NBC: Só rima com Mc...
Há dez anos começou como filho menor de um Deus. Foi aperfeiçoando a técnica, o uso das palavras e o seu sentido. O português é a língua usada agora e para sempre pois afirma que, para ele, não faz sentido ser de outra forma. Tornou-se adulto e resolveu fazer a sua “cena”. “Afro-Disíaco” é o álbum de estreia de NBC onde se misturam influências de vários géneros ou não fosse ele uma pessoa que não esquece as raízes. A rádio foi o seu ponto de contacto com o hip-hop e o seu gosto musical diverso levou-o a adquirir um grande número de influências mais ou menos perceptíveis no seu trabalho. Não se considera um simples Mc, pretende ser mais...um poeta. Poeta da nova geração, atento e dedicado. O divergências foi encontrar um Mc de ideias próprias que, através da sua música, tenta transmitir ideais. O hip-hop não pode ser ignorado. É a voz de uma geração e o reflexo de um estado de espírito.
- Como é que surgiu a tua paixão pelo hip-hop?
NBC - Surgiu à mais de dez anos e essas coisas, no fundo, acontecem um bocado instintivamente. Ouvi hip-hop pela primeira vez na rádio, em 89, e a partir daí as coisas começaram a surgir. Há dez anos atrás foi quando comecei como banda com Filhos de Um Deus Menor. Foi um bocado por instinto, aquilo tocou-me e comecei a fazer.
- Disseste que os órgãos de comunicação social , mais a rádio, te influenciaram. Achas que com a chegada da MTV a Portugal houve uma maior abertura do nosso país para o hip-hop?
NBC - Falando por mim, vou-te dizer que não. Eu, como te disse, comecei a ouvir num programa de rádio quando nem se falava da MTV em Portugal e, nessa altura, as coisas chegavam-te de uma forma muito mais crua. A MTV tem vindo a mostrar mas é uma facção muito mais comercial do hip-hop, para um público mais vasto mas não quer dizer que seja o que de melhor se faz no hip-hop.
- Como é que te caracterizas como Mc?
NBC - Eu não sou Mc, eu sou um poeta, escrevo aquilo que sinto e passo através das melodias dadas pelos produtores.
- Isso quer dizer que tu tens uma letra mas só passa a ser música depois do trabalho do produtor?
NBC - A letra só existe depois de existir a música, só assim é que pode haver uma ligação perfeita das duas coisas.
- O teu álbum foi produzido pelo Sam The Kid e pelo Bomberjack, dois estilos diferentes que fazem com que seja um álbum de contrastes. Tens bastantes influências de R’n’b, soul...Isso por influência tua ou dos produtores?
NBC - Por influência minha. Eu é que dou a indicação aos produtores e tem tudo muito a ver com as minhas influências. As minhas raízes são muito fortes em relação a isso. É uma música muito baseada no soul a procurar os inícios do hip-hop. Eu vou buscar as minhas influências musicais à raiz.
- “Afro-Disíaco” porquê?
NBC - Pela junção das duas palavras. “Afro”, tem a ver comigo e “disíaco” é um estimulante para quem não tem direcção. A minha música tenta tirar as pessoas de um fosso que existe e transportá-las para uma cena dimensional completamente diferente. É como se conseguisse fazer com que as pessoas que estão a assistir aos meus concertos entrassem na minha cabeça e sentissem aquilo que eu sinto na altura.
- Achas as tuas músicas interventivas?
NBC - Há que saber dizer as coisas. O meu texto pode ser bastante tocante se ouvires com atenção, nas entrelinhas tem lá muita matéria só que não vale a pena tratar isso de uma forma ofensiva porque o objectivo já não é esse. Neste momento é criar música, passar a nossa mensagem mas de uma forma subliminar, uma coisa calma.
- Como é que achas que as pessoas estão a reagir ao teu trabalho?
NBC - Estão a reagir bem, sinto que pessoas de faixas sociais diferentes, de diferentes idades e que nada tem a ver com hip-hop, gostam e isso agrada-me. É também a esse público que eu quero chegar. Não só o público que já consome hip-hop mas mostrar a outras pessoas que esta música tem a sua arte.
- Como é que foi trabalhar com o Bomberjack e com o Sam The Kid?
NBC - Foi simples. E, se calhar foi tão simples porque eu já os conheço à dez anos. É tudo muito normal, as coisas vão surgindo dia a dia. É um processo normal porque somos amigos, se não fossemos tornava-se mais complicado mas é necessário que haja mais tentáculos, mais gente a fazer produção para podermos ver e ouvir mais coisas diferentes.
- A capa do disco, é uma foto de família?
NBC - É! Sou eu e os meus irmãos, isto porque, o que tento transmitir com este álbum é, no fundo, não esquecer as raízes. Fazer chegar ás pessoas a minha mensagem, aquilo que eu sou como pessoa (esquecendo a cena do Mc) e não esquecer as minhas raízes. A partir do momento em que tens um corte radical com aquilo que tu és para trás, passas a ser uma pessoa completamente diferente e perdes a tua identidade.
- Uma coisa que me chamou a atenção foi o facto de tu cantares mais do que aquilo que é habitual no hip-hop nacional...
NBC - Exactamente! É fugir à regra e não só, é fazer aquilo que muitos querem e que tem medo de fazer. É, também, fugir um pouco ao elitismo que existe no hip-hop português.
- E esse elitismo existe?
NBC - Existe com certeza. Há um elitismo no hip-hop que se prende com, vá lá, os dez mandamentos e que os Mc’s tem por vezes medo de quebrar. O sell out só existe quando fazes alguma coisa de uma forma não sentida. Tudo o que é feito com sentimento e que, quando estás em cima do palco o consigas demonstrar, nunca é sell out, é apenas a tua manifestação através da música
- Como é que tens estado a ver o crescimento do hip-hop em Portugal?
NBC - Eu acho que é o processo natural das coisas. É um processo bastante moroso porque não há bases.
- Achas que o hip-hop é tratado pelas editoras e entidades comerciais como música para miúdos, feita por miúdos?
NBC - Isso continua a ser. Enquanto não se quebrarem algumas barreiras isso vai continuar a acontecer.
- Pensas que exportar o teu trabalho para os PALOP era uma boa aposta e podias ter lá um bom público?
NBC - Qualquer público é um público bom, infelizmente não conseguimos chegar a África não sei porquê. Eu gostava até de dar lá concertos mas não sei porque é que não se pode lá chegar. Precisamos de meios. Se mandarmos uma cópia do nosso trabalho para Angola, no dia a seguir tens 5000 cópias mas é tudo pirata, não vale a pena as coisas acontecerem assim. Temos de tentar contornar as coisas e fazer o nosso trabalho chegar aos sítios mas pela via correcta.
Por Artur Silva para www.divergencias.com
|