Cantar Positivo
Em estreia com «Acredites Ou Não», o colectivo hip hop nacional Mundo Complexo traz uma linguagem muito própria, mais melodiosa e próxima do formato canção do que nos habituámos a associar a uma música fortemente rítmica. Empenhados em fazer passar uma mensagem positiva, chegam para ajudar a solidificar o actual momento de efervescência do hip hop local. Iniciados aos soluços em 98/99, foi só no ano de 2000 que a formação dos Mundo Complexo estabilizou e descansou com a entrada do baixista Hélder, responsável pelo engordar da música concebida pelo quinteto, graças a um baixo que enche quase todo o espectro sonoro com um fenomenal «groove». No mesmo ano participaram com dois temas na colectânea «Hiphoportuga 2000» - «Vivo Desesperado» aparece numa nova versão em «Acredites Ou Não» -, altura em que percebem que o que fazem «é mesmo a sério e já não se pode recuar». Desde então até ao momento actual, um dos factos que mais orgulho instala em cada um dos elementos do grupo – Hélder, DJ Kwan e os MCs Tranquilo, Tony e Ridículo (igualmente produtor do álbum) – e que mais notoriedade lhes conferiu, além da presença na colectânea «Pop Up Songs», foi terem pisado o palco do Coliseu dos Recreios, em Lisboa, escassas horas antes dos De La Soul. Para DJ Kwan, «foi mais uma etapa de um sonho realizado. Os De La Soul talvez sejam a minha banda de hip hop preferida. No entendimento da mensagem, provavelmente terá sido o nosso concerto mais conseguido, até porque estava muito agente». Tranquilo realça «a oportunidade de aprender um pouco mais sobre como são os espectáculos lá fora. Finalmente veio cá uma banda dar um concerto como deve ser. E para nós foi uma emoção muito forte».
Ambos reconhecem a extrema importância destes eventos maiores, até porque, como afirma DJ Kwan a título de exemplo, «a cena hip hop francesa ganhou a sua identidade e rapidamente se afastou dos americanos também porque eles passaram por lá muitas vezes e deram exposição ao hip hop». Mas, naturalmente, é opinião dos Mundo Complexo que se não houver bandas estrangeiras a tentar agitar a cena local, cabe a cada músico português «fazer as coisas andarem para a frente».
- Os De La Soul foram umas das referências fulcrais quando começaram a fazer hip hop?
Tranquilo – O hip hop parte de cada um: do estilo de vida que leva, das opções que toma. E reunimo-nos mais porque éramos um grupo de amigos. Se calhar até tínhamos alguma referência auditiva dos De La Soul a nível musical, mas começámos a querer construir o nosso próprio estilo de música, na nossa língua. Hoje estamos um grupo mais coeso e sólido, e estamos a conseguir construir o que queríamos – pôr alguma diferença nas coisas que já são feitas em Portugal, juntando o baixo.
Kwan – Às vezes penso qual será a banda a que nos assemelhamos mais e não encontro ninguém. Não digo que seja bom ou mau, melhor ou pior, mas acho que temos um som diferente. Até em termos de construção a máquina é outra e os instrumentais vão sair de maneira diferente, são três a cantar com um «background» de outros tipos de música, crescemos a ouvir uma série de coisas que não passavam pelo hip hop. A transição fez-se normalmente, porque talvez tenhamos recebido mais estímulos da cultura hip hop. Exactamente porque é mais que um género, é uma cultura.
Tranquilo – Estamos sempre a fazer experiências e o hip hop pode ser feito nos mais variados estilos, pode-se compor das mais variadas maneiras. Isso é que tem graça: experimentar, inovar e tentar andar para a frente. Aos poucos tentámos pôr mais melodias, porque achámos que era muito importante, daí os refrões serem todos mais melódicos. Estas diferenças são boas, dão mais ritmo e melodia às músicas e permitem-nos sair um pouco do meio hip hop, porque queremos fazer música para toda a gente e não exclusivamente para as pessoas que gostam de hip hop.
Kwan – É engraçado porque há muitos refrões que, se puseres guitarras por trás, poderiam ser perfeitamente refrões de músicas punk-rock, hardcore ou de outro estilo qualquer.
- Por via dessa interiorização de melodias, mesmo não tendo sido uma coisa muito consciente e premeditada, tiveram consciência de que estavam a trabalhar as vozes de uma forma diferente do que é habitual no hip hop português?
Tranquilo – Com eles aprendi a puxar mais pela voz e ir buscar melodias. O rap pode ser muito falado, pode ser mais rápido ou mais lento, mas o facto de impor melodias já invoca o canto, o que às vezes não é fácil porque não há muito tempo de treino e não há um professor de música que dê as notas certas para conseguires colocar a voz nos sítios certos.
Kwan – Não é a «Operação Triunfo» (risos). No fundo, é tentar diversificar. Vai chegar uma altura em que vão aparecer aquelas bandas mais «jiggy», mais ligadas aos telediscos com as mulheres e o dinheiro e vão aparecer outras mais melódicas. Uma delas somos nós. Não vamos dizer que somos «os Roots cá do sítio». Por acaso, até é uma banda que poderia ser associada, pela formação e pela maneira de fazer as coisas, mas não sou fã a ponto de ter todos os discos, como tenho do Ben Harper, da Dave Matthews Band, dos Jamiroquai ou dos Bad Religion. E depois temos as outras bandas que também são necessárias. Nisso e muita coisa concordo com o Mos Def: é preciso música para abanar o rabo, mais consciente, mais activista, outra só para ouvir e descontrair.
- Há um dado muito curioso no vosso comunicado de imprensa: diz-se que «gritam amor quando toda a gente anda a gritar de raiva». Há uma preocupação vossa de abordar temas mais positivos que o habitual?
Tranquilo – Tem a ver com o tipo de pessoas que somos e o tipo de coisas em que pensamos. Se fosse uma pessoa que pensasse mal de tudo e estivesse chateado com tudo, se calhar tinha uma forma de cantar e uma visão muito mais agressivas. Sempre fui uma pessoa muito ligada à natureza. Temos todos uma vida minimamente alegre, nas coisas que fizemos. Temos momentos mais tristes e mais felizes, mas descrevemos aquilo que se passa – por muito que esteja mal, não goste dos impostos que pago, odeie o que tenho que pagar todos os meses de segurança social, ache que não devíamos viver neste sistema. Mas tenho uma casa para mim, consigo arranjar dinheiro para comer, tenho uma namorada, gosto dela, vou à praia, apanho sol, estou com os amigos, converso, bebo uma cerveja, fumo um charro. Estou a viver a vida. Não posso andar desesperado a dizer que tudo é horrível, porque não é.
Kwan – É talvez o contrário de alguns projectos de hip hop, em que em vez de se dizer «eu sou muito bom, faço isto e aquilo», eles cantam que são seres humanos e falham. Fazem uma espécie de auto-terapia. Não entramos naquela coisa da competição, própria do hip-hop.
- E acham que o vosso disco aparece precisamente no momento em que o hip-hop português chegou à idade adulta, dispensando-se qualquer tipo de paternalismos desajustados?
Tranquilo – As pessoas começam a perceber que é uma oportunidade de mostrar o que se faz em Portugal e percebem que já se fazem umas coisas engraçadas na nossa língua. Hoje em dia, quando se fala de hip-hop, já não é uma coisa desconhecida, já não são «aqueles miúdos que escrevem “Joaquim” na parede». Para nós é um modo de vida.
Kwan – Hoje o mercado já está preparado. Se virmos bem, os estímulos exteriores que aparecem na década de 80 desapareceram rapidamente e foi com o «Rapública», uma coisa nacional, que se ouviu falar de hip hop em Portugal. Se fosse por essa quantidade de estímulos o hip hop já vendia milhões de discos, o R&B era só festas, porque é o que se vê na televisão. As coisas vão entrando mais devagar, mas até agora o hip hop está a atravessar a sua fase mais forte.
Por Gonçalo Frota para o "Blitz"
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