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H2T - HipHop TugaMind da Gap (in "Forum Estudante" de 08/2002)

Sempre Suspeitos

  Sem Cerimónias lá fomos à procura da verdade. Os Mind da Gap, uma das mais importantes bandas de hip hop portuguesas, estiveram à conversa com a Forum Estudante. Pelos vistos, eles continuam os suspeitos do costume. Os Mind da Gap vieram expressamente do Porto para dois dias de promoção do novo álbum Suspeitos do Costume. O local de encontro foi no Largo do Adamastor, perto do elevador da Bica, em Lisboa, de onde se pode ter uma das vistas mais deslumbrantes do rio Tejo. Sob um sol intenso, sentámo-nos na pequena esplanada do café que ali existe. Esta deveria ser a milionésima primeira entrevista que davam naquele dia. E a tarde ainda mal tinha começado. Depois de pedir umas águas, a conversa começou.

  - O Porto está a ficar cada vez mais bonito, não está?
  
Serial - É verdade. Mas também está cheio de obras…
  
Presto - Continuam a abrir buracos em toda a parte!

  - É para o bem da cidade e do Metro do Porto…
  Serial - É verdade. Mas aquilo vai ser mais um Eléctrico do que outra coisa (risos).

  - Esse espírito crítico reflecte-se, também, nas músicas que fazem?
  Presto - A gente tem outros temas que que falam de coisas mais softs. No último álbum, um bom exemplo disso é o single que já foi editado, “Bazamos ou Ficamos”, que fala de amor. Também “Socializar por aí” não tem qualquer carácter de crítica. Apesar de haver muitas coisas que nos põe descontentes, reconhecemos as coisas boas da vida.

  - Mas, nesse tema de amor, a ideia é criticar o sexo de deitar fora, sem sentimentos. Não haverá sempre algum descontentamento no seio das letras que constroem?
  Serial - Nem por isso. Nós descrevemos aquilo que vemos e aquilo que sentimos. A nossa onda é de escrever aquilo que gostamos e não nos preocupamos com os outros…
  Ace - Yah, é isso. Trabalhamos para o nosso umbigo. Não faz sentido preocuparmo-nos com os outros quando estamos a criar músicas. O importante é que façamos qualquer coisa que gostemos. Se há pessoas que vibram com isso, ainda bem. Se não houver, não nos preocupa.

  - Vocês sabem que são importantes na cultura dos jovens, hoje em dia. Toda a onda hip hop influencia os gostos, a maneira de vestir, como o pessoal se comporta na escola, em casa e com os amigos. O que pensam sobre isso?
  Serial - Temos pena disso. Não obrigamos ninguém a vestir-se de uma determinada maneira. Cada um faz o que quer.
  Presto - É preciso ver que toda esta moda das calças largas, das marcas é muito complexa. São estereótipos que os jovens criam. Se repararmos, são, sobretudo, eles que aderem a este tipo de manias, que seguem determinadas maneiras de vestir. Só que isso acontece porque eles estão a passar por uma fase de mudança e de rebeldia, que é normal.
  Serial - Tem a ver com uma identidade que não fomos nós que criámos.

  - Mas são sempre uma parte importante na construção dessa cultura…
  Ace - (hesita) É verdade, mas não nos preocupamos com isso. E como todas as modas elas são passageiras. Isto é uma coisa recente que surgiu a partir dos grupos mais famosos como Eminem. Só que o hip hop já existe há muito tempo. Em 1973 haviam grupos como os House of Pain que criaram toda uma forma de pensar que está, hoje, um bocado alterada.
  Presto - É que o hip hop não é só um estilo de música. Ele engloba o rap, que é a forma como o discurso musical é dito; os graffitis, que são a expressão escrita desse estilo de música; o break dance, a maneira como se dança; e o DJ, que é a personagem que engloba o espírito do hip hop e que o criou ao misturar músicas. Hoje, esta figura está um bocado modificada com o techno e com as novas tecnologias de mistura. Mas foi o DJ que deu lugar ao hip hop.

  - E vocês surgiram como? O que os fez juntar?
  Serial - Foi o nosso gosto comum por este estilo de música. O Ace e o Presto já se conheciam, mas acabámos, mais tarde, por nos juntar e criar uma banda que, no início, se chamou Da Wreckaz. O resto já é história.

  - Vocês são uma das bandas de hip hop mais importantes no nosso país. E defendem o vosso estilo com unhas e dentes. É essa a razão de criarem um grupo ibérico que pretende juntar os melhores da vossa cena?
  Ace - É verdade. A “Coalizão Ibérica” foi um projecto que surgiu quando conhecemos os La Familia, em Espanha, que consideramos muito bons.

  - Qual é a ideia dessa união?
  Ace - Achamos que constituímos as melhores bandas do género na Península Ibérica. O objectivo é trocar ideias, impressões e trabalharmos em conjunto. No fundo, aprendermos uns com os outros.
  Presto - O que nos une é uma ideologia comum, pela qual trabalhamos e acreditamos.

  - Não será um bocado pretensiosismo julgarem que são as melhores bandas? Não haverá outras do meio, ou mesmo projectos desconhecidos por aí, que pudessem fazer parte dessa “coaligação”?
  Ace - Não estamos, de facto, à procura de outros grupos. A ideia da “Coaligação Ibérica” não é de juntar cada vez mais pessoal, mas a de trabalhar para um gosto e uma cultura em que acreditamos. Se surgirem, entretanto, pessoas que correspondam a este critério, tudo bem. Senão, não importa.

  - Vocês são do Porto…
  Ace - E temos muito orgulho!

  - Criaram uma música dedicada a esta cidade, mas porque não a Lisboa? Defendem duas culturas diferentes entre o Norte e o Sul?
  Ace - Yah, Lisboa e o Porto são cidades completamente diferentes. E já existem demasiadas canções dedicadas à capital. A invicta também tem direito a música só para ela!

  - O último álbum chama-se “A Verdade”. Do que é que andam à procura?
  Ace - Da felicidade. Pelo menos, da minha parte é isso.

  - Este já é o vosso terceiro CD. Que evoluções registaram desde o “Sem Cerimónias”?
  Serial - A todos os níveis. Quer na qualidade, nas letras, na sonoridade. Mas continuamos os mesmos.
  Presto - Não mudámos nada.
  
Ace - Isso seria, aliás, incoerente. Nós não fazemos música para agradar a alguém. Temos as nossas ideias, acreditamos no nosso trabalho e queremos ser vistos desta maneira.

  Por António Dias para a revista "Forum Estudante"

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