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H2T - HipHop TugaMelo D ("Y", suplemento do jornal "Público" de 31/10/2003)

Melo D Um Músico Também Chora

  Para a maioria, será apenas mais uma pessoa com pressa de regressar a casa, depois de um dia de trabalho, com dois sacos de compras em cada mão. São 20h e Rui Carlos de Melo, mais conhecido por Melo D, acabou mais um dia de trabalho na FNAC do Colombo, em Lisboa, onde trabalha há dois anos. Parece cansado. "Ontem à noite estive em Leiria para uma noite de música e hoje estou a ressentir-me", diz. Alguns conhecem-no do seu passado na música. Foi um dos pioneiros do hip-hop em Portugal com os Family e mais tarde transformou-se no cantor dos Cool Hipnoise, com os quais gravou "Nascer do Soul" e "Missão Groove". Há cerca de quatro anos abandonou o grupo e remeteu-se ao (quase) silêncio. Surge agora com "Outro Universo". Um "álbum de fé e de sonhos", afirma. "Gostava de não ter que dar entrevistas", diz, e percebe-se tão bem porquê. É que ouvindo a música está lá ele. São uma e a mesma coisa. Os olhos brilham e fixam um ponto, as palavras saem em torrente, perde-se, volta atrás, pede desculpa, mas tal como na música sente-se a procura. "Este disco sou eu, a maneira como falo, a musicalidade que tenho". Nem mais. Melo D e um álbum, "Outro Lugar", não isento de falhas mas tão perfeito na forma como não tem receio de expor a sua vulnerabilidade. Partindo de síncopes rítmicas de hip-hop, mas viajando pelo jazz, dub, soul, blues, Angola e Brasil, e prestando tributo "à gente que consegue transmitir o sonho na música". Estão lá todos - Marvin Gaye, Barry White, John Coltrane, João Gilberto, Fela Kuti, Bana, Sun Ra, Tony Allen, Carlos do Carmo, Bernardo Sassetti, Miles Davis, Waldemar Bastos, Filipe Mukenga, Gang Starr ou Mos Def.
  Está lá Melo D.

  - Nunca ficou esclarecido por que é que saiu dos Cool Hipnoise. Passados todos estes anos, como encara esse período?
  Melo D - Olhando para trás, constato que existia grande insatisfação. Sentia tristeza, porque não via aquilo que estava a fazer como meu. Isso assustava-me. Depois aconteceram coisas pessoais e isso precipitou a saída. Ainda tentei voltar, mas não funcionou - talvez porque em relação à música e às pessoas me entrego bastante. Não conseguia lidar com algumas situações, mas isso também me fez perceber o caminho - não quero ser estrela, mas ter a liberdade de fazer aquilo que gente que adoro foi capaz de fazer. Terei que ser o centro e todas as ideias terão que passar pela minha aprovação, mas quero funcionar com outras pessoas.

  - Após a separação, começou logo a pensar em regressar com um trabalho solitário?
  Melo D - Nunca deixei de fazer música. Sempre actuei à noite com "sound-systems", enquanto DJ e MC, mas isso não chega aos "media". Eu e o Papa Pablo fomos os primeiros a montar um "sound-system" e levá-lo aos palcos. Há 15 anos, eu e o Double V fazíamos isso nas discotecas africanas, mas ninguém sabe... Se encontrar por aí um africano com mais de 30 anos, vai ver que ele se recorda dessas animações.

  - Está a dizer que depois dos Cool Hipnoise sentiu necessidade de voltar atrás, às raízes? Dar um passo atrás para tentar dois em frente?
  Melo D - É mesmo isso. Foi voltar atrás, para perceber onde estava. Deixar o tempo passar e fazer outras coisas - estive a estudar jazz, guitarra, baixo e a tentar perceber como funciona essa coisa da harmonia. Passei muito tempo a ouvir discos dos mais diversos géneros, como música brasileira. Depois de me ter apaixonado pelo João Gilberto, caí num precipício... Já nos tempos dos Cool Hipnoise, depois de ter um contacto mais íntimo com a música dele, sentia que faltava ali qualquer coisa. Falava-se muito bem de nós, mas parecia-me um exagero. Tal como agora se falarem muito bem do meu disco, irei achar um exagero. Faço coisas interessantes, mas falta-lhes atingir aquele patamar... Nem falo em termos técnicos, falo de música que vai para além do que se é. Vai para além de tudo... Das palavras, do canto... Uma música onde o canto e as vivências se confundem, onde aquilo que cantamos e tocamos somos nós. Nós e muito mais, uma coisa complexa, rica.

  - É por sentir que ainda está num processo de desenvolvimento que este disco funciona como tributo aos músicos que lhe permitiram realizar esse trabalho de aprendizagem, enquanto músico e enquanto pessoa?
  Melo D - Quando passamos por grandes dificuldades, temos sempre um momento de choque e outro em que paramos e somos forçados a meditar. Crescemos depois desses momentos terríveis. Nunca mais somos os mesmos. Dei esse salto. A música é uma experiência, seja em concertos ou enquanto DJ, há momentos únicos em que nos transcendemos. Toda a nossa vida parece que se torna música. É isso que se sente ao ouvir Chet Baker, Miles [Davis] ou [John] Coltrane, aquela busca incessante. Adoro esses gajos - foram eles que fizeram com que voltasse a fazer música. Eles e a malta que está a fazer hip-hop, muito mais novos que eu e com boas ideias. Trouxeram uma lufada de ar fresco e vê-los fazer música também me deu um empurrão.

  - Independentemente desses factores e do hip-hop ter hoje outra visibilidade em Portugal, o assumir fazer um disco foi algo que foi crescendo ou existiu um momento capital?
  Melo D - Foi uma mulher. São sempre as culpadas. Foi uma mulher muito bonita que me empurrou para essa jornada. Já tinha composto muitos temas ao violão, mas pensava sempre que ainda não era aquilo. Andava com planos demasiado ambiciosos e ela disse-me: "Calma! Isto que tu tens é válido!". Fez-me ouvir aquilo que tinha gravado de outra forma. Depois, deixei que outras pessoas ouvissem e as reacções foram positivas. Ganhei confiança e os temas foram acontecendo. Chego à conclusão que este é um álbum de fé, motivado por ela. É um álbum de sonhos. A minha música caminha para aí, para uma espiritualidade... Sonhar esse outro universo em que as pessoas estão vivas.

  - Ouvindo-o falar, percebe-se que, para si, a música tem essa capacidade de nos transportar para "outro universo", como o título do álbum deixa perceber.
  Melo D - Consegue. Ontem, estive em Leiria com um dos grandes DJ deste país, o Johnny da CoolTrain Crew, que me consegue sempre impressionar pela cultura musical. Fizemos uma homenagem ao Art Blakey e houve momentos incríveis - recitava coisas corrosivas do Garcia de Resende, que têm a ver comigo, e houve momentos de um misticismo muito grande. Já não estávamos ali, estávamos nesse outro universo, a partilhar com as pessoas, a sonhar, e a convidá-las a entrar.

  - Como é que alguém que tem uma relação intensa com a música se relaciona com o facto de ter uma actividade diária num espaço comercial, onde tem que lidar com todas as facetas da indústria?
  Melo D - Dá-me uma visão global da indústria que é uma coisa que me entristece, porque quero fazer outra música. Uma música pura, sonhadora. Tenho até essa ideia de doar eventuais lucros a pessoas que necessitem. No meio deste consumismo, é uma ideia que me dá felicidade. Tenho uma vida difícil, mas existem muito mais como eu, e temos que ajudar essas pessoas. Pessoas pobres, que não têm acesso à educação. Também cresci num bairro e sei como é - às vezes sentimo-nos desorientados e necessitamos de alguém que nos oriente. A minha música é isso, ajudar, ajudar, ajudar, e também fazer com que as pessoas oiçam mais música de artistas sérios. Que oiçam com atenção Carlos do Carmo, Cesária Évora, o hip-hop, o DJ Johnny, mesmo os Cool Hipnoise. São pessoas que me inspiram. O Papa Pablo é o maior "selecter" aqui em Portugal e ninguém fala dele. Mas é um mestre. Muitos anos de militância a divulgar o reggae e ninguém fala dele... Mas o nosso país é assim, só apanhamos as coisas mais tarde.

  - O ponto de partida são as síncopes do hip-hop, mas é um disco aberto ao jazz, dub, soul, Angola, Brasil. É um disco global, mas ao mesmo tempo parece ser apenas possível na confluência de linguagens que se sentem em Lisboa neste momento. Nesse sentido, local. É um disco que aponta pista novas e que mostra que é possível criar uma identidade, para além dos modelos anglo-saxónicos que ainda vingam em Portugal.
  Melo D - Concordo. Isso é uma coisa que procuro. Não sei onde me vai levar, mas tenho que procurar. É por isso que os Cool Hipnoise não me satisfaziam. Tenho que procurar nas minhas raízes. Sou um gajo angolano que cresceu cá. Gosto da maneira de ser dos angolanos, aquela "jinga", mas também gosto da maneira de ser dos portugueses. Sou uma mistura de tudo isso, não recuso nada. Quero beber tudo isso e deixar as coisas sair. E no próximo disco quero ir mais além. Estou-me nas tintas para o que as pessoas vão dizer. Tenho tantas coisas que me influenciam. Coisas que quero fazer ao vivo - praticar o silêncio, temos de ouvir o silêncio. E depois improvisar sem poses. Com música viva. É isso que aprendo de pessoal antigo do jazz. Sinto-me bastante isolado, mas há pessoas que também andam à procura, como o Kalaf, o Johnny. Não é à toa que não participo em muitas coisas de "rappers". Nem sempre me revejo e muitas vezes não existe humildade - as pessoas pensam que sabem tudo. Depois de 17 anos desta merda o que sei é que não sei um caraças. Estou à procura das influências que tenho, de mim próprio. Quero deixar essa marca, fazer discos com gajos do jazz, reuni-los no estúdio. Vamos curtir, fazer "jam-sessions". O meu disco está cheio de coisas gravadas à primeira.

  - Falou do silêncio. O tipo de produção da maior parte do temas é minimal, seca. Existe espaço entre a música. Foi isso que pretendeu atingir?
  Melo D - Sim, pretendia que fosse uma coisa meio caseira, mas interessante. Quando oiço este disco, vejo-me nele. Está lá o que sou. Os momentos de prazer e as falhas. Muita da vibração das pessoas que colaboraram no disco está lá. Músicos que apareceram do nada, o Filipe Larsen, o Luís Fagulha. O último tema foi improvisado e o do Barry White também. Chegar a esta altura, com o grau de exigência que já tenho, e ouvir aquilo que fiz e virem-me as lágrimas aos olhos é uma coisa que me dá a sensação que este é o caminho. Estou a cantar de forma muito mais intensa. É música cada vez mais complexa, mas também muito simples.

  - No tema "O hip-hop é..." o tipo de produção faz lembrar pormenores do r&b contemporâneo, como Timbaland ou The Neptunes. É curioso, porque cita músicos que o marcaram, mas a maior parte são veteranos.
  Melo D - Sim, mas oiço quase tudo. Existe muita coisa no r&b que me chateia - o imaginário das mulheres, o dinheiro -, mas gosto do som, das melodias. Retiro aquilo de que gosto. Quando criei esse tema, pensei em algo mais descontraído, mas é uma música com uma série de pormenores em que nem sei como cheguei lá. Os toques de guitarra mudam e existe uma tentativa para tudo soar musical, como se pudesse ser tocado por uma banda. Essa noção está sempre lá - a musicalidade, a canção, a procura da harmonia.

  - O disco é um testemunho muito vibrante, mas sente-se melancolia. Ao ouvi-lo, percebe-se porquê. Cita imensos nomes, mas ao mesmo tempo sente-se que essa comunidade é virtual. Falta músicos portugueses olharem para a "música africana" feita em Portugal e o contrário também. Falta mestiçagem, fusão.
  Melo D - Sim, sinto-me um pouco só nessa viagem. Há poucas pessoas com quem consiga conversar sobre procurar, aprender, ouvir os outros. Talvez o Kalaf. No hip-hop há pouco isso. O pessoal não discute muito. Não existe espaço para pensar mais.
Ao longo do álbum passa essa ideia do sofrimento enquanto passagem para outro lugar. Porta de entrada para a mudança. É dor, mas é dor de crescimento.
É isso que nos faz sentir vivos. Se as coisas fossem todas cor-de-rosa, seria uma seca. Se entre os amantes não existisse o conflito, seria uma chatice. Existem sempre dois lados. O nosso mundo tem coisas horríveis, mas também bonitas, e cada vez mais concentro-me nas segundas. Tenho tido o prazer de conhecer pessoas incríveis. Inspiram-me, têm um olhar que parece de um "outro universo". O mundo está cheio de coisas bonitas, vale a pena viver. Temos é de aprender a aceitar. O homem farta-se de cometer erros, mas existe um caminho a seguir e na música encontro-o. Adoro tocar, é uma partilha muito grande. Sinto os olhares das pessoas. Parece que estou sempre a ouvir música, é algo que me transtorna, mas adoro. Tenho a sensação de que a qualquer momento posso fazer uma música. Saem-me melodias à toa. É uma sensação desconcertante, mas boa. Antes, quando apenas trabalhava, era mais certinho, mas estava a perder o sonho. Sentia-me morto. Agora, sinto-me mais vivo que nunca. Mais esperançoso. É preciso que haja pessoas que procurem - que sejam como um de nós, humanos, cheios de falhas. Temos que nos escutar uns aos outros. Não podemos pensar que temos toda a razão. Pode parecer uma grande utopia, mas acredito muito nisso.

  - Em "Funje de domingo" há uma série de referências nostálgicas a Angola e recria um certo ambiente familiar. Existe uma referência aos cozinhados, "imbatíveis", da sua mãe. Como nasceu esse tema?
  Melo D - Como quase todos foi feito a pensar em músicos, neste caso o Tetalando, que tem um tema que é o "Funge de domingo". Para mim tem a mesma importância que o Fela Kuti. Gosto de consumir jazz, electrónica, música angolana. Tenho respeito. Blues. Quando se ouve blues, é uma experiência única. É isso que eu procuro, essa característica "blue" da música. Aquela coisa sofrida. Costuma-se dizer: "Blues is a good man feeling bad." O meu disco é o blues. Quando digo que é um disco de blues, as pessoas não percebem, mas para mim é claro: é um disco de muitas coisas, de blues. Nos blues não se pode fingir. Podemos ser o melhor dos músicos, ter uma técnica brutal, ter estudado, mas, se não temos o "blue", não temos o "blue". O "blue" é o momento em que o artista está imerso no lamento, na felicidade, na vida. É música luminosa, cheia de vida.

  - Em dois temas existem homenagens explícitas a Marvin Gaye e Barry White, mas ao longo do álbum são nomeados outros nomes, como Carlos do Carmo, Carlos de Nascimento ou Bonga. Quer falar deles?
  Melo D - As pessoas que me conhecem sabem que esses músicos têm discos que me deixam transtornado. Às vezes não consigo comer nem fazer nada. Só consigo ouvir aquilo. É uma espécie de meditação, ouvir aquelas vozes e aquilo que têm para dizer. O Barry com aquelas harmonias... O Marvin com aquele timbre. É dos gajos que mais me influenciaram e às vezes nota-se bastante. Às vezes é difícil explicar por palavras aquilo que não é deste mundo. Oiço aquilo e faz-me sonhar. A maneira como o Marvin coloca a voz é de outro mundo. Acontece o mesmo com o João Gilberto. A música dele tem uma profundidade incrível. Às vezes, no hip-hop americano, as vozes saem gritadas, num registo alto. É possível ir por outro lado, consegue-se outra densidade, como se estivéssemos a sussurrar. Na música angolana também existe isso. Às vezes, quando estou a fazer o meu blues, digo para mim próprio: "Ah! Caramba! Lá estás tu a copiar o mestre." O mestre Carlos do Nascimento, que já tocou com o Bonga, e que lançou apenas um disco, o "Angolando". Aquilo é uma viagem astral. As harmonias que ele construiu, com respeito pelos clássicos de Angola, é fascinante. Tem os pés assentes na música de Angola, aquele violão sempre presente, mas depois viaja por aí fora. Adoro música angolana e quero que isso se sinta cada vez mais nos meus discos. Aquela sonoridade angolana, portuguesa, com respeito muito grande pela música popular e pelas pessoas. No Carlos do Carmo gosto do timbre e da interpretação, como se quisesse ir para além do fado, mas sempre com um respeito grande pelas coisas simples. Adoro gente que consegue transmitir o sonho na música. Sonhadores como o Miles [Davis], que tiveram vidas complicadas, mas que conseguiam atingir o outro patamar. Já não estavam aqui, estavam no além.

  Por Vítor Belanciano para o "Y" (suplemento do "Público")

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