Toda a gente sabe kem são!
Eles são os “Suspeitos do Costume”. São três elementos e um dos mais importantes colectivos de hip hop nacional. Eles são, simplesmente, Mind da Gap. Começaram a carreira discográfica em 1995 com um EP pela Nortesul , seguiram caminho com o álbum de estreia “Sem Cerimónias”, um disco que confirma a banda como uma das grandes esperanças do hip hop nacional. Dois anos depois chega “A Verdade”, um grande disco que vem subir a fasquia deste género musical no país. Com este disco dão centenas de concertos e abrem a porta a novos projectos do género. Com “Suspeitos do Costume” elevam a fasquia e tornam cada vez mais abrangente o hip hop. Já podem considerar-se como uma banda de culto, se bem que renunciem ao estrelato e continuem a viver segundo os seus ideais.
- Este é o vosso terceiro álbum. Como é que o caracterizam?
Ace - Acho que este trabalho é o culminar daquilo que nós sabemos, não só em relação à maneira como fazemos a música ou escrevemos as letras mas, em relação a uma série de coisas das quais nós já somos sobejamente conhecidos por falarmos nelas. Assim como o “A Verdade” foi na altura o disco que nos era possível fazer, este também o é. Foi, provavelmente, aquele que nos demorou mais tempo a fazer, a ser pré-produzido, a limar os detalhes. É o amadurecer dos Mind da Gap.
- “Suspeitos do Costume” mostra uns Mind da Gap mais coesos e com uma sonoridade mais rica. Foi um processo de evolução natural ou sentiram a necessidade de, neste disco, mostrar outras coisas?
Ace - Acho que foi um processo natural. A palavra que mais marca este disco é a “natural” porque, quando fazemos música, não pensamos em nada, não estabelecemos objectivos nenhuns. Isso marca a nossa diferença.
Parece-me ridículo pensar em objectivos quando se faz este tipo de música. O hip hop surgiu em 73 como um suposto acabar de racismo e de diferenças sociais e dogmas estabelecidos na sociedade. De repente, estar a criar princípios quando se está a trabalhar nesta área não me parece bem. Nós não estabelecemos nada à partida e, de facto, as coisas vão acontecendo com naturalidade.
- No hip hop, em geral, as letras tratam de problemas sociais, diferenças raciais, maus tratos...neste disco, para além da língua afiada em muitas direcções, os Mind da Gap revelam uma faceta mais optimista.
Conta-nos o que querem transmitir com as vossas letras.
Ace - Nós nos outros álbuns pecamos um pouco por falta de informação. A nossa maneira de fazer música e escrever letras nunca foi de querer dizer às pessoas o que está mal e o que elas tem de fazer. A nós, isso sempre nos soou a conversa de falso moralismo. Sempre pecamos por deixar a mensagem incompleta. Agora, tomámos consciência que as coisas já não são como quando começamos, há dez anos atrás.
- Existe aqui uma grande mistura de ambientes musicais. Temos temas que são fácilmente detectados como hip hop, outros vão buscar influências ao soul, também ao funk e ao disco-sound da década de 70. Como surge esta convergência de influências?
Ace - Tem um pouco a ver com os nossos gostos pessoais. É um pouco arriscado estar a falar pelo Serial mas acho que, neste disco, a vontade de experimentar coisas novas não foi tão grande. “A Verdade” é, em termos sonoros, um trabalho mais experimental e mais arriscado. Neste disco as coisas convergiram, quase sempre, no mesmo sentido: fazer músicas que nos soassem muito bem, independentemente de ser muito agressiva ou de nos pôr bem dispostos. Mais uma vez foi natural. Essa naturalidade parte dos discos que nós ouvimos que, quer se queira ou não, acabam por influenciar.
- Com “A Verdade” elevaram o patamar a um nível nunca antes atingido pelo hip hop nacional. Sentiram a pressão na pele ao realizarem este disco?
Ace - Sim! Mas foi uma pressão imposta por nós. Temos vindo a subir um pouco a fasquia a nós mesmos.
- “Bazamos ou Ficamos” é o 1º single extraído deste disco. É um tema bastante radiofónico e comercial com um refrão que entra rapidamente no ouvido. Sentiram a necessidade de explorar a parte mais comercial e vendável para poderem chegar mais facilmente às rádios e às pessoas que não consomem, necessariamente, hip hop?
Ace - Não! Sou do contra! Essa música nasceu da nossa vontade de fazer música à Mind da Gap para nós dançarmos quando tivermos vontade. Quem ouvir a música com atenção vai perceber que de comercial tem muito pouco. Chega a ser mesmo hardcore. No entanto, tem um refrão que eu percebo que pode ser chamado de radiofónico e, não tenho problema nenhum com esse aspecto. A música é nossa, fomos nós que a fizemos. Pessoalmente, se tivesse de escolher um single, não ia escolher esse tema. Acho que não passa, na totalidade, aquilo que os Mind da Gap são. Eu escolhia o “P.O.L.I.T.I.C.O.S.” ou o “Pura Riqueza”.
- Como estás a sentir a aceitação das pessoas a este trabalho?
Ace - Não estou a sentir! Ultimamente tenho feito um regime de vida um pouco ao contrário das pessoas normais portanto, não tenho tido reflexo nenhum. As pessoas que tem dito alguma coisa do trabalho são amigos...e esses dizem bem.
Tivemos algum azar por não poder fazer o concerto do Hard Club. Ainda temos vontade de o fazer, vamos ver como é que a situação se resolve.
- Já vos passou pela cabeça a edição de um disco ao vivo?
Ace - Já! Várias vezes, até já passou pela cabeça das pessoas da editora, o que não é nada mau. Acho que isso a acontecer tinha de ter músicas deste álbum portanto, só mais tarde se verá.
- Uma das palavras mais usadas no disco é “moço”. O que é que “moço” quer transmitir?
Ace - “Moço” é Gaia. Eu apanhei o “moço” em Gaia e depois transmite-se para toda a gente. É como a “gera” e “kem é ke roka”. Tem piada perceberes que estas expressões são nossas e depois começam a passar e eu, pessoalmente, gosto de observar esses pequenos fenómenos sociais.
- Os Mind da Gap são um colectivo que já tem alguns seguidores na vizinha Espanha. Acham que com este trabalho vão conquistar de vez “nuestros hermanos”?
Ace - Acho que temos hipóteses. Já o podíamos ter tido com “A Verdade”. A minha opinião em relação ao hip hop espanhol é que é um mercado muito proteccionista e uma banda estrangeira com identidade própria é difícil de singrar. Por outro lado, temos a dificuldade da língua, os espanhóis não percebem tão bem o português como nós o espanhol.
A nossa experiência com a distribuidora espanhola não foi muito positiva, não sabemos quantos discos vendemos, não sabemos onde está o dinheiro... e isso torna um pouco difícil as coisas. O importante é que este disco viva bem e esteja bem de saúde em Portugal e o querer sair para aqui ou ali não é uma ambição muito marcada. Queremos, isso sim, tentar ir dar alguns concertos fora do país, junto das comunidades portuguesas e, para isso, a nossa agência já está a encetar alguns contactos.
- São considerados como uns dos responsáveis pelo “boom” do hip hop nacional. Não só pelos discos e concertos mas, também, pela visibilidade que deram a bandas como, por exemplo, Dealema. Como sentes a vossa posição dentro do movimento nacional?
Ace - Acho que, neste momento, estamos no limbo. Porque os Mind da Gap cresceram muito, numa certa altura da nossa história crescemos bem mais que o próprio movimento e, se por algumas pessoas isso é bem visto, por outras nem tanto. É claro que andamos nisto porque gostamos e o que as outras pessoas dizem, passa-nos ao lado. Continuamos a acreditar naquilo que fazemos. Em relação ao movimento em si, acho que nesta altura já temos um mercado, já há pessoas que compram discos de hip hop, já há mais grupos. Agora é altura de levar isto para a frente.
- Em “Suspeitos do Costume” tiveram a colaboração de vários mc’s. Porquê?
Ace - Pelas mesmas razões de sempre. São pessoas com valor e que raramente tem oportunidade de estar no sítio em que deviam estar. Esse tem sido desde sempre o nosso critério na escolha das pessoas que convidamos para os discos.
- Em relação a concertos, como estão a planear a época veraneia que aí se aproxima?
Ace - O que estamos a planear é dar o maior número de concertos possível. Adoramos tocar ao vivo. O que se passa é que a edição do disco atrasou e saiu depois de toda a gente ter os concertos agendados para os festivais de verão e este ano é um pouco complicado devido aos cortes financeiros nas Câmaras e Juntas de Freguesia. A nossa vontade continua a ser a de tocar muito mas, para já, só temos quatro ou cinco concertos confirmados, entre os quais Vilar de Mouros, as Noites Ritual, um concerto em Penafiel e pouco mais.
- Gostavas de dar algum conselho a quem está a começar no mundo da música?
Ace - Não posso dizer que este é o melhor conselho que posso dar às pessoas pois, elas podem correr o risco de passar fome. Mas o conselho mais sincero que dou é o de serem verdadeiras e fazerem aquilo em que acreditam. É o que eu tenho tentado fazer.
Por Artur Silva para www.divergencias.com
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