difere tudo de pessoa para pessoa, tipo eu escolhi este meu caminho, este mundo do hip hop e não estar aí a vender droga ou não sei quê, mas há quem o faça…
- Teve que fazer essa escolha? Isso é uma escolha consciente?
Sam The Kid - Sim, é uma escolha. Eu vejo muitos adolescentes a ir por esse caminho por não terem nada para fazer e às vezes eu também dou uma força, um incentivo, porque essa juventude, a maior parte não tem ambições, não sente…
- Essas rimas que já nos mostrou nesta conversa são escritas ou estão todas aí na memória, guardadas e arquivadas?
Sam The Kid - São escritas. Só depois, de rimar tantas vezes a ler o papel é que acabo por as decorar.
- O que é que costuma ler?
Sam The Kid - Ler?… revistas (risos)
- Só?! E livros…
Sam The Kid - Não, livros não, por acaso não leio. Não sei porquê mas não…
- Como é que escreve sem ler?
Sam The Kid - Não sei, não sei… sinceramente, eu gostava de ler mas não me consigo concentrar. Eu vou lendo três linhas ou quatro e já estou a pensar noutra coisa, tenho esse problema.
- E jornais?
Sam The Kid - Jornais leio.
- Telejornais?
Sam The Kid - Tudo… isso sim, estou sempre informado.
- Está a par da actualidade. A actualidade é também uma fonte de inspiração para as letras que escreve e para as rimas que faz?
Sam The Kid - É, mas não de uma maneira concreta. Ou seja, agora esta cena que se passa com o Carlos Cruz por exemplo, eu neste mesmo momento não vou pôr uma rima com o Carlos Cruz, posso falar do problema em si mas não em concreto porque senão daqui a vinte anos já ninguém sabe o que é. Eu quero é coisas que passem o tempo, sejam intemporais.
Mas se as pessoas vão deixar de ouvir como estão agora a ouvir (e eu estou a sentir isso), já não posso responder porque também se deve muito aos media. Os media é que dão essa atenção, como meteram tipo “álbum do ano”… ao meterem “álbum do ano” há pessoas que vão comprar sem saberem o que é..
- Se calhar há pessoas que vão ao engano…
Sam The Kid - Sim, há pessoas que vão atrás dos media, sem dúvida.
- Já aconteceu haver pessoas que vão a ouvir e dizerem “Fui ouvir e não percebo bem aquilo, não era bem aquilo que esperava..”
Sam The Kid - Sim, há pessoas que dizem “Isto é que é trip-hop, não é?”. Não, isto aqui é hip hop à mesma…
- Qual é a diferença entre trip-hop e hip hop?
Sam The Kid - Eu também não sei dizer. Mas por exemplo o trip-hop é mais Portishead, Tricky, e é assim uma onda que foge um pouco mais ao hip hop. Se realmente há coisa que tem de hip hop são os drums, a batida, os BPMs (batidas por minuto), e são muito mais lentas. Mas o meu disco de instrumentais é puro hip hop mesmo porque são as minhas referências. E eu como MC, ou poeta se quiserem…
- Ou poeta?
Sam The Kid - Poeta, sem dúvida. E posso dar rimas que vocês têm de considerar poesia.
- Outra? Então venha lá uma rima para poeta…
Sam The Kid - Então digam lá se isto não é poesia:
“É tempo de mudança, o tempo mata a esperança
pessoas morrem mas o tempo avança
Qual a importância? Dá valor à infância
Se tempo é paca, a paca é ganância
Ganância é um defeito ligado à nossa ânsia pelo tempo
Às vezes é lento, às vezes é veloz
O tempo leva os meus avós
mesmo que eu peça só mais um coxe
Tempo, só peço mais um momento
Mesmo que eu te ignore só contigo é que eu me oriento
Já não aguento, estou farto do algarismo crescente
Desde quanto também contas para o meio ambiente?
Se está frio e me ouves, então é tempo que esgotas
Porque o mau tempo faz com que o tempo acabe para cotas
Momentos idiotas, relembrando idades
Porque o tempo sempre fez com que se mudassem vontades
Celebridades só duram apenas quinze minutos
Putos como eu esperam que o tempo dê frutos
Desde canuco que eu fujo e tu encontras-me sempre
Até para rimar neste som tenho de estar dentro do tempo
Quando és mau és pontual, apareces ao acaso
Sofres de intolerância, não há atraso no nosso prazo
Matas o meu compasso na vida e eu passo por ti
Como um abraço, suicida a saúde que eu perdi
E eternidade não é algo que eu prometa,
mas eu sinto que ainda tenho areia na ampulheta.”
- Quantas rimas é que faz por dia?
Sam The Kid - Agora faço menos porque sou mais exigente nas palavras e nas ideias. Faço se calhar só duas ou três. Porque é a tal cena, é como o Rui Veloso “tenho todo o tempo do mundo” (risos)… não tenho pressas.
- Até que idade é que andou na escola?
Sam The Kid - Dezasseis acho.
- Porque é que deixou?
Sam The Kid - Porque depois… não sei. Tentei aplicar-me mais no hip hop, achei que era para fazer isto que eu estava cá, para ajudar também todo o movimento a subir, porque eu também estou envolvido em vários projectos. Estou a ajudar pessoas com bases de instrumentais, pessoas com talento que não têm bases de instrumentais e às vezes me vêm pedir. Porque eu não quero ser o único a estar aqui a falar, quero mais pessoas, não quero ser o porta voz do hip hop.
- Mas é.
Sam The Kid - Neste momento posso dizer que sou a pessoa mais visível do hip hop purista…
- Purista? Quer dizer que há um hip hop não purista ou impuro?
Sam The Kid - Sim, Da Weasel por exemplo, que são muito mais conhecidos que eu, são hip hop mas também são muitas outras coisas: são hip hop, são rock, são reggae, é uma fusão de coisas. E eu sou só hip hop e por isso é que digo “hip hop purista”.
- Agora algumas palavras chave:
Sexo
Sam The Kid - Gosto… gosto muito.
Fama
Sam The Kid - É uma coisa que eu meto sempre o pé atrás. Tenho medo.
Religião
Sam The Kid - Religião não tenho. A minha religião, se fosse, era o hip hop, mas não existe (risos).
Drogas
Sam The Kid - Consumo só haxixe.
Escola
Sam The Kid - “Escola da vida”. Foi o meu primeiro som a passar na rádio.
- Como é que é?
Sam The Kid - Ei… essa rima já passou do tempo, já não está actualizada. Eram outros temas, era racismo, era outro flow:
“Nesta escola da vida há muito que aprender
É preciso saber como sobreviver
Vês a fome, vês a guerra, o racismo e tudo mais
Vês pessoas a morrer e não aparecem nos jornais
Ainda não sou professor mas sou um bom aluno
Não sou nenhum otário nem sou nenhum gatuno
Sou um rebelde, um mensageiro do guetto
Sei que sou um pula mas respeito o preto
Quem não tem money money, quem não tem nenhum amigo,
Tem de ser bandido para não correr nenhum perigo
É a lei das ruas, não se pode fazer nada
Às vezes a vida é certa, outras vezes é errada.”
Era assim, com outro flow. Agora com os tempos as pessoas vão evoluindo
Violência
Sam The Kid - Não gosto, detesto violência, não sou nada a favor.
Felicidade
Sam The Kid - Neste momento sinto-me feliz com o estatuto que estou a conseguir ter. Sinto-me muito feliz.
Revolta
Sam The Kid - Revolta é a principal inspiração da minha escrita, é o que me faz escrever muitas vezes.
Amor
Sam The Kid - “Amor – Beats Vol. 1” (risos)… é o nome do meu primeiro CD de instrumentais.
- O dicionário pessoal de Sam The Kid, de um quarto de Chelas para a ribalta. Um nome que pôs o hip hop no mapa da música que se faz em Portugal.
Por Carlos Vaz Marques para o programa "Pessoal e Transmissível" (TSF)
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