O Pistoleiro
Aqui há uns anos, um rapaz de Chelas decidiu lançar por sua conta um álbum de hip-hop gravado em sua casa. O disco chamava-se «Entre(tanto)» e foi um dos primeiros sinais de que afinal havia esperança para o rap nacional. O rapaz, esse, é o Samuel – Sam The Kid, com o microfone carregado de munições e a cabeça cheia de dicas. O encontro estava marcado para as quatro da tarde. Como bom português que é, o nosso entrevistado não conseguiu cumprir o horário à risca. Encontrámo-nos uma hora e pouco depois do previsto e Samuel recebeu-nos com um sorriso, «desculpem lá, adormeci…». A conversa for a marcada a propósito do seu segundo álbum, «Sobre(tudo)», pronto há meses e nas prateleiras daqui a uns dias, e portanto foi mesmo por este segundo registo que começámos.
- Notas alguma evolução no teu hip-hop do primeiro para o segundo álbum?
Sam The Kid - A minha maneira de ver o hip-hop é mais ou menos a mesma, só que agora já não vou atras de qualquer cena. Dantes fazia 3 batidas por dia. Agora faço só uma, mas sou mais exigente. A nível de escrita também a mesma coisa. Se calhar antigamente escrevia uma letra num dia, mas agora um gajo já escreveu tantas letras que não pode estar a repetir as mesmas dicas. O hip-hop depende muito da palavra. Agora trabalho mais à base de apontamentos. Estou na rua, vem-me uma dica, chego a casa e aponto e vejo se posso inserir num tema em que esteja a trabalhar. A minha vida mudou, o meu discurso mudou também. No «Entre(tanto)» um gajo era mais puto, tinha 18 anos, e estava naquele discurso tipo «iá, que se foda o dinheiro e não sei que mais». Como não faço mais nada, queria ver se o hip-hop me dava independência para não estar a tirar mais guita à minha mãe (risos).
- E achas que te pode dar independência?
Sam The Kid - Não, não dá. Não sou um gajo vivo para o negócio. Estou a produzir instrumentais para diversos grupos e se estivesse a cobrar por isso se calhar já estava independente. Em termos de concertos, não cobro quase nada. Os Da Weasel, por exemplo, estão a cobrar dois mil e tal contos. Não tenho jeito para o «business». Mas o meu objectivo agora é fazer disto profissão, é sempre aquele sonho. O pessoal do hip-hop está sempre com essa conversa. Eu se tivesse que fazer um desenho sobre o estado do hip-hop, via-se um gajo a subir uma montanha e depois bué gajos a agarrar nas pernas dele. Querem todos ser esse gajo, no fundo, mas depois têm todos inveja.
- Mas tu não investes só no hip-hop. Também fazes uns filmes…
Sam The Kid - Epá, iá, mas isso aí é uma cena mais para gozo pessoal. Vai haver agora aí uma cassete à venda tipo TV Chelas, mas é para ser visto como uma cena amadora, é vídeo 8… Sempre gostei de filmar. São as minhas duas paixões.
- E não vais investir nessa vertente?
Sam The Kid - Isto é tudo por fases, tem de ser uma cena natural. Agora estou a começar a escrever para o terceiro álbum. Faço um instrumental, aquilo está-me a chamar para escrever e sai naturalmente. Não posso escrever por obrigação ou encomenda. Se calhar, daqui a dois ou três meses estou numa de voltar aos videoclips. Tem de ser tudo natural. Depois ainda há aquela fase de fazer só instrumentais. Em princípio, ainda sai este ano. Mas quero gravar a cena com calma, não quero gravar só para sair este ano. Instrumentais é muito rápido, faz-se em duas semanas. Trabalho com material que não é meu, há pessoal que não sabe trabalhar com aquilo e empresta-me para fazer beats para eles. Aproveito para fazer também para mim. O primeiro álbum gravei com um gravador de pistas de cassete, o segundo já gravei num digital e o terceiro tem mesmo de ser em estúdio para não haver desculpas.
- Quanto tempo é que o «Sobre(tudo)» levou a preparar?
Sam The Kid - É difícil dizer. Há músicas do «Sobre(tudo)» que já estavam feitas antes do «Entre(tanto)» sair. Vou gravando as cenas. Este álbum já estava gravado há mais de um ano e eu numa grande luta para aquilo sair e nunca mais saía. Eu ia lançar a cena por mim, ia a uma fábrica e o caraças… Depois apareceu a hipótese da Edel e isso trouxe vantagens. A Edel é aquela dica, tem connections, contacta os jornalistas. Liga-me da promoção e dizem «está aqui um jornalista mesmo interessado em falar contigo», mas a pura realidade é: «nós arranjámos estes jornalista para te entrevistar» (risos). Mas pronto, um gajo também lucra com isso. Só que às vezes aparecem gajos que não sabem do que é que estão a falar. Gajos que perguntam «como é que é ser branco?». Epá, sei lá, é igual a ser preto. Fazem a entrevista em 5 minutos e vão-se embora, nem sequer ouviram o álbum.
- Na preparação de um álbum, baseias-te mais em improvisos ou…
Sam The Kid - Há pessoal que faz improvisos e depois tira as melhores dicas, mas eu não faço assim. Quero dicas mais elaboradas, mais poéticas. Vou na rua e vem-me uma dica, é mesmo inconsciente, não sei explicar. Não sou eu que vou ter com as dicas, elas é que vêm ter comigo. No dia em que elas deixarem de vir ter comigo, não escrevo mais. Um gajo depende do inconsciente, mas não sei como é que aparecem.
- Mas continuas a improvisar com outros MCs?
Sam The Kid - Sim, sim, em casa, vai lá um pessoal e improvisamos na boa. Em Chelas não há muito hip-hop. Há uns anos fui à Zona J ter com uns bacanos e «então como é que é, alguém quer rimar?» e os gajos «epá, isso não dá dinheiro». A maior parte do pessoal que está agora a fazer hip-hop em Portugal sabe que não dá para fazer disto profissão nem tirar lucro, por isso é pessoal que gosta mesmo de hip-hop. A maior parte, é claro, também há intrusos. Se um dia isto se tornar profissão, imagina quantos é que vão aparecer só para fazer guita, nem têm amor à arte. O pessoal de agora é mesmo do struggle, vai à luta.
- No estrangeiro já há verdadeiros mercados estabelecidos com dezenas de intrusos.
Sam The Kid - Iá, é verdade, mas estou aberto a tudo. Posso ouvir tudo, não compro é tudo (risos). Ouço na boa. Só compro aquilo que acho mesmo criativo, cenas que me inspirem.
- Como por exemplo?
Sam The Kid - Não te sei dizer nomes. Ouço todos os tipos de hip-hop, aquele mais pesado, o mais consciente, instrumentais. Ouço muita música soul.
- Uma grande influência é sem dúvida Chelas.
Sam The Kid - A dica toda é o redor, o redor é que influencia um gajo. Se morasse noutro sítio, se calhar não fazia hip-hop. É aquela ideia básica, absorver o que está à nossa volta. E o gajo que foi o meu «padrinho» era de Chelas, ele é que me começou a mostrar o verdadeiro rap. Não sei o que é que foi, mas fui aprofundando cada vez mais os conhecimentos, até que depois eu já sabia mais que ele. A fazer hip-hop, estou para aí desde 96. Batidas mesmo podres. Toda a gente quando começa não sabe bem o que é que anda a fazer. O importante é continuar, acreditar nas cenas.
- Voltando ao hip-hop nacional, e à ideia de evolução, o que é que mudou desde os tempos do «Entre(tanto)»?
Sam The Kid - É uma cena que já está muito mais evoluída, mas ainda tem muito para caminhar. O «Entre(tanto)», uma cena independente que pus à venda na Kingsize [loja de discos em Lisboa], fez com que bué de putos vissem que era possível gravares um CD sem ser com uma editora. A missão também era essa. Depois apareceram bué de CDs gravados à toa, «olha aqui o meu CD, olha aqui o meu CD» (risos). Isso aconteceu tudo com o CD-R. Mas a qualidade de som do «Entre(tanto)» era má, tudo gravado em casa, e mesmo o «Sobre(tudo)» podia ser bem melhor. O Chullage [autor do álbum «Rapresálias (Sangue, Lágrimas, Suor)»] é que subiu agora a fasquia, no sentido de «tivemos tempo para estar em casa, agora vamos para o estúdio». Tipo «Ok, pessoal, agora vamos levar isto um bocadinho mais a sério». Na Alemanha, em França, já estiveram na mesma situação que nós, mas eles têm uma história muito mais comprida que a nossa. Eles já andam no hip-hop à muitos anos.
- E achas que o hip-hop nacional vai conseguir sair do gueto comercial de hoje em dia?
Sam The Kid - Acho que sim. Era preciso que um gajo qualquer aparecesse, tivesse um bocado de sorte e conseguisse gravar uma cena que vendesse mesmo bem. Mas isso também ia estragar muita coisa, porque o gajo que fizesse isso também ia ser estigado pelos gajos todos do hip-hop, tipo «aquele gajo já está lá em cima». É sempre a mesma merda. O hip-hop é um bocado assim. Invejas e não sei o quê. Mesmo assim, já se vêem muitos mais putos aí a curtir este som. Também há isso, é que o hip-hop é música mais para jovens, que não têm poder monetário. O pessoal torna-se cota e deixa de curtir. Um gajo a fazer hip-hop tem de tentar surpreender, tás a ver? Tipo ouvir uma dica num CD e pensar «deixa-me lá rebobinar para ouvir outra vez». Fazer as cenas com coração.
- Estamos no bom caminho?
Sam The Kid - Apesar de tudo sim, agora já não é aquela dica de «milagre! Saíu uma cena nova». Já vão saindo. Vai chegar a um ponto onde vai haver verdadeira possibilidade de escolha. Tipo «esta semana saíram 3, qual é que vou escolher?». No futuro, vai haver uma separação entre o bom hip-hop e o mau, quando houver mais cenas. Agora ainda há muita merda. Há muitos putos iludidos, põem na capa pitbulls e guns e depois vais ouvir os sons deles e … não sei. Eu gosto de ouvir numa perspectiva Zé Cabra, para me rir. O mais importante no hip-hop é fazer as cenas com o coração, usar a voz para surpreender.
Por João Dias Rosas para o "Blitz"
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