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H2T - HipHop TugaD-Mars (dos Micro), Fuse (dos Dealema), Ofício, Dourado (dos Etêhá) e Ridículo, Tranquilo e DJ Kwan (dos Mundo Complexo) in programa "Caixa de Ritmos" da Rádio Marginal em 31/07/2001)

HIPHOPORTUGA 2000

  Nota H2T: “Caixa de Ritmos” era um programa da Rádio Marginal (98.1 FM, área de Lisboa e arredores), dedicado ao Hip-Hop, R&B, Funk, Soul… Ia para o ar de segunda a sexta feira, das 21 horas à 1 da manhã e era apresentado por DJ Kwan, D-Mars, Buddah, Jaws-T e Yen Sung, conforme os dias da semana ou as horas do programa. Neste espaço passavam regularmente hip-hop português, divulgavam maquetes, convidavam artistas e o público a participar na emissão, realizavam debates, etc. Fizeram-se ainda algumas sessões de freestyle, uma das quais teve mesmo direito a ser editada em cassete, a “Estilo Marginal”.
  A entrevista que se segue foi retirada desse programa, e tem como objectivo dar a conhecer um pouco mais da colectânea “Hiphoportuga 2000”, a maneira como foi elaborada e as bandas que nela participam. DJ Kwan está no papel de entrevistador (apesar de também pertencer aos “Mundo Complexo”, uma das bandas entrevistadas) e D-Mars (dos Micro), Fuse (dos Dealema), Marroquino e Aprendiz (Ofício), Dourado (de Etêhá), Ridículo e Tranquilo (de Mundo Complexo) foram os convidados. Apenas faltou Supreme que, infelizmente, não pôde comparecer.
  O texto é um pouco longo, mas a leitura compensa pois… alguns “segredos” são revelados.

  Kwan – Tenho à minha frente o meu habitual colega do “Caixa de Ritmos”, o D-Mars, boa noite.
  
D-Mars – Boa Noite.

  KwanHoje está aqui na qualidade de entrevistado, já que foi ele que organizou esta colectânea… e começava exactamente por aí, qual foi o critério de escolha das bandas?
  D-Mars – O critério de escolha, para ser muito sincero, foi muito subjectivo, muito pessoal. Escolhi os grupos com quem eu me dou bem e sei que têm qualidade, porque só assim é que ia conseguir fazer isto. Não queria estar a convidar pessoal que faz boa música mas com o qual eu não me dou bem a nível humano. Queria que isto fosse um cena feita com o coração, não só chegar ali e fazer mais um projecto de hip-hop, queria que este fosse diferente dos outros, por isso escolhi este pessoal, e acho que quem ouve o CD e quem conhece minimamente o panorama do hip-hop nacional vê que isso é bastante implícito.

  KwanPortanto, mais do que organizar uma compilação, foi quase que reunir uma data de amigos em estúdio.
  D-Mars – Sim, em parte foi isso. Depois há a questão do título, que é “Hiphoportuga 2000”, o que leva a pensar se deveriam estar aqui mais bandas… mas se calhar não. Como fui eu que fiz a escolha das bandas, e como foi um projecto que eu realizei, eu convidei as bandas que achei que mereciam estar aqui.

  Kwan – Já agora, queres referir quais são as bandas todas?
  D-Mars – É a minha banda Micro, Dealema, Mundo Complexo, Ofício, Supreme e Etêhá. O critério foi também, em parte, mostrar trabalhos novos, que é o caso de quatro bandas aqui, e depois resolvi pôr, tanto a minha banda como Dealema… que, pelo menos para mim, são as duas grandes maiores referências no que diz respeito ao hip-hop underground em Portugal destes últimos 5, 6 anos.

  Kwan Afinal ainda houve aí uns critérios…
  D-Mars – Houve, não vou dizer que não.

  KwanQuando é que foi a primeira vez que te lembraste de fazer isto? Já devias ter a ideia a algum tempo...
  D-Mars – Sim, já há muito tempo que queria fazer uma compilação, e vou fazer mais certamente porque acho que as compilações são o meio mais seguro para promover o hip-hop e também para introduzir novas bandas no cenário sem arriscar muito, sem expor logo uma banda com um álbum inteiro que pode não resultar. Entrar com 2 ou 3 sons numa compilação primeiro e depois vamos ver o que é que se passa.

  Kwan – Então foi uma maneira também de testar o mercado, ver como o mercado está a reagir ao hip-hop.
  D-Mars – Não, não foi para testar o mercado, para isso já fizemos o "Microestática" (para testar o mercado e para manter a máquina independente a funcionar), assim como o resto do pessoal que tem feito cenas independentes…
Por acaso este projecto é muito diferente de tudo o que se fez até hoje no mundo independente, a nível do investimento que foi feito. Houve um investimento pessoal muito grande, não vou dizer quanto é que foi mas foi muito, porque isto foi gravado num estúdio todo “pipi” e foi masterizado num dos melhores estúdios de Portugal. Era a única maneira como eu queria fazer isto… não estou a dizer que as coisas feitas em casa não tenham valor mas a nível de qualidade, de som e isso tudo, eu queria que isto tivesse qualidade, porque era uma espécie de bébé.

  (H2T: virou a cassete, perdeu-se uma pergunta…)

  D-Mars – A maior preocupação que eu tive foi cada uma das bandas poder escolher as suas músicas, não fui eu que disse… é claro que eu dei a minha opinião, porque também me foi perguntado e eu não ia dizer “não vou dar opinião”, mas cada uma teve o seu espaço, mesmo a nível de produção e isso. Eu produzi o que normalmente produzo, o Ridículo produziu Mundo Complexo

  Kwan – Tu também tiveste aí produções noutros projectos…
  D-Mars – Tive porque, Ofício e Etêhá são projectos que, pelo menos um deles, eu estava a produzir na altura, agora já deixei de produzir. No caso de Dealema, foi o Mundo que produziu e misturou também o som. Acho que quando alguém produz o som também o deve misturar porque senão, às vezes, acontecem fenómenos estranhos como já aconteceram muitas vezes.

  KwanDeixa-me fazer-te agora uma pergunta muito directa: achas que se isto tivesse sido feito ou mesmo organizado por uma editora grande havia alguma mais valia para a colectânea?
  D-Mars – A primeira coisa que eu quis fazer foi propor isto a uma editora grande e eu fazer apenas a produção executiva e fazer uma espécie de AR com as bandas e isso tudo…

  Kwan – Fazer o elo de ligação entre as bandas e a editora…
  D-Mars – Sim, fazer o elo, fazer a produção executiva, tirando as bandas em que eu estava também envolvido, mas acho que ainda não há assim nenhuma editora, tirando a NorteSul mas que está agora numa situação difícil, que ia apostar nisto sem meter o seu dedo lá, e dizer “olha, vocês isto e aquilo pá, vocês têm que cantar músicas de amor…”. Depois tentei arranjar patrocínios, e só nisso vi qual é o estado da nação do hip-hop, fiquei completamente desiludido porque estava a pedir patrocínios bastante pequenos a lojas que vivem à base do movimento hip-hop, que dizem fazer parte do movimento e tudo me foi recusado, não tive patrocínio nenhum. Tive apenas um apoio, isso sim, agradeço muito, da KingSize que adiantou o dinheiro para eu poder pagar à fábrica. Porque eu cheguei a uma situação onde tinha o CD na mão feito e não tinha o dinheiro para a fábrica… já tinha gasto tanto dinheiro só na parte do estúdio e isso tudo que cheguei a uma altura que fiquei mesmo desesperado, e nisso agradeço muito à KingSize pelo apoio.

  Kwan – Em termos promocionais…
  D-Mars – Este CD tem um particularidade que é: conforme se vai ouvindo, quanto mais se ouve, vão-se descobrindo as músicas, porque tem muito conteúdo, tem muitas rimas, as músicas estão muito ricas a esse nível. Por isso eu também pensei, a nível de divulgação, fazer uma coisa mais a longo prazo… e como vês, o CD já saiu há alguns meses e só hoje é que estamos aqui a falar disto, porque acho que é um trabalho que vai ficar no tempo. Tem aqui várias músicas que são hinos que vão ficar: tem o “É isto que eu quero”, tem o “Pouco a pouco “, tem o “DLM, SA”, e outros sons que são sons que ficam na memória das pessoas.

(H2T: a conversa segue… desvia-se um pouco do assunto central. Não transcrevemos para evitar que o texto fique ainda mais extenso. Mais à frente ouve-se “Pouco a pouco”, um tema de Supreme, um MC que também participa nesta colectânea)

  Kwan – Um abraço para o Supreme, infelizmente ele não pôde estar connosco. Mas temos cá o resto do pessoal em estúdio, e aproveitando que o D-Mars ainda está aqui na qualidade de organizador da colectânea, vou falar com ele também como membro dos Micro. Cada banda tem 2 temas nesta colectânea e os Micro também. Quero-te perguntar porque é que escolheste esses 2 temas, se são temas inéditos ou foram feitos para a colectânea e como é que correram as gravações com os Micro? Conta-me um bocado do processo de gravação.
  D-Mars – O “Classexecutiva” foi uma ideia que nós tínhamos já há montes de tempo. Consistia em mudar de beat sempre que entrava um de nós… e chama-se “Classexecutiva” porque esse é um dos novos termos que estamos a usar no vocabulário microlandês. Tem a ver com a cena da execução, porque é isso que a gente faz, a cena do skill, e cada vez mais, para nós, o hip-hop é skill. Não estou a falar de flow, estou a falar também do conteúdo das rimas, e o que a gente faz é executar, somos mesmo executantes… então somos a classe executiva. E também porque … de gravata e não sei quê… nós também somos assim, só que já a chegar ao status de prós, estás a ver? (risos)

  Kwan E depois incluíram aí outro tema que é o remix do “Infantes” que saiu no vosso álbum de estreia "Microestática".
  D-Mars – Foi um remix que está, pelo menos para mim, melhor conseguido do que o infantes, está diferente.

  Kwan Até é curioso estarmos a falar sobre esta música que tem um vídeo clip bem interessante, eu por acaso só vi uma ou duas vezes… também não tem tido muita passagem infelizmente.
  D-Mars – É um dos melhores vídeos assim de hip-hop em Portugal…

  Kwan – Eu por acaso também concordo…
  D-Mars – Tem uma qualidade muito boa, só que como já passou bastante na CNL, (quando ainda era CNL) no Curto-Circuito, na altura da Microestática, então nesta altura já não dá para passar.

(H2T: mais uma vez… outro pequeno salto. Kwan pede a D-Mars que escolha um dos 2 temas de Micro para finalizar esta parte. Ouve-se “Classexecutiva”.)

  Kwan – … Vamos subir um bocadinho mais na situação geográfica do país e encontrar o Fuse dos Dealema. Boa noite Fuse.
 
Fuse – Então, boa noite.

  Kwan Para já, obrigado por teres vindo até cá a baixo, é sempre bom vocês visitarem-nos.
  Fuse – Eu é que agradeço estar convosco.

  Kwan – Ia-te perguntar, antes de entrarmos na colectânea, o ponto de situação dos Dealema nesta altura?
  Fuse – Estamos a gravar já o, não vou dizer novo, mas estamos a gravar o álbum. Para já ainda está bastante atrasado mas esperamos que saia para o fim do ano.

  Kwan – Já foi há algum tempo, mas como é que foi o primeiro contacto com o D-Mars para o Hiphoportuga 2000, o que é que te pareceu na altura a ideia? E como é que foi o processo dos Dealema? Não sei se vieram até cá abaixo, se fizeram as coisas lá em cima…
  Fuse – Foi cá em baixo e acho que tinha de ser mesmo… a alma é outra, o estado de espírito tinha de ser esse. Quando surgiu o convite foi aquela primeira ideia de que era bom demais para ser verdade e naquela altura ainda não passava de uma ideia, de um projecto e eu estava era feliz e na esperança de que ele conseguisse mesmo juntar aqueles grupos e levar isto para a frente… aconteceu, e é bom demais.

  Kwan – Como é que correu a gravação dos temas, porque é que escolheram aqueles, se são inéditos, se são temas que vocês já tinham à algum tempo, fizeram-nos de propósito para a colectânea…
  Fuse – Fizemos de propósito para a colectânea, foi cozinhado na altura.

  Kwan – Eu por acaso já tinha falado com alguns dos teus amigos e fiquei um bocado surpreendido porque eles disseram-nos que escreveram aquilo na hora…
  Fuse – Foi, foi tudo feito à pressão. Às vezes as cenas mais fixes saem feitas à pressão.

  Kwan – Vocês costumam trabalhar mais assim na expontaneidade?
  Fuse – Sim, sim, tudo expontâneo. Às vezes é o nosso mal. Se calhar às vezes devíamos preparar mais as cenas, trabalhar mais em casa e isso tudo, mas para já tem sido tudo expontâneo.

  Kwan – Uma coisa positiva nesta colectânea, também pela vossa presença lá, é que cada vez mais se dismistifica aquela ideia do norte contra o sul. Isto cada vez faz menos sentido.
  Fuse – Isso já nem existe meu! Isso é estilo um cagalhão que já foi pela sanita abaixo há muito tempo, já foi cagado há muito tempo, o cheiro já passou. (risos)
  Eu até já nem ouvia falar disso há muito tempo…

  Kwan – Isso é bom sinal…
  Fuse – Os objectivos agora são outros, as ideias agora são outras, acho que o objectivo principal de todos nós neste suposto movimento por que lutamos é dinamizar e crescer. Às vezes não crescemos para os lados certos mas o que interessa é crescer e mantermo-nos reais.

  KwanTu também há pouco tempo lançaste o teu primeiro álbum a solo, chama-se “Informação ao Núcleo”, como é que tem sido a reacção das pessoas pelo que te tens apercebido?
  Fuse – Para já tem sido boa, ainda não tive muito contacto com o pessoal…

  Kwan – É uma edição independente também…
  Fuse – Sim, sim, fabrico caseiro.

  Kwan – Home Made, fabrico caseiro, essa palavra é muito tua… Quando é que podemos ver-te cantar ao vivo aqui em Lisboa?
  Fuse – Isso é um dos meus sonhos, um dos meus objectivos. Mas também já ouvi dizer que isto aqui está um bocado mal em termos de espaços para actuar ao vivo, não sabia que o panorama estava assim aqui em baixo.

  Kwan – Está, está um bocado. Quer dizer, a apresentação oficial do Hiphoportuga 2000 foi feita no Hard Club, em Vila Nova de Gaia…
  Fuse – E só isso já dá assim uma pequena ideia.

  Kwan… mas por acaso correu bem e parece-me que o Hard Club é um bom sitio para fazer coisas e acho que as pessoas aqui em Lisboa ainda estão pouco receptivas aos eventos de hip-hop. Também por algumas coisas que acontecem nesses eventos às vezes, mas também me parece que há um grande preconceito das pessoas…
  Fuse – Inclusive no Hard Club. Porque é assim, o HC é um espaço que qualquer grupo gosta porque é um espaço enorme, tem uma qualidade de som espectacular, mas temos que ser sinceros e temos que abrir os olhos, eles vêm o hip-hop como quase toda a gente que está de fora o vê… em termos de aposta eles estão sempre com um pé atrás, porque nunca sabem se vai haver adesão. E depois está a tal ideia por trás: será que um concerto de hip-hop vai render dinheiro para eles? A prova disso está, por exemplo, no último concerto que dei lá, que foi à coisa de uma semana, com os MatoZoo e o Assassino…e tivemos que tocar no bar de cima, ou seja, empurraram-nos para um canto e fecharam o palco de baixo.

  Kwan – Ainda assim vão-se fazendo algumas coisas, não é? O que já não é mau…
  Fuse – Sim ,sim, já não é mau.

  Kwan – Esperamos então um dia destes ver-te aí a cantar num palco em Lisboa.
  Fuse – Também espero...

  Kwan – Parabéns pelo álbum e parabéns pelos vossos temas na colectânea, espero que continuem a trabalhar e que nos encontremos um dia destes cá em baixo.
  Fuse – Espero que sim.

(H2T: Kwan pede a Fuse que escolha também um tema para passar de seguida, e Fuse escolhe “É isto que eu quero”, de Mundo Complexo. Mas não, Kwan agradece mas tem de ser um de Dealema. «Ehhh, que cena! mas era isto que eu queria…» responde Fuse desapontado (risos). Altera para “Conflito”.)

  Kwan …desta vez vamos falar com os Ofício, Marroquino e Aprendiz. Boa noite. Vou-vos fazer as mesmas perguntas que fiz ao resto do pessoal. Como é que, na altura, vos pareceu a ideia de participar na colectânea, se já tinham temas feitos, se fizeram de propósito, como é que foi as gravações? Suponho que tenha sido a primeira experiência em estúdio…
 
Aprendiz – Não, tivemos da outra vez…

  Kwan – Ah, vocês entraram no TPC, não foi? Não me estava a lembrar…
 
Marroquino – A “Entra no vício” era uma música que já tínhamos escrita, acho que foi das primeiras músicas que escrevemos. Nessa música nós jogámos um bocado com a mensagem e o freestyle, por exemplo, na minha parte eu enumero assim vários vícios, e ele joga com esses vícios. Então… já que há tantos vícios tipo o do álcool, drogas, etc, também fazemos o jogo para que entrem no nosso vício, no vício dos Ofício que é o hip-hop.
  Aprendiz – A outra foi escrita pouco tempo antes de gravarmos para a colectânea…

  Kwan – O “Seis graus de separação”
  Aprendiz – Sim, e é uma música mais a ver com amizade e com a distância que cada pessoa tem de quem não conhece. Pronto, se tiveres um grupo muito grande de pessoas que conheças por aquele o primo do outro, que é amigo do outro, que namora com aquela… podes vir a conhecer pessoas, estás a ver? Então existem 6 graus de separação para qualquer pessoa que não conheças.
  Marroquino – Nós viemos a encontrar-nos um ao outro assim, aliás, nós e o Dourado também…
  Aprendiz – E a ideia de entrar na colectânea foi um espectáculo, ainda para mais com os grupos que estão. Estar no meio destes grupos e poder fazer uma cena em conjunto com eles acho que é muito bom mesmo.

  Kwan A experiência que vocês tiveram no TPC ajudou-vos de alguma forma quando foram para estúdio agora?
  Marroquino – Sim, claro. Tivemos uma noção já mais alargada do trabalho que se passa em estúdio.
  Aprendiz – No estúdio, dessa primeira vez, estávamos mesmo a leste… era mais o D-Mars que nos orientava as cenas e dizia o que fazer. É um bocado estranho ao principio. Quando gravámos para o Hiphoportuga 2000… é ao pé de casa, estamos muito mais à vontade, estás muito mais relaxado, muito descontraído e as cenas correm melhor, é mais fácil… não gostas dizes que não gostas, queres gravar outra vez, queres meter aquilo…

  Kwan – Vocês, suponho que gostaram do resultado final.
  Marroquino – Claro, e agradeço o convite desde já ao D-Mars, porque foi uma oportunidade para nós de podermos promover e ao mesmo tempo afirmar, não só o nosso hip-hop, que nós fazemos, mas global, de nós todos.

  Kwan – Qual é a vossa situação actual? Os Ofício, o que é que estão a fazer?
  Marroquino – Nós estamos um bocado parados. É uma fase em que estamos a projectar novos trabalhos.
  Aprendiz – Estamos parados mas ideias não faltam, ideias há sempre muitas, é preciso é não pensar só nas cenas e faze-las.

  Kwan – O que é que vocês queriam para o vosso futuro, se vos dessem a escolher? Como Ofício.
  Aprendiz – Ui! O que é que queriamos…
  Marroquino – Nós queriamos gravar um álbum, era esse o objectivo principal.
  Aprendiz – Há uma cena que eu curtia bué, já disse isto há muito tempo, que era cantar no Pavilhão Atlântico. A sério, a primeira vez que eu fui ao Pavilhão Atlântico disse “hey, adorava cantar ali em cima, um dia ainda hei-de cantar ali”.

  Kwan – E o Hard Club, também foi uma boa experiência?
  Aprendiz – Isso foi um espectáculo. Foi um concerto geral, muito bom, muito bom, uns a seguir aos outros, o pessoal até se devia passar como é que cada um é tão diferente e pode ter a sua cena tão boa como aos outros. Acho que correu muito bem. A organização, é que pronto… grande seca no fim.
  Marroquino – O que interessa é participar e fazer o que nós realmente gostamos de fazer.

  Kwan Olha, muito obrigado mais uma vez por terem vindo aqui...
 
Ofício – Obrigado nós.

  Kwan…e quero ver-te cantar no pavilhão Multi-Usos num dia destes…
  Aprendiz – Espero que sim...

  Kwan…e espero receber o vosso álbum também o mais breve possível
  Marroquino – Nós também esperamos produzi-lo o mais breve possível
  Aprendiz – Também espero isso Marrocos

(H2T: Também os Ofício têm de escolher um dos tema deles. Número 8 é a escolha, ou seja, segue-se “Seis graus de separação”)

  Kwan …desta vez temos o Dourado, dos Etêhá
 
Dourado – Olá, boa noite, tudo bem aí?

  Kwan Etêhá que são 2 pessoas, DJ Nuskill e MC Dourado. Boa noite, benvindo mais uma vez ao estúdio da Marginal, uma habitual presença do Hip-Hop Don’t Stop e agora finalmente temos aqui o destaque ao Hiphoportuga 2000. Conta lá como é que, na altura, quando te fizeram o convite, quais eram as tuas expectativas e como é que depois correu o processo de gravação e os concertos a partir daí… o que é que esta colectânea representou para ti? Conta-me um bocadinho disso.
  Dourado – Eu acho que foi um passo no hip-hop português. Na altura em que fiz as escolhas pensei que o projecto ia sair logo, mas houve uns imprevistos e demorou um bocado de tempo, mas graças a Deus saiu e acho que está bom. Está com o skill que havia na altura, agora as pessoas já estão melhores, razoavelmente melhores. Acho que está bom, era o que eu esperava que saísse, não esperava muito mais.

  Kwan – Olha, diz-me uma coisa, os Etêhá formaram-se há quanto tempo e qual é o vosso balanço da vossa actividade como banda e o que é que têm feito?
  Dourado – É assim, não temos feito muita coisa porque também não tenho produzido, ainda não tenho condições para produzir. Vou fazendo as minhas letras, sempre que posso escrevo, o Nuskill tem dado nos pratos todos os dias, faz por isso também, e a gente vai começar a fazer cenas assim que puder, assim que eu começar a produzir…

  Kwan – Então a responsabilidade está nos teus ombros
  Dourado – Está. Até agora tem sido o D-Mars a produzir-nos, vai ser um choque quando eu começar a produzir porque não é o mesmo nível, ele é muito melhor, não se comparam os beats, mas o tempo ainda tem muita coisa para aprender daí.

  Kwan Tu vais lá. Perspectivas para o futuro, quais são os vossos principais objectivos?
  Dourado – É ter o MPC, começar a produzir mesmo. Daqui a muitos anos é que eu vou começar a ter outras perspectivas, para já é isso, ter o MPC e começar a produzir.

  Kwan – Obrigado por teres vindo, mais uma vez… boa sorte e espero ver um trabalho vosso também muito em breve.

(H2T: Dourado escolhe “Terror Crime”. Ouve-se o som.)

  Kwan – Já falámos com quase todas as bandas intervenientes no projecto, para o final guardámos Mundo Complexo, uma banda aqui de Carcavelos. Temos aqui dois, aliás três representantes, mas vão falar só dois: o Ridículo e o Tranquilo. Boa noite, estão bons? Vou-vos fazer a mesma pergunta que fiz ao resto do pessoal: como é que foi a reacção na altura em que vos foi feito o convite, se criaram alguma espécie de expectativas e como é que correram as gravações?
  
Ridículo – Da minha parte, antes de mais, 1Love para o D-Mars e está tudo dito, ele sabe o que é que eu estou a dizer. Foi logo de mão aberta que a gente entregou o peito e o coração para entrar na colectânea.

  Kwan – Foi a primeira experiência em estúdio não é?
  Ridículo – Para mim não, já tinha feito antes outras experiências. Mas gostei, é sempre bom, estúdio é sempre óptimo.

  KwanSuponho que… suponho não, deu uma grande força no início…
  Ridículo – Sim, principalmente à nossa banda…

  KwanTranquilo, também foi a tua primeira experiência em estúdio?
 
Tranquilo – Foi, foi a minha primeira experiência em estúdio, sem contar com a dos Ministars, long time ago… (risos)

  Kwan – É engraçado porque tenho aqui duas pessoas à frente que têm uma banda de hip-hop, um foi cantor dos Ministars e outro tinha uma banda de punk rock ainda à pouco tempo e concerteza que isso ajuda de alguma maneira a criar o que é o Mundo Complexo.
   Ridículo – Antes de mais nada, também queria dar um abraço aos “Garagem 7”, um grande abraço mesmo…

  Kwan – Os “Garagem 7” que era a tua banda anterior. Como é que uma pessoa que tem uma banda de Punk.Rock, agora de repente, aparece com um projecto ligado ao hip-hop? Achas que são assim coisas tão distantes como isso?
  Ridículo – Não, tem muito a ver. Porque falo praticamente no mesmo, só usei o estilo musical de uma forma diferente, de resto a personalidade continua a ser a mesma.

  Kwan – Balanço de actividades de Mundo Complexo?
  Tranquilo – Vamos ter que continuar a esperar. O nosso trabalho está a ser feito, aos poucos vai sendo feito, continuamos a ensaiar…

  Kwan Foram feitos uns concertos também, não é?
  Tranquilo – Temos feito uns concertos que também vão motivando, mas passamos aquelas fases que todas as bandas passam… temos momentos bons, outros momentos menos bons mas vamos em frente e vamos acreditar no futuro e continuar a trabalhar sempre que possível para que, no futuro, haja aí Mundo Complexo em força.

  Kwan – Principais objectivos para a banda?
  Ridículo – Que tudo corra bem. Se a gente continuar assim, acho que, além de sermos quatro membros somos todos amigos muito chegados, o que é muito importante e vamos tentar chegar àquele sonho que nós temos que é ser uma banda… uma maior banda, e logo se vê.  E a pessoa que produziu esta colectânea, neste caso o D-Mars, se ele continuar assim penso que ele vai conseguir mover muito mais o hip-hop. São pessoas assim que são necessárias no movimento. E que tudo corra bem para todos, a todas as bandas de hip-hop do país…desde o Norte, ao Sul, ao Centro, continuem assim e não parem!
  Tranquilo – E acima de tudo deixem-se de confusões
  Ridículo – Paz e amor, que tudo corra bem. Hip-Hop Portuga!

  KwanMensagem final. Obrigado por terem vindo, também se não viessem ia-mos ter complicações… (risos). D-Mars, queres dizer alguma coisa no final?
  
D-Mars – Quero dizer que os Mundo Complexo deviam pensar melhor em relação ao DJ deles …(risos). Não, isto é a gozar. Para quem está a ouvir o programa e não sabe, o Kwan é o DJ dos Mundo Complexo, ele estava a entrevistar-se a si próprio, tipo Freud (risos). Já agora também aqui vai um abraço do pessoal para o Kwan por ter convidado esta gente toda e por ter feito boas perguntas, porque isso é que é necessário. Fazer boas perguntas é sinal de respeito para com o pessoal, e não aquelas perguntas da tanga…
  Kwan – Eu respeito, até porque voçês vão pagar todos no fim… (risos)

(H2T: Também os Mundo Complexo tiveram direito a escolher uma faixa para terminar e, pedindo desculpas a Fuse, decidem-se pelo outro tema, o “Vivo desesperado”)

  Kwan D-Mars, obrigado também por teres vindo e espero que continues a fazer mais coisas destas.
  D-Mars – Sim, mas toda a gente está a agradecer-me e não sei quê… e eu é que queria agradecer a eles todos, porque eles também me deram muito ânimo, isto não é um projecto meu, é um projecto que eu idealizei…

(H2T: infelizmente, termina a cassete… mas ficou o essencial.)

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