A Verdade contra o sistema
Os Mind da Gap acabam de lançar o seu terceiro disco, «A Verdade», um CD duplo (enquanto não esgotar a primeira edição…) onde se reafirmam como um dos mais consistentes projectos do hip-hop português, fundamentalistas quanto à pureza e as raízes do género. Comum a todas as letras, como sempre, um inimigo sem nome mas com uma existência indiscutível: o que manda e explora. Faz-se hip-hop em Portugal, mas ainda não há um movimento inerente, na verdadeira acepção do termo. Quem o afirma são os Mind da Gap, cultores do género no formato puro e duro, dentro do qual serão porventura o único grupo português com editora, discos e actuações regulares, e que volta à carga com «A Verdade», mais um manifesto de militância e intenções. Por vezes bastante submerso na densidade e no excesso verbal que ocupa a maior parte da massa sonora, sobressai o notável trabalho do DJ e produtor Serial, com um gosto apurado e pleno de domínio técnico. Os homens das palavras são Ace e Presto. Em seguida, todos tiram as papas da língua.
- No hip-hop feito nos EUA há, regra geral, dois subgéneros quase opostos: o que tem preocupações de ordem social e outro mais humorístico. As ruas do Porto não têm o peso dos guetos americanos, mas o que parece é que as letras dos Mind da Gap são muito umbilicais e centradas no vosso próprio dia-a-dia como grupo, com auto-referências e recados dirigidos a quem vos rodeia. Não sentem a necessidade de reflectir sobre a realidade socio-política circundante de uma forma mais generalizada?
Ace – Não acho. As nossas preocupações, quando falamos em coisas mais abrangentes, não são tanto da esfera política, não são acontecimentos localizados. No outro dia, a falar com um amigo, ele disse-me que este disco estava, todo ele, completamente anti-sistema. Acho que essa é efectivamente a ideia geral de todo o disco, apesar disso não ter sido propositado. Mas não temos a preocupação de falar de questões específicas (a guerra da Bósnia, por exemplo), porque é algo que toda a gente já sabe e com que é bombardeada todos os dias, os media todos fazem dinheiro à custa disso… Se calhar, interessava-nos mais fazer uma letra sobre quem é que decidiu a intervenção na Bósnia.
Presto – Esses discos americanos de que falaste também são umbilicais para eles, porque falam da sua realidade, que é o que eles vivem lá, portanto acho natural que falemos da nossa.
- Por um lado, fazem muito o apelo mais ou menos utópico do género «Juntem-se a nós, sejam como nós» mas, por outro, também criticam um certo oportunismo existente na «tribo», e quem está a tirar proveito, e a ser oportunista… Isso não é contraditório?
Ace – Não, porque quando dizemos às pessoas para se juntarem a nós, sabemos com quem estamos a falar, apesar de estarmos a dirigir-nos a todos os potenciais compradores do disco.
Presto – É um bocado querermos chamar as pessoas a nós e ao que achamos que deve ser o hip-hop, mas mostrar logo o que é que achamos que está mal e não deve acontecer, para não ser a tal coisa da moda, oportunista.
- Vocês mandam muitas «bocas». Podem especificar melhor a quem é que se dirigem?
Ace – Somos muito rebeldes e as nossas «bocas» vão sempre para a mesma pessoa, ou melhor, para a mesma entidade, mas em sítios diferentes. Mas é sempre quem manda e abusa do poder, quem manda e explora, quem manda e mente, e manipula… Não é localizado, é algo abstracto, que toda a gente sabe que existe, porque alguém manda neste mundo, apesar de ninguém saber quem é.
- O monstro anónimo que é o sistema, digamos.
Ace – Exacto. Portanto, as nossas bocas tanto podem situar-se num plano astronómico, a abranger um sistema enorme, como podem referir-se a um microsistema como o movimento hip-hop.
- Como é que vêem o movimento hip-hop em Portugal e como é que se enquadram nele?
Ace – Ainda não há grupos suficientes de hip-hop em Portugal para uma pessoa «normal» perceber qual é a diferença entre os Da Weasel e os Mind da Gap, o General D e os Black Company, etc. Portanto, vistos desse prisma, somos um grupo como os outros, um grupo de hip-hop com uma editora por trás, com um sistema que está montado para lançar os discos, o que, logo à partida, nos distancia de grupos como os Micro, ou Sound Archive, ou os Dealema, porque temos mais possibilidades de promover um disco, vamos a sítios que eles nunca imaginariam ir… Em relação ao movimento, acho que está a começar agora, porque há mais grupos como nós, que estão a fazer coisas em casa como nunca se fizeram.
- Mas o movimento já dura há uns anos, já havia alguns grupos quando vocês apareceram…
Ace – Mas é o que dizemos no tema «Movimento»: o movimento nunca se moveu, até agora não fez nada, nunca aconteceu nada, nunca se moveu por si próprio mas sim a ser empurrado ou, se quiseres, a ser manipulado como uma marioneta pelas «majors», ou por editoras que estavam à espera de ter altos rendimentos com o hip-hop, o que não aconteceu.
Presto – Porque agora, para além de quem gosta desse tipo de música, há também pessoas com trabalho feito, interessadas em editar, que fazem «mixtapes», e promotores, e organizadores de festas, coisas que há uns anos ninguém fazia.
- Mas houve uma espécie de manifesto, o «Rapública». Na altura, teve algum impacto.
Ace – Mas quando as editoras começaram a ver que, afinal, não dava assim tanto dinheiro como isso, não apostaram em mais nenhum grupo do «Rapública», a não ser nos Black Company.
- Mas, à terceira, conseguir editar um álbum duplo é quase um milagre em Portugal, sobretudo tratando-se de um projecto de hip-hop. Isso traduz um certo empenho da parte da editora.
Ace – E também da nossa parte, porque nós é que fizemos as músicas, e tivemos de os convencer que este álbum tinha de sair assim como está, e não só num CD. É lógico que a editora teve de pagar um CD extra, e reconhecemos esse empenho; mas, à parte esse esforço de pagar mais uns 200 paus por cada segundo CD, o seu empenho é o de uma editora que até agora se tem portado bem connosco no aspecto em que acredita em nós como uma banda capaz de fazer uma carreira.
- Que tipo de hip-hop é que costumam ouvir?
Serial – Normalmente, mais na onda de Nova Iorque do que de Los Angeles.
Ace – Mobb Deep, Gang Starr… Continuam a fazer aquilo que sempre gostámos neles e ainda não nos decepcionaram.
- Que tipo de fontes é que utilizas nos teus samples?
Serial – Tudo o que seja sugestivo e me agrade. Vai desde o funk até à música dos anos 80, passando por discos de orquestras. Logo que soe bem…
Por Rodrigo Afreixo para o "Blitz"
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