Mentes Conscientes
Ascenção do hip hop português confirma-se com novo projecto. Micro, que lançam agora “Microlandeses”, é a descoberta do ano. Os Micro são um trio constituído por Sagas, D-Mars (ambos nas vozes, autores das rimas e produtores) e DJ Assassino (manipulador de pratos e produtor). O trio acaba de gravar mais um disco: “Microlandeses”. Pela amostra, é uma das maiores revelações do ano. Melhor ainda: aquele género estilistico está em progressão aberta no nosso país. Os músicos confessam ao JN que os preconceitos em relação ao hip hop estão a desaparecer. E provam a teoria: “Hip hop não é só facas e pistolas”.
- Num dos refrões deste novo disco referem-se ao vosso passado e cantam que “ninguém nos deu espaço”. Espaço para quê?
D-Mars - Há uns anos existiam uns 10 grupos de hip hop em Portugal. Hoje, se calhar, já são mais de 100. A realidade era diferente. E, nessa altura, como ninguém nos dava espaço, nós criamos o nosso espaço – a Microlândia.
- Encontram alguma explicação para o facto de hoje se ouvir e fazer muito mais hip hop?
D-Mars - Isso é verdade mas ainda está longe daquilo que merece. Aconteceu por várias razões, entre as quais a atenção dada pelos meios de comunicação ou o surgimento dos canais de música na televisão por cabo. E acaba por ser um reflexo daquilo que se passa nas ruas. O próprio movimento está cada vez maior – há gente muito nova a ouvir hip hop e, por outro lado, sinto que os pais desses putos já começam a respeitar mais o hip hop.
- É por isso que uma das primeiras frases que cantam no disco é “Pensas que esta merda é só facas e pistolas”?
D-Mars - Esse é um preconceito como muitos outros. E a forma como fazemos tudo isto acaba por ser uma forma de luta contra esse preconceito específico. Acredito que se algum preconceituoso ouvir o nosso disco acaba por perder os preconceitos. Há muita gente que vê aqueles vídeos da MTV cheios de estereótipos e julga que no hip hop é tudo assim. Para nós o “MC” não significa apenas “Mestre de Cerimónias”, mas também “Mente Consciente”. O “MC”é a voz da cultura. Tal como se ouve nesse tema, depois da frase que refere, ouve-se “you must learn”. E isso reflecte-se a todos os tipos de preconceitos. Ao “se pensas que”, segue-se um “terás que aprender que”.
- Os membros dos Micro já estiveram envolvidos na produção de uma série de workshops em torno da cultura hip-hop. Como foi essa experiência?
D-Mars - O Assassino mostrava e ensinava aos putos algumas técnicas de DJ – o “scratch” e outras cenas. Eu e o Sagas tentávamos explicar algumas regras básicas sobre construção de rimas. Os workshops que correram melhor foram no Alentejo, em Santo André. Correram muito bem e a adesão foi muito positiva. Quem me dera ter frequentado workshops do género há uns anos atrás, quando eu era puto…
Assassino – Sim, há uns anos atrás eu era muito gozado. O pessoal olhava para mim a mexer nos pratos e perguntava “mas o que é que o gajo está para ali a fazer?”.
- E hoje é considerado um dos melhores DJ portugueses. Isso é reflexo de muito trabalho?
Assassino – Comecei muito cedo, há muitos anos. Fui ficando um gajo experiente nas misturas mas depois veio uma certa estagnação. Senti que tinha que existir uma coisa nova. Foi aí que me envolvi nos Micro.
- Pratica diariamente?
Assassino – Sim, pratico todos os dias, em dois pratos da Technics MK 1210. Esses pratos duram uma vida inteira.
- Entretanto, representou Portugal num concurso internacional de DJ em Barcelona…
Assassino – Foi uma experiência interessante. Estávamos dois portugueses a concurso mas o resto – desde concorrentes à organização – eram todos espanhóis. E surgiram por lá umas coisas… como é que eu hei-de dizer… era assim uma espécie de máfia. A mim não me correu mal, mas podia ter corrido melhor. Ao longo de sete minutos tive que demonstrar várias técnicas o mais “clean” possível, o mais musical possível. É muito rápido e instantâneo. Lembro-me que tive que colocar os discos todos fora das capas para estar sempre a sacar e a meter nos pratos sem perder muito tempo. Mas no final só és falado se ficares nos três primeiros. E isso não aconteceu.
- Os Micro acabam de gravar um vídeo-clip. Esperam vê-lo transmitido nos principais canais portugueses?
D-Mars - À excepção do “Sol Música” e da “Sic Radical”, não há mais espaço na televisão portuguesa para os vídeo-clips. E isto não tem só a ver com o hip-hop, mas com muitos outros géneros.
Por Cristiano Pereira para o "Jornal de Notícias"
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