"Não gosto de ser responsável por nada"
Sam The Kid sobe ao palco no terceiro dia do festival. Aos 28 anos, o jovem de Chelas continua a sentir-se ‘o puto’. O alcance das suas palavras não o preocupa. Rejeita o papel de porta-voz de uma geração e garante que não é “o puro”.
- Crescer em Chelas influenciou a tua música?
Sam The Kid – Sou uma esponja que absorve tudo à volta. Morasse noutro sitio e o ambiente seria igualmente importante para a minha inspiração.
– O bairro foi determinante para escolheres o hip-hop?
Sam The Kid – Não é fácil explicar a ligação. Talvez pelas rimas que faço desde as composições da escola e que sempre pareceram acessíveis. Visualmente, os vídeos também tiveram impacto. Depois há o cantar. Eu não sei cantar e outros estilos implicam sabê-lo. Não quer dizer que um gajo do rock saiba automaticamente rappar. Isto tem a sua dificuldade.
– O que mudou entre o Sam do culto do bairro e o que vende discos em todo o País?
Sam The Kid – Estou mais profissional porque já vivo da música. Prefiro dizer o que não mudou e até já pensei em fazer um tema sobre isso. Tenho 28 anos e continuo a não ter responsabilidades. É isso que marca o Kid. Continuo em casa, não tenho mulher, filhos, nem sequer carro.
– Vais ser sempre o Kid?
Sam The Kid – Claro. É só um nome e não faz sentido trocar só por me sentir mais adulto. O António Feio não vai mudar de nome se um dia ficar bonito.
– Sentes-te um porta-voz da juventude portuguesa?
Sam The Kid – Isso remete outra vez para a responsabilidade, e eu não gosto de ser responsável por nada. O maior privilégio que tenho é ser livre para fazer o que quero. Mas percebo que possa haver essa interpretação e tento não entrar numa onda de pregador.
– Foi estranho ir ao ‘Prós & Contras’ da RTP 1?
Sam The Kid – Foi um engano. Estava entre senhores com escola Fidel Castro... Eu não tenho esse dom para discursar e não podia estar a argumentar com eles.
– A política interessa-te?
Sam The Kid – Acompanho nos noticiários, mas os políticos não me interessam nada.
– E continuas sem votar?
Sam The Kid – Sim, mas gostava de o fazer e até me dizem “vota em branco que o voto é um acto valioso”. Não! Se é valioso, não vou à urna só para mostrar que os políticos não me interessam. Eles não merecem esse trabalho.
– A tua frontalidade é uma virtude ou defeito?
Sam The Kid – Ambas, mas mais virtude. O problema está em quem recebe a mensagem: se for mais sensível pode ficar afectado. Às vezes também me arrependo, porque a espontaneidade leva-me a ser frio na forma como falo.
– Assumiste no Amigos do Live Earth que não reciclas...
Sam The Kid – E não me arrependo. A organização também não me perguntou isso quando me convidou. Sinceramente, nem gostei muito de lá ir. Banda entra, banda sai, o som também não estava nada de especial...
– Então porque é que lá foste?
Sam The Kid – Honestamente, não foi pela causa, porque tinha ido se fosse outra qualquer. Motivou-me a cena do Atlântico, onde nunca tinha estado, e achei aliciante a associação a um evento mundial. A data também foi importante porque o 7 é o meu número.
– O ambiente não te preocupa?
Sam The Kid – Não é isso. É mais o hábito português de só nos preocuparmos quando algo nos atinge. Uso preservativo por medo de engravidar alguém, mas nunca penso na SIDA porque não conheço ninguém infectado.
– Continuas a ver a música como uma terapia?
Sam The Kid – Sempre. Gosto de escrever sobre algo que tenha necessidade de dizer. Aliás, odeio sentir que não tenho nada para dizer. Claro que às vezes inspiro-me nos amigos, mas, essencialmente, as rimas são biográficas.
– E não te sentes exposto?
Sam The Kid – Não. Só rimo sobre o que me apetece deitar para fora. Uma amiga propôs-me um documentário, mas queria falar com a minha mãe. Recusei.
– Farias um álbum sobre miúdas, dinheiro e carros?
Sam The Kid – Se fosse a minha cara, fazia na boa. Se gostas da ostentação, das roupas de marca, porquê fingir o oposto? Há espaço para tudo no hip-hop. Importa é ser criativo.
– Como é a vida de músico num momento de crise da indústria?
Sam The Kid – Olha, o que supostamente equilibraria isto seriam os toques para telemóvel, mas as empresas são trafulhas e eu continuo sem ver o dinheiro. O top de vendas diz que estou em terceiro. Isso significa o quê? Quantos toques são? A Jamba declarou à minha editora 111 toques do ‘Poetas de Karaoke’. O Peter Cooper foi à Associação Fonográfica Portuguesa e diz que estão lá 9700 registados! Imagino as outras empresas licenciadas, já para não falar das que vendem imitações...
– A quanto é que terias direito por cada toque?
Sam The Kid – 25%. Eles ficam com metade e eu divido o restante com a editora.
– Chateia-te mesmo que não se cante em português?
Sam The Kid – Não é chatear-me... Não me inspira. E para fazer música, quero ouvir os outros e inspirar-me. Instrumentalmente, até podem consegui-lo, mas liricamente nunca o farão. E eu preocupo-me muito com a oralidade.
– De que forma?
Sam The Kid – Quando me conhecem costumam dizer: “parece que rima enquanto fala”. O meu objectivo é esse, mas ao contrário: rimar parecendo que falo.
– Foste mal interpretado no tema ‘Poetas de Karaoke’?
Sam The Kid – Então não fui? A situação com os Moonspell até parte de uma coisa boa que disse. Se alguém quer ser como eles é por serem bons. Eu critico é a cópia em si! O engraçado é que comecei por levar da malta do metal e depois veio o pessoal do hip-hop que canta em crioulo. Mas nunca quis dizer ‘façam todos como eu’. Por isso compreendo as reacções. Não sou, nem quero ser, o puro.
– O inglês é um caminho para a internacionalização?
Sam The Kid – Não sei, porque não tenho essa experiência. Acho é que és menos especial e acabas por não sobressair.
– E gostas de karaoke?
Sam The Kid – Não. (risos) Voltando ao tema: eu queria celebrar o facto de o hip-hop estar em alta e de o cantar em português ser uma das causas para isso. Ainda por cima quando somos acusados de fazer uma cena americana.
– Ainda achas que os teus instrumentais são mais adultos que as tuas rimas?
Sam The Kid – É uma questão de realidades. Daqui a 15 anos se escrever sobre filhos os mais novos vão perguntar: ‘que é isto, pá?’. Era nesse sentido da que falava. Se rimo sobre o que se passa à minha volta, é natural que alguém com 40 anos possa gostar das batidas mas achar as letras imaturas.
– Preferes o disco ou o palco?
Sam The Kid – Sou o contrário do artista que diz ter nascido para estar no palco. Prefiro o estúdio. Não me importo de dar a cara mas, no fundo, faço mais sentido nos bastidores.
– E dá-te mais gozo pesquisar sons ou montar os beats?
Sam The Kid – Curto tudo no processo de criação e produção. Mas atenção: não recuso a arte dos concertos, onde quero melhorar e criar uma marca que inspire os outros. A fasquia dos concertos hip-hop tem que ser elevada.
– De que forma?
Sam The Kid – Ando a tentar descobrir. As pessoas têm que sair a falar do que viram. Detesto sentir o piloto automático e estar sempre a repetir o alinhamento. E tento fugir a clichés como o encore. Acho palerma guardar um hit para o regresso ao palco.
– Como procuras os samples?
Sam The Kid – De todas as formas. Não sou purista, nem acho fundamental ir à loja picar vinil. Uso muito a internet.
– Não és um ladrão de ideias?
Sam The Kid – Claro que não. O instrumentista também se inspira em terceiros e até é capaz de tocar muito mais próximo da sua influência do que eu ao cortar, fragmentar e moldar um beat.
– Tens tido problemas com os direitos de autor?
Sam The Kid – Só quando fui processado pelo Tozé Brito em nome do Vítor Espadinha. Mas já ouvi o Vítor dizer que não me queria levar a tribunal. O Tozé Brito é um advogado recente e quis treinar comigo o que aprendeu.
– Tens algum gosto especial em samplar artistas portugueses?
Sam The Kid – É-me indiferente. Tenho é pena de não encontrar certas referências na música portuguesa, como a soul. Já falei com músicos mais velhos e sei que eles gostavam mas tinham medo da acusação de imitar os americanos. Mas depois acabaram por imitar a escola francesa.
– Já pensaste fazer um disco noutro estilo?
Sam The Kid – Tenho participado em coisas diferentes, mas o hip-hop tem que ser sempre a base do meu som. Gostava era de dar um concerto puramente instrumental. Outra ideia que tive, agora que estou a colaborar no novo disco do Jorge Fernando, é actuar com músicos de fado.
PERFIL
Samuel Mira nasceu a 17 de Julho de 1979 em Lisboa. Diz que o número da sorte é o 7 e tatuou-o em caracter chinês no braço esquerdo. Nunca saiu de casa da mãe e, até ver, não tem essa ambição. Descobriu o hip-hop aos 13 anos e nunca mais o largou. Além da música, é apaixonado pelos audiovisuais. Quando completou o Ensino Básico seguiu um curso técnico nessa área, mas acabou por desistir assim que sentiu ter as bases necessárias. Gostava de ser realizador. É sportinguista, mas sem fanatismos.
QUEM É O ROGÉRIO BARBOSA?
– Notícias recentes deram conta da detenção de um elemento do teu grupo por assaltos a carrinhas de valores...
Sam The Kid – Essas notícias não são verdadeiras. Li com atenção e falam de um tal de Rogério Barbosa, mas eu não conheço ninguém com esse nome.
– O apelido do GQ – um dos vocalistas do colectivo que te acompanha – não é Barbosa?
Sam The Kid – Sim, mas não tem esse primeiro nome. Quem é o Rogério Barbosa? Não conheço.
– Chateia-te a associação que ainda se vai fazendo entre a cultura do hip-hop e o mundo da criminalidade?
Sam The Kid – Chateia mas já me habituei. Por mais que tentes limpar a imagem do hip-hop já sabes que essa associação vai continuar a ser feita. Não é muito diferente da associação que sempre se fez entre o satanismo e a malta do metal, por exemplo.
– Em Chelas convive-se diariamente com a criminalidade ou isso é apenas um preconceito antigo de quem não conhece o bairro?
Sam The Kid – Isso do convívio com a criminalidade depende sempre das pessoas com quem andares. Eu pessoalmente dou-me com pessoas de todos os estilos: actores, músicos, desempregados, malta que está presa... Mas são todas pessoas. Não é por fazeres algo mau a certa altura que te transformas logo numa pessoa má. Agora, se é verdade que existe um preconceito em relação a Chelas, não se pode negar que existe um fundo de verdade, porque há bandidos a morar cá. A grande mentira é insinuar-se que alguém que passe por aqui é automaticamente roubado. Nunca vi isso acontecer.
– As aparências iludem?
Sam The Kid – Então não? Estamos sempre a ouvir histórias sobre alguém que “parecia ser tão boa pessoa” e acaba por se revelar bem pior que aqueles que são sempre olhados de lado.
Por Nuno Tadeu para o "Correio Êxito"
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