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H2T - HipHop TugaSam The Kid (in "Blitz" nº949 de 07/01/2003)

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  O objectivo destas primeiras páginas centrais de um novo ano costuma ser o de divulgar a música de um artista ou colectivo que, para o Blitz, merece com urgência o reconhecimento popular e, se importante for, da indústria discográfica. Sam The Kid não é exactamente uma descoberta, uma vez que os seus álbuns estão disponíveis para quem quer comprá-los. No entanto, e ao mesmo tempo que esta música ora rimada como em «Sobre(tudo)», ora instrumental como em «Beats Vol. 1 – Amor», urge chegar a mais ouvidos exigentes dentro de fronteiras, o Blitz acredita que há, para lá de Olivença ou das Berlengas, um mundo que tem que conhecer estes 22 anos de permanente procura. Chelas, afamado bairro lisboeta, vésperas de Natal, 15h00. Sam The Kid atende o telefone, ensonado, e apresta-se a ir buscar o jornalista ao local combinado. Seguimos para sua casa e, nela, directos para o quarto do criador. Nenhum computador à vista, em destaque a aparelhagem, televisão e o indispensável (porém emprestado) MPC2000XL da Akai, «objecto» actualmente em uso nas suas produções. Discos de hip hop norte-americano amontoam-se junto a outros de hip hop portugueses. Samuel, que no trajecto para casa cumprimentou e foi simpaticamente cumprimentado por numerosas pessoas, como se do filho pródigo do bairro se tratasse, mostra-se prontamente disponível para ensinar um escriba deliciado com as potencialidades do Midi Production Center. Durante a entrevista, corre em fundo a sua música. Música que guarda às centenas de ideias em Mini-Discs que permanentemente pesquisa. No quarto de Sam, a janela aberta contrasta com a porta fechada. Se for esse o caso, há-de ser por essa janela, num sexto andar, que a sua música sairá para conhecer o que merece conhecer: o mundo inteiro. Entendamo-nos.

  - O ano de 2002 terminou para ti, praticamente, com a edição do álbum «Beats Vol. 1 – Amor». Como desejarias que, do ponto de vista artístico, decorresse o teu ano de 2003?
 
Sam The Kid - Espero que saia o meu próximo álbum de voz, uma coisa que estou a fazer com muito cuidado, e espero que supere todos os meus outros álbuns. É a cena natural, tentar fazer sempre melhor que o anterior. Quero fazer espectáculos melhores do que tenho tido, com mais nível; é que não tenho equipa nenhuma, não tenho gajo do som, não tenho manager, mas quero um espectáculo com mais condições. Quero também fazer a continuação da série «Beats», o volume dois.

  - Sendo que este disco é dedicado ao amor, e em concreto ao amor dos teus pais, que conceitos vão inspirar os próximos volumes?
  Sam The Kid - Isso surge tudo depois. Neste momento, essa ideia ainda não surgiu. Sei que quero fazer um disco com coisas portuguesas. Se vai haver fio condutor ou não, ainda não sei. Gostava que houvesse, porque com isso crias simbologias. Mesmo quando é forçado é bacano. Em relação ao primeiro volume, não sabia se queria fazer a história de amor dos meus pais. Sabia que queria pôr o meu pai e a minha mãe na capa, mas mais nada. Depois, quando vi que o título que queria era «Amor», e depois de ouvir a cena dos Bullet – que tinha uma certa narrativa, tudo fazia sentido – também quis estar à altura de uma fasquia que está alta.

  - Um dos temas mais conhecidos de «Beats Vol. 1 – Amor» chama-se «Sedução» e tem um sample da voz de Vítor Espadinha. Tendo em conta que dizes que no segundo volume queres fazer uma coisa completamente portuguesa, as autorizações necessárias à utilização desses registos são um obstáculo difícil de ultrapassar?
  Sam The Kid - Como nunca tive nenhum problema, vou fazendo as minhas coisas. É a mesma coisa – como nunca tive nenhum acidente de automóvel, não tenho medo nenhum de velocidade. No primeiro disco, «Entre(tanto)», samplei de forma evidente Dulce Pontes, mas como ficou pelo underground não houve espiga. Os problemas só aparecem quando tens uma projecção muito grande, quando pensam «este gajo está a fazer guito à minha conta» e também querem uma fatia. Quando não dás nas vistas eles não se importam muito. Acho que têm o direito de protestar mas, no meu caso, quando uso artistas portugueses é numa de homenagem, porque gosto da música deles.

 
- Não vês a tua música chegar ao ponto de exposição, de projecção, em que as pessoas já dão por essas coisas, em que dizem «lá está o Sam a fazer aquelas coisas com o Espadinha»?
  Sam The Kid - Ainda mais projecção?

  - Sim
  Sam The Kid - Eu, sinceramente, estou muito satisfeito no nível em que estou. Não sou o tipo muito ambicioso que quer muito mais do que isto. Curto ir muito lentamente. Se fizer um álbum que venda, por exemplo, 10 mil discos, a fasquia fica muito alta. Se o seguinte não for assim é considerado um fracasso. E não gosto nada de lidar com essas cenas. Gosto de subir a fasquia lentamente. Em termos de projecção não posso pedir mais. Estar nos jornais, estar na televisão… E não vou a mais sítios porque não quero. O segredo disso também tem muito a ver com a distribuidora. Há muitos gajos do underground com talento que, como não têm estrutura nenhuma por trás, não têm muita projecção. Eu tenho hipótese de escolha. Como não faço playbacks, não vou a qualquer merda. Jogo com muito cuidado. Vejo a minha carreira como um jogo de xadrez e cada movimento é importante.

  - Quem são essas outras pessoas que dizes que merecem mais exposição?
  Sam The Kid - Valete, NBC e Kilú, principalmente. Mas há muita gente a fazer álbuns, tenho feito sons para muita gente com boa música.

  - Ao passares a ter álbuns editados em teu nome, tendo passado aquela fase das mixtapes, sentes-te mais longe do dito underground? Sentes uma pressão maior agora do que dantes?
  Sam The Kid - Acho que não. A minha cena está tranquila, porque acho que o underground vem da atitude. Por exemplo, há putos que dizem «pá, este álbum, o “Sobre(tudo)”, está bué comercial, tem lá sons que são mesmo para vender» e dizem isto sem saber que só entrei na Edel em último recurso. Era para ser independente à mesma, o álbum já estava todo gravado. O problema deles é a projecção. O hip hop tem essa cena: um gajo vê um irmão mais novo a curtir uma coisa e pensa que já não pode curtir aquilo.

  - A pergunta pode parecer estúpida, do estilo «gostas mais da mamã ou do papá?», mas o que te realiza mais – fazer um disco em que cantas as tuas rimas ou um outro em que contas histórias através de instrumentais?
  Sam The Kid - Primeiro sou MC, depois é que faço as batidas. A ordem é essa. São duas coisas diferentes, cada uma tem as suas vantagens e desvantagens. Como MC, as coisas são cada vez mais difíceis, porque a evolução foi até um nível muito alto. Neste momento, estou a tentar criar técnicas novas de rimas, sem ser só a última frase com a última frase. Misturo tudo com tudo. É como poesia, neste momento sinto-me poeta (risos). Se há pessoal, até mais velho, que agora está a curtir a minha música instrumental, a minha próxima meta é que curtam a minha poesia. Eu gosto é de coisas que me piquem, do tipo «esse gajo não é bom MC». Isso é que me dá força. Escrever é muito difícil, é como um papel em branco. Fazer batidas é mais fácil, um gajo ouve o som dos outros. Neste momento faço muito mais batidas do que letras. Só faço uma ou duas rimas por dia, levo isto com muito cuidado. Quando faço um álbum, em tudo o objectivo é surpreender. «Não estava à espera que entrasse isto», por exemplo. Na rima quero fazer «punchlines» atrás de «punchlines», que todas sejam «enjoyable» e curtas. Fazer uma cena «average» para mim não é suficiente. Gosto de fazer álbuns que inspirem. Em termos de produção, os dois últimos álbuns que me inspiraram foram o do Valete e o do Kilú. E é isso que faz a arte subir - «grande som! Vou fazer um som também». Quero fazer álbuns que façam os outros voltar para o laboratório, e quero que os outros me façam isso a mim.

  - Ao olhar aqui à volta vejo muitos discos que não têm nada a ver com a música que fazes. Dirias que tens dois tipos de discos – uns que te inspiram e outros que são apenas ferramentas de trabalho?
  Sam The Kid - É, por acaso é um bocado por aí…

  - És capaz de chegar aqui e colocar a tocar um disco de Vitor Espadinha para ouvir com atenção?
  Sam The Kid - Era isso que eu ia dizer. Isso acontece-me com muito poucos artistas. Mas eu gosto da música deles! Há pessoal que quando ouve as coisas ouve só o princípio e diz que não gosta. Eu digo «tem calma, ouve a música toda, pode haver aí uma parte bacana».

  - Dizias há pouco que primeiro és MC e só depois alguém que faz batidas. Consideras-te melhor MC ou produtor, se quisermos chamar assim?
  Sam The Kid - Pois…essa é uma boa cena…Acho, sinceramente, que estou ao mesmo nível nas duas coisas. Não estou muito à frente mas também não estou muito atrás. Acho que tanto consigo surpreender com as minhas rimas como com os instrumentais.

  - Uma das coisas que cedo me impressionou em ti, desde que ouvi gravações tuas há cerca de três anos, quando tinhas 19, foi a ligação entre a tua idade e as referências que mostravas na música, que considero excelentes. De onde vêm essas referências?
  Sam The Kid - O próprio hip hop tem essa componente importante, a samplagem. E há certas regras… eu quero, por exemplo, samplar música que não conheça, e o hip hop faz isso, leva-te a conhecer e a querer conhecer músicas que não conheces. Além disso, há várias fases – é normal que em 97 ou 98 quisesse samplar música clássica, mas isso passa rapidamente, a melodia é triste…; depois tens aquela fase óbvia do funk, de que ainda gosto muito. E há duas perspectivas: ou ficares fodido porque outros já fizeram as coisas ou pegares no que já foi feito e transformares completamente, como faz o Jay Dee. E a dada altura pensei: «Deixa-me ir à música portuguesa», porque a música portuguesa tem menos probabilidade de ter sido samplada. Um gajo quer é ter essa identidade, uma cena original, a consciência de que não estás a fazer o que já foi feito. Tento personalizar cada ve mais a minha música – depois de tirar dicas de filmes americanos pensei «americano não, vou tirar referências da televisão portuguesa; mas mais pessoal ainda: vou tirar coisas do arquivo da minha câmara de vídeo». Aí ficas mesmo assim «Isto ninguém tem».

  - Que discos, portugueses e estrangeiros, gostaste mais de ouvir em 2002?
  Sam The Kid - «Educação Visual», do Valete, o disco do Kilú… Nos estrangeiros, «The Magnificent», de Jazzy Jeff, «The Lost Tapes», de Nas, e toda a colecção, de que saíram dois ou três discos em 2002, da BBE, em que também já entrou o Jazzy Jeff. É uma editora que está a chamar produtores para fazerem o álbum que quiserem. Jay Dee, Pete Rock, Jazzy Deff, Black Eyed Peas… É o topo, os melhores álbuns que têm saído.

  Por Pedro Gonçalves para o "Blitz"

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