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H2T - HipHop TugaGeneral D (in "Blitz" de 19/10/1995)

África Minha

  No momento presente, cada álbum novo que em Portugal surge na área hip-hop, afro-reggae e afins parece ser o melhor que já se fez. Se pegarmos, apenas, nos discos de estreia dos Kussondulola, dos Da Weasel e dos Ithaka, percebemos que não é difícil cair neste tipo de exagero. Agora, a juntar a esses, chega o primeiro longa-duração daquele que é considerado por muitos como o pai do rap portuga. «Pé Na Tchon, Karapinha Na Céu», de General D & os Karapinhas, é um disco impressionante nos resultados, uma amálgama de sons que o rapper, em conversa com o Blitz, definiu como uma viagem que tem como ponto de partida o ritmo do tambor africano. De resto, é África que ocupa os sonhos de General D, um artista diferente do homem que é, muito mais reservado e tímido do que em palco. Mais uma coisa: façam-lhe tudo menos mexer na carapinha. Só alguns eleitos têm o direito de lhe sentir este pedaço de África no cimo da cabeça.

  - Logo na introdução do teu álbum dizes que nunca hás-de deixar que alguém te tire o direito de falar. Achas que essa questão ainda se põe, hoje em dia, em relação ao General D? Sentes que ainda há quem não queira que cantes?
  
General D - Acho que isso continua a acontecer não só com o General D mas com a música de intervenção em geral. Eu sei mais ou menos quais são as músicas que vão passar nas rádios e quais é que não vão passar.

  - Quais são?
  General D - Não te vou dizer porque também deves saber. Há-de ser sempre assim: sempre que uma pessoa diz alguma coisa que possa ofender este ou aquele corre o risco de aparecer alguém para lhe tirar o direito de falar. Disse isso na continuação do 1º single (N.R.: «Portukkkal») e nesse single senti que havia mesmo gente que me queria tirar esse direito. Chamaram-me isto, aquilo e aqueloutro por dizer apenas aquilo que acho que é verdade.

  - Quem?
  General D - As rádios, em geral, que não passavam a minha música, os homens que não me quiseram entrevistar porque achavam que a minha mensagem era radical ou era racista.

  - O que é que achas que vai acontecer com este disco?
  General D - Ainda não sei, vamos ver mais para a frente. Neste disco continuei a falar de problemas, até porque em termos de mensagem ele é muito do que foi o primeiro. Dois dos três temas do primeiro disco estão também neste. Mudei muito foi em termos musicais. Para já, estou com uma banda. Por outro lado, neste single quis dar muita importância à palavra e manter a música crua. Um erro que admito ter cometido foi dar tanta importância às palavras e a dicção não ter saído boa. A nível musical, ao mesmo tempo que fui restrito no single, guardei as ideias todas para o álbum.

  - Em relação à dicção, no álbum nota-se facilmente uma evolução muito grande. Isso foi natural e devido à experiência ou treinaste-te propositadamente?
  General D - Foi um pouco as duas coisas. Treinei-me sozinho, fui melhorando, tentando. Mas foi também a experiência, mais concertos, estar a tocar com uma banda. Ter ensaios todos os dias é diferente, tens pessoas a dar dicas, a corrigir e tu mesmo vais melhorando. Foi um ano inteiro com os Karapinhas a darem-me em cima.

  - Quando começaste a cantar sentiste que tinhas uma missão a cumprir?
  General D - Não sei o que foi. Comecei porque gostava de estar aqui, gostava do rap, achava que o rap tinha muita coisa para dar, a cultura rap podia ser muito importante para a comunidade negra. Um gajo não tem onde falar e as personalidades importantes que temos pouco ligam à comunidade negra. Tinha que haver uma outra parte dessa comunidade a subir, com voz, mas que falasse realmente dos problemas, já que a outra não estava a falar. Aqui os miúdos da comunidade negra não têm referências negras, têm que ir buscar referências aos Sitiados, ao Mickey Rourke e esses gajos.

  - E é isso que queres fazer com este álbum, dar as referências aos mais novos?
  General D - Não só eu mas todo o movimento. Os miúdos, o pessoal do gueto, vêem os rappers como referência. Nós falamos daquilo que eles sentem todos os dias. No outro dia, estava com o Cupid, dizia-me um miúdo que não estudava, não trabalhava e queria ser assim porque é o que o Snoop Doggy Dog faz. Nós ficámos impressionados com a maneira como os miúdos olham para essas pessoas e tentam seguir isso a todo o custo. Aí é que eu acho que as pessoas têm que ter os pés no chão – pé na tchon, percebes? Os miúdos estão-nos a seguir. Não quero ser modelo, mas tenho consciência de que há quem me esteja a seguir.

  - Mas estás a um passo de te tornares num modelo, pelo menos da comunidade negra, ao cantares temas como «Suzuka Prostituta» ou «Amigo Prekavido». Isso é um modelo que estás a dar, é dizeres: «eu faço assim, façam vocês também assim».
  General D - Nesses casos sim. Mas não pretendo ser um homem perfeito nem modelo de rapaz. Há é determinadas coisas que gosto de discutir, de conversar, contar as minhas experiências, aquilo que eu passei. No caso do «Amigo Prekavido», é a minha experiência particular.

  - As histórias que contas, então, são verdadeiras.
  General D - Algumas acontecem-me a mim, outras às pessoas que andam à minha volta. Quando chego a casa, começo a escrever.

  - Tu próprio defines o álbum como o ritual dos Karapinhas. Como é que gostavas que as pessoas ouvissem e assimilassem as canções que escolheste? Achas que é fácil para um puto branco com 16 anos, que nunca viveu mal, entrar nesse ritual?
  General D - Acho que sim. Não sei se nos outros países acontece o mesmo, mas em Portugal acontece assim: o pessoal da Costa vive só na Costa, o pessoal do Bairro Alto não sai do Bairro Alto, o pessoal de Cascais é a mesma coisa, o pessoal do gueto nunca sai do gueto – até porque quando sai do gueto é maltratado. As pessoas vivem só nas suas realidades. Quando ouvem falar doutra não acreditam ou dizem que é exagero. Este ritual karapinha pretende ser uma comunicação entre essas realidades todas. Um puto de 16 anos tem que entrar neste ritual karapinha porque tem que saber o que é que se passa no gueto, nem que seja a nível de enriquecimento pessoal. É isso que estou a tentar explicar.

  - Já explicaste o que significa «Pé na tchon». E «karapinha na céu»?
  General D - Significa que, apesar de um gajo estar com o pé no chão, consciente de todos os problemas que se passam à nossa volta, nunca devemos perder a capacidade de sonhar, a capacidade de lutar por alguma coisa. Temos que a nossa pequena acção como indivíduos pode alterar muita coisa, pode alterar uma comunidade inteira.

  - És religioso ou acreditas em alguma coisa de transcendente?
  General D - Sou muito crente, acredito em algo muito mais forte, muito mais poderoso do que o homem. Acredito em Deus mas não sou católico nem me interesso por essas religiões todas que andam por aí. A minha religião sou eu e Deus, não preciso de um padre nem do papa para me pôr a falar com Deus. Quando quero falar com Deus, falo. Falo com Ele antes de entrar num espectáculo, antes de comer, antes de dormir, antes de dar uma entrevista… Tenho a minha maneira de comunicar com Deus, não preciso de dar dinheiro, de pagar a alguém para me pôr a falar com Deus.

  - Quem já conhecia o General D de «Portukkkal» esperava um álbum todo ele composto de temas como «Atake Das Karapinhas», «Pedro Pedreiro», «Dinheirinho» ou «Karapinha». No entanto, a juntar ao afro-rap que criaste, incluíste pedaços de soul e coisas mais suaves como as que encontramos em «Black Magik Woman», «Amigo Prekavido», «Suzuka Prostituta» ou «Ximbá Ximbá». Com que intenção é que os karapinhas foram por esse caminho?
  General D - Como já te disse, muitas das ideias musicais que usei neste álbum já as tinha no single. Por exemplo, o «Amigo Prekavido» foi uma música que tentei fazer no single. Só que achámos que não valia a pena misturar tudo num single só, tinha que ser uma coisa direccionada. Todas as outras ideias – blues, soul, jazz – tinham que ser guardadas para um álbum, um trabalho onde tens oportunidade de experimentar vários campos musicais. Depois, eu e os karapinhas quisémos partir da música africana, do ritmo africano do tambor, para fazer uma viagem até chegar ao rap. Durante essa viagem, tentámos encontrar todos os filhos do tambor, que são os blues, a soul, o jazz. O hip-hop é, no meu entender, a mistura, é quando essas coisas todas convergem para o mesmo lugar. O tambor chegou aqui, na nossa viagem chegou ao hip-hop. Ainda vai continuar.

  - Para onde?
  General D - A seguir não sei.

  - Podes dizer quem é a tua «Black Magic Woman» ou como é a tua «Black Magic Woman»?
  General D - (Muitos risos embaraçados) Ela sabe quem é e eu sei também quem ela é. Isso diz respeito a nós dois, eu não gosto de estar aqui tipo Marco Paulo a falar dos meus sentimentos. É uma coisa pessoal e é para continuar assim.

  - Gostava apenas que explicasses como é aquela mulher especial porque quem ouve aquela canção fica com a noção de que a «Black Magic Woman» até pode nem ser uma pessoa concreta mas um conceito.
  General D - Quando fiz aquela música estava a pensar em duas coisas. Primeiro, o rap é a minha «Black Magic Woman». Depois, claro que existe uma mulher, uma pessoa que respeito muito, por quem tenho uma grande adoração, uma grande admiração.

  - No tema «Ximbá Ximbá» cantas, a dada altura, «apesar de todos eles te quererem torcer/ tirar-te a razão e o teu conhecer/ um dia vais ver que valeu a pena lutar» e o tom de mensagem espalha-se pelo resto da canção. É isso que pensas? Achas que valeu a pena continuar a cantar e as coisas já estão diferentes para ti?
  General D - Não é que estejam diferentes, nem pouco mais ou menos. O que quero dizer é que, apesar de todas as dificuldades que um gajo passa – e que são muitas - , uma pessoa tem que continuar a lutar, tem que querer mais, tem que fugir da mediocridade. Fiz essa letra a pensar nos miúdos do gueto. É muito difícil chegar até à faculdade, percebes? Tu entras na escola primária, depois na secundária e começas a ver que cada vez há menos negros. As barreiras são imensas e tem que se ultrapassar isso tudo. Tem que se seguir sempre um objectivo, seja na escola ou no trabalho. Há pessoas que desistem, optam por vidas mais «fáceis».

  - Mas dizes isso num posto diferente do que tinhas, numa situação já mais favorável.
  General D - Ainda me falta tanto para atingir o que eu quero. Ainda estou no meu primeiro álbum; achas que ia ficar satisfeito com o que tenho?

  - O que é que tu queres, então? O que é que desejas ser daqui a 20 anos, por axemplo?
  General D - Quero uma posição – económica ou seja o que for – que me permita pegar nuns putos que cantam e pô-los a gravar. Ter uma editora minha que cuidasse dessas coisas, dar tudo a quem tem valor para que possa fazer o seu trabalho.

  - Continuarias a cantar?
  General D - Eu não sei quando vou deixar de cantar, mas hei-de ajudar sempre o movimento hip-hop em Portugal.

  - O que é que gostavas, objectivamente, de revolucionar em Portugal com a trupe dos Karapinhas?
  General D - Ia pôr alguns negros no poder.

  - E que armas levavam?
  General D - As palavras.

  - Nem paus nem pedras?
  General D - (Risos) Isso têm eles, a gente só tem as palavras.

  - Vais votar?
  General D - Vou e sei em quem vou votar.

  - Não achas que o facto de te teres fechado na música negra e nas raízes da música africana te pode ser apontado como um factor de distanciação em relação à sociedade em que te inseres?
  General D - A harmonia entre as raças passa por nós valorizarmos a nossa própria cultura e dar a conhecer ao máximo a nossa cultura. Não posso juntar-me à tua cultura de branco sem saber o que é a minha ou sem te dar a conhecer o que é que eu tenho de bom. A gente faz uma troca. O slogan «todos diferentes, todos iguais» passa muito por isso, passa por mostrarmos ao máximo o que temos de bom e ver também aquilo que há no outro. Em Portugal, os negros são, pura e simplesmente, integrados na comunidade portuguesa. É por isso que há um grande buraco entre primeira e a segunda geração. São «raízes desenraizadas», como diz o último tema do álbum. Eu não conheço a minha língua e isso não me perdoo nem aos meus pais. Deixa-me triste.

  - Falavas na troca de elementos culturais. O que é que a cultura portuguesa te tem dado de bom?
  General D - Não sei, mas não posso esconder que me deu alguma coisa. Eu cresci aqui. Sei falar português e isso deve ser uma coisa boa. O que eu tenho de português sempre tive, não sei se é bom ou mau. O que eu agora procuro conhecer é o outro lado, a cultura africana.

  - Em que fase estás dessa procura?
  General D - Estou na primeira fase e continuo à procura. Tenho quilómetros e quilómetros para percorrer. Quero ir a África, quero conhecer tudo o que é possível conhecer.

  - É difícil?
  General D - É muito difícil. Aqui vives rodeado de modelos e coisas brancas, o que é natural. Até em Inglaterra é possível conhecer mais coisas da história de África do que aqui em Portugal. Parece que lá há uma preocupação maior em conhecer, até porque já vão na terceira ou quarta geração. A segunda geração de africanos em Portugal já está a mostrar que podemos chegar àquele nível.

  - Na minha opinião, o teu álbu, é um dos discos produzidos em Portugal mais exportável. Há planos nesse sentido?
  General D - Ainda não. Eu quero, como é evidente, ir lá para for a. Há mercados muito importantes a explorar – o Brasil, o mercado africano, o mercado americano… Em primeiro lugar, quero concentrar-me no que vai acontecer em Portugal. O ir lá para for a depende muito da maneira como as coisas correm em Portugal. Logo se vê.

  - No álbum entram vozes que não só a tua. Para além do Boss AC e do Lince (que já entravam no «Rapública»), estão lá três que impressionam especialmente, a Marta, a Maimouna e o Sam. Como é que os descobriste?
  General D - A Maimouna já trabalha comigo há muito tempo, desde a altura em que comecei a minha carreira a sério e a tentar gravar coisas. Apesar de todas as dificuldades profissionais que passei, ela esteve sempre comigo. A Marta é irmã do Lince e ele tinha-me falado dela. Ela veio até à sala de ensaios e começou a cantar livremente. Ouvi e fiquei super-impressionado, tal como os Karapinhas. Felizmente que ela participou no álbum, e bem. Em relação ao Sam, eu andava à procura de uma voz masculina, quente, soul, há muito tempo e foi a Maimouna quem me falou dele. Tinha que ser uma voz negra. Ele veio também a um ensaio e ficou. O que me dá mais orgulho neste álbum é ter começado a trabalhar com pessoas que nunca tinham ouvido um álbum de rap inteiro, não tinham conhecimento nenhum sobre rap. Eu achava isso muito importante, pois essas pessoas não têm os ouvidos viciados, antes trazem toda a formação musical delas. E isso é transmitido por instinto. Colocámos as pessoas nos seus ambientes.

  - Para que fique claro de uma vez por todas, quantos são os Karapinhas?
  General D - (Risos) É o baterista Nando, o guitarrista John, o percussionista Galiano e o baixista Tozé. Este é o núcleo dos Karapinhas. Depois há convidados.

  - Para o palco levas algumas trinta pessoas.
  General D - (Risos) Há a bailarina Beatrix, os dançarinos Double C, o teclista João Gomes, o saxofonista Sanguito… há o General D, a Maimouna Jales, a Marta, o Sam… O ritual não é só o disco, é quando estamos juntos. Em relação ao espectáculo, encaro-o de forma diferente do disco e acho que as pessoas vão ter essa sensação. Ao vivo não temos samples nenhuns, não temos caixa, é tudo real. Ao vivo é uma coisa quente e forte para resultar naquele momento. O disco é uma coisa mais fria.

  - O que é que pensas dos projectos hip-hop que estão a editar, caso dos Ithaka e dos Da Weasel?
  General D - Em relação aos rappers, eu gosto de dizer-lhes directamente o que penso. Se eles me pedirem a opinião eu digo. Em Portugal, era bom que o pessoal se juntasse para falar de rap, discutir o que é que se passa.

  - Façam o congresso do hip-hop.
  General D - Estás a brincar mas isso é mportante. No movimento geral, há coisas que correm bem e correm mal. Temos muita coisa a discutir. A gente junta-se cada vez menos. Temos que conversar entre nós, o movimento é nosso. Antes das editoras, antes dos managers e disso tudo, temos que decidir o que é que queremos fazer. Em França há, anualmente, conversas de rappers e só rappers. Antes de falarmos nos jornais e criar atritos, temos que conversar entre nós, dar a nossa opinião sobre os trabalhos de cada um.

  Por Pedro Gonçalves para o "Blitz"

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