Estranha forma de vida
Mais uma demonstração de peso da vitalidade que hoje atravessa o cenário do hip-hop feito em Portugal, «Microlandeses» assume-se, claramente, como o projecto mais ambicioso até à data dos Micro. D-Mars, Sagas e Assassin explicam o seu nascimento.
- Em que consiste afinal esse espaço que serve de pano de fundo à vossa criação e que designam como Microlândia?
D-Mars - (risos) Rimo-nos porque de cada vez que nos perguntam isso acabamos por dar uma resposta diferente. Isso acontece porque não é um conceito que esteja definido num papel e de cada vez que nos pedem para definirmos o que é, lembramo-nos de mais alguma coisa. A Microlândia é um conceito que nasce logo nos primeiros meses do grupo, já há uns anos atrás, e é uma espécie de mundo imaginário que criámos para nós, um mundo paralelo, mental, que não tem nada a ver com a zona onde vivemos, tem a ver apenas com um lugar imaginário que criámos porque necessitámos do nosso próprio espaço, onde quem dita as regras somos nós. Desde que passou toda aquela loucura do «Rapública», deixou de haver espaços e estruturas que apoiassem as pessoas que faziam hip-hop na altura. A única maneira de avançar era fazermos nós próprios as coisas, e também tem a ver com isso, com criar um espaço nosso dentro do qual fazemos tudo, nós é que ditamos as regras, desde organizar festas a fazer música em casa. Ninguém nos impõe nada, e isso perdura já desde essa altura; durante estes anos todos foi-se desenvolvendo e transformou-se num conceito diferente – já há outras pessoas que fazem parte da Microlândia, pessoas que partilham esse nosso universo e a nossa visão. Agora tornou-se talvez mais visível desde que nos fechámos no estúdio para fazer este álbum, parece que houve um ressurgimento da Microlândia em termos criativos. Este álbum, ao contrário de praticamente tudo o que fizemos antes, foi feito todo dentro do estúdio. A partir do momento em que começámos a gravar, começámos também a fazer os beats para o álbum, a escrever as rimas, a reescrever outras, a pesquisar os sons para os scratchs, a gravar, a misturar, tudo.
- A criação desse universo singular, isolado, corresponde a um espírito de independência que se viram de algum modo forçados a criar numa altura em que o universo hip-hop em Portugal era basicamente ignorado por tudo e todos que nele não estivessem inseridos?
D-Mars - Acho que esse espírito de independência acabou por só ter vantagens para nós.
Assassino - Não, também teve desvantagens…
D-Mars - Sim, sobretudo pelo tempo que levámos a chegar onde estamos agora. Por outro lado, é aquela coisa de sempre – aprendemos com os erros. Dentro da indústria, se calhar temos mais noção e experiência do que é necessário, do que muitos grupos que não tiveram que passar pelo que nós passámos. Temos mais a noção do sacrifício que às vezes é necessário. Muitos artistas pensam que só por fazerem música e estarem numa editora estão isentos de contribuírem com o seu esforço, e depois ainda se queixam que as editoras os exploram, quando na verdade muitos deles nada fazem. Creio que agora percebemos muito melhor como funciona todo o negócio. Ao nível criativo, também nos ajudou muito o facto de mantermos a nossa independência total o tempo todo.
Assassino - Nunca seguimos coisa nenhuma, sempre criámos tudo sem imposições.
Sagas - E tudo continua nesses mesmos parâmetros desde o início, embora obviamente agora num nível muito mais profissional. A editora nunca interfere, a liberdade é toda nossa.
- O facto de terem sobrevivido incólumes nestes seis anos que já conta a vossa carreira é uma boa prova de que a independência é possível?
D-Mars - Sem dúvida. E o facto de termos conseguido gravar este disco para nós é uma conquista enorme. É um álbum com o qual noa sentimos muito satisfeitos, mais do que aconteceu com os outros, se calhar porque antes não tínhamos ainda chegado àquele talento necessário para fazermos o hip-hop que queríamos, ainda não tínhamos aqueles «skills». Neste disco, as coisas chegaram a um pico a nível de criatividade, em termos de beats, de scratches, de escrita, mesmo de toda a parte técnica de mistura das canções, de produção, de masterização. Tenho muito orgulho neste álbum e acho que ele representa mesmo o nosso som.
Assassino - Acho que é muito importante o facto de termos sobrevivido estes anos, porque entretanto houve muitos grupos que começaram e que acabaram, houve pessoal que entrou, há pessoal que já não está, e há pessoal que olha para nós e acha estranho como é que ainda cá estamos passados seis anos. Sobretudo porque se trata de hip-hop…
D-Mars - Sim, sobrevivermos é bom, é muito bom, mas conseguir-mos fazê-lo e ainda termos este disco entre mão agora é óptimo.
Assassino - Isso acontece porque fomos sobrevivendo com a evolução. Há pessoas que estagnam por um ou outro motivo, mas nós tivemos sempre fé no nosso trabalho, apesar de tudo aquilo por que cada um de nós já passou. Já todos passámos por fases muito fodidas na vida, e estares a suportar um grupo nessas condições… É que isto não nos dá dinheiro para vivermos. O que vale é que sempre acreditámos muito naquilo que fazemos.
D-Mars - Todos nós abdicámos de muitas coisas na nossa vida, podíamos ter seguido outros caminhos, mas sempre acreditámos muito no hip-hop, isto é a nossa forma de vida.
- E este álbum, de que tanto se orgulham, como é que começou a ser concebido?
D-Mars - A primeira sessão foi já em Dezembro passado. Foi uma sessão que aconteceu quando estavam cá os ingleses [Rodney P e Braintax], que vieram a uma festa na ZDB, e aproveitámos a estadia deles para entrar em estúdio e gravar os primeiros dois temas. Esse foi o pontapé de saída; depois continuámos sempre a gravar e terminámos no final de Maio. Nunca tínhamos feito isso, ir gravando assim durante bastante tempo, às vezes com intervalos de uma ou duas semanas. Gravámos apenas quando nos estávamos a sentir bem, tivemos essa facilidade porque o estúdio estava à nossa disposição, e isso foi muito importante.
- Houve, portanto, um maior profissionalismo e uma maior seriedade na concepção deste álbum do que em ocasiões anteriores?
Assassino - Sim, mas tinha que haver, é natural, porque, como dizíamos antes, estamos a dar as nossas vidas por isto, e se vamos brincar para o estúdio ou fazer as coisas só por fazer, não nos estamos sequer a respeitar a nós próprios.
D-Mars - Mesmo em termos musicais, começou a haver outras preocupações, já não queremos fazer apenas faixas de hip-hop, queremos mesmo fazer canções, e isso implica alterações na estrutura das músicas e na maneira de fazer as coisas. No «Demo Style» fizemos uma primeira abordagem a esse tipo de escrita, e agora desenvolvêmo-lo muito mais. As nossas influências vão um bocado nesse sentido; queremos fazer músicas sóbrias, directas mas eficazes, e acho que conseguimos isso neste álbum.
Por Sónia Pereira para o "Blitz"
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