H2T - HipHop Tuga
HIPHOP PORTUGUÊS :: H2T - WWW.H2TUGA.NET BREAKDANCE :: DJ'ING :: GRAFFITI :: MC'ING
H2T - HipHop Tuga H2T - HipHop Tuga
H2T - HipHop Tuga H2T - HipHop Tuga H2T - HipHop Tuga H2T - HipHop Tuga H2T - HipHop Tuga
H2T - HipHop Tuga H2T - HipHop Tuga
H2T - HipHop Tuga
H2T - HipHop Tuga H2T - HipHop Tuga H2T - HipHop Tuga H2T - HipHop Tuga H2T - HipHop Tuga
 
 
 
     
H2T - HipHop Tuga - Menu
 
Actualizações H2T - HipHop Tuga
H2I - HipHop Internacional H2T - HipHop Tuga
  » Actualidade
  » Artigos de Opinião
  » Heads Up
  » Clipboard
Agenda H2T - HipHop Tuga
Notícias H2T - HipHop Tuga
Breakdance H2T - HipHop Tuga
Graffiti H2T - HipHop Tuga
MC/DJ H2T - HipHop Tuga
Produção H2T - HipHop Tuga
Downloads H2T - HipHop Tuga
Reportagens H2T - HipHop Tuga
Fotos H2T - HipHop Tuga
Livros H2T - HipHop Tuga
Poesia H2T - HipHop Tuga
Rádio / Jukebox H2T - HipHop Tuga
Recortes Imprensa H2T - HipHop Tuga
Passatempos H2T - HipHop Tuga
Fórum H2T - HipHop Tuga
Sobre o H2T H2T - HipHop Tuga
Mailing list H2T - HipHop Tuga
Links H2T - HipHop Tuga
   
H2T - HipHop Tuga - Pesquisa
 
H2T - HipHop Tuga Recortes de imprensa » H2T - HipHop Tuga
Recortes de Imprensa - H2T - HipHop Tuga
> H2T > Recortes de Imprensa > Entrevistas
H2T - HipHop TugaGeneral D (in "Blitz" de 27/12/1994)

Balanço Afro

  Muito antes e muito mais do que qualquer outro, o nome de General D surgiu como a figura máxima (para muitos única) do rap de expressão portuguesa. Com «Portukkkal», mostrou porque é que não andava a brincar aos rappers e aos artistas. Se a música não bastasse, ainda junta, às malhas tendencialmente afro que vai tecendo com os seus músicos, depoimentos de acusação directa. Por essas e por muitas outras ocupou um importante lugar no panorama musical nacional deste ano que termina. Mas não é de maneira nenhuma o único a agitar a música portuguesa e a arrastá-la para os caminhos do ritmo e das pistas de dança. Com ele vão, entre outros, Boss AC, astros de «Rapública», e os Underground Sound of Lisbon, campeões da vertente branca a caminho do exterior. Vão, pelo próximo ano fora, e pelas próximas páginas da última edição do BLITZ em 1994, um ano que, afinal, não foi só Abrunhosa.

  - Achas que o ano de 94 assistiu a um empurrão definitivo na tua carreira?
  
General D - Na minha carreira? Iá, acho que sim, decididamente. Em primeiro lugar, houve a edição do primeiro disco só meu, apesar de já ter mandado outras coisas cá para fora, como o «Norte-Sul». Depois, em termos musicais, encontrei-me. Agora estou com Os Carapinhas e amadureci muito com eles. São uma banda muito exigente e, através disso, fiz concertos grandes e importantes. Acho que agora muita gente me conhece.

  - Como é que te sentes a carregar o peso do pioneirismo rap em Portugal?
  General D - Eu sempre disse isto: não gosto que as pessoas me olhem como pai. Não quero, de maneira nenhuma, que me olhem como o pai do rap. Não tenho jeito para ser pai, tenho jeito para ser irmão, irmão do rap. Irmão está-se bem. Ainda tenho muito que aprender e erros para cometer. Espero daqui a dez ou quinze anos continuar a dizer que não quero ser pai, continuar a ser irmão. Tenho as minhas ideias em relação ao rap, tenho uma certa experiência em relação ao rap que se faz aqui e se isso servir para aconselhar ou dar uma dica a grupos de rap que estão a nascer ou já existem, está-se bem. Assim como pergunto muitas coisas ao Boss ou aos Family. Isto tem que funcionar mais como uma irmandade do que para criar escalas. Criar escalas não é bom.

  - Mas não sentes que houve pessoas que aprenderam contigo?
  General D - Acho que sim, principalmente a nível social. Porque as coisas que reflecti no meu disco, os problemas de que falei, são coisas que hoje são debatidas a muitos níveis. Hoje em dia sou convidado para ir a colóquios, associações, escolas e os miúdos vão e sentam-se à escuta do que tenho para dizer. Fazem muitas perguntas sobre as minhas letras e cria-se muita discussão. Acho que o rap está a criar uma mentalidade diferente nos negros que vivem em Portugal, uma mentalidade mais reivindicativa. Esse é um ponto fundamental do rap e acho que temos estado a cumpri-lo. Mais ou menos, tirando um ou outro exemplo.

  - Quem?
  General D - Não vou dizer.

  - Achas que podes ser o primeiro a saltar lá para fora? De que maneira é que isso pode acontecer?
  General D - Eu volto a dizer que não quero criar escalas e hierarquias. Pode acontecer a qualquer um, a qualquer rapper. Não é importante ser o primeiro, o que interessa é fazer um bom produto. Tenho estado mais ou menos em evidência no estrangeiro, estive na MTV, dei entrevistas em França e Inglaterra, para televisões inglesas, o meu disco vai passando nas rádios inglesas, o meu vídeo passou mais em França do que em Portugal… Infelizmente, porque este é um disco dedicado a Portugal, que reflecte a sociedade portuguesa, mas sim contra alguns males da sociedade portuguesa. Pela recepção deste primeiro trabalho – que ainda não é aquilo que tenho para dar -, quando estiver amadurecido, acho que posso ter um mercado lá for a.

  - O que é que tu retiraste da tua experiência em Londres?
  General D - Oh! Foi óptimo! Ir para Londres na altura em que fui, ahhh… (suspiro) foi quase um desabafo. Eu estava aqui e a maneira como a imprensa e muita gente recebeu o meu disco foi um pouco um choque para mim. Eu tive consciência daquilo que escrevi, mas não sabia que a reacção ia ser tão forte e todas as coisas que passei por ter escrito o que escrevi. Foi muita pressão. A democracia portuguesa, se não suporta uma pessoa como eu, é porque tem muito que aprender. Então fui para Inglaterra e foi como abrir novos horizontes e desabafar com os que estão lá. Falei com o Gil Scott-Heron e ele falou-me também do que passou quando começou a escrever estas coisas. Estavam lá muitos rappers e aprendi muitas coisas, técnicas para vocalização… Foi aqui que tomei consciência que não me vou conseguir afirmar lá for a com um rap que se faz nos Estados Unidos ou em Inglaterra. Só posso com o rap africano, que é o que faço, o que sinto.

  - Qual tem sido o papel da EMI-VC na construção da tua carreira?
  General D - Existe uma estratégia, eles têm uma estratégia para todos os artistas. Querem ir construindo um General D a nível discográfico. O General D é uma pessoa conhecida. Eles querem construir o General D como artista, que vende discos. Isso é uma coisa que leva tempo.

  - Mas tens razões de queixa?
  General D - Não, são estratégias. Se tiver que haver discussão, quero discutir internamente a minha relação com a Valentim, os planos, etc. Tem que ser entre eu e eles. A verdade é que sou o General D, um artista, e estando numa editora tenho que vender discos. Isso passa por muita coisa que nem sabia.

  - Neste momento defines a tua música como afro-rap. Cortaste, definitivamente, as tuas relações com o rap urbano?
  General D - Definitivamente não. Para já porque definitivamente é uma palavra muito difícil de respeitar. Não totalmente, porque vivo num meio urbano que me influencia. Mas o que quero fazer é afro-rap, e é por isso que agora a preparação para os meus concertos, para os meus trabalhos, são numa quinta no Pinhal Novo, muito longe do meio urbano. Mas há coisas daqui, como os bairros de lata, que também têm que transparecer.

  - Sentes-te à vontade para pregar a favor da integração racial em Portugal tendo em conta que queres passar uma imagem e uma sonoridade afro? Onde é que entra aí a integração? Qual é o papel de Portugal na tua música?
  General D - A pergunta é complexa mas a resposta é muito simples. Resume-se numa palavra só: respeito. Se as diferentes culturas tiverem respeito mútuo, está-se bem. Eu assumo-me com as minhas influências africanas. Para estar integrado aqui é preciso que a sociedade portuguesa me respeite e eu respeite os valores da sociedade portuguesa.

  - E Portugal não tem nenhum papel n tua música?
  General D - O papel que Portugal tem é por eu estar aqui em Portuga, ter crescido em Portugal e as minhas letras reflectirem o que se passa na sociedade portuguesa. É essa a influência, que acaba por ser enorme.

  - Nas tuas músicas, ao já tradicional tema do racismo, juntas depoimentos iminentemente políticos. Assumes-te como contestatário e subversivo?
  General D - Não sei, as pessoas podem dizer o que quiserem. O que quero é que as pessoas respeitem os negros como povo e a sua cultura. Quero que respeitem intelectualmente, acima de tudo. Em termos físicos, toda a gente sabe que somos respeitados, somos adorados e somos queridos, mas isso é muito pouco, não vai a lado nenhum.

  - Mas tu fazes acusações políticas directas.
  General D - Iá, faço acusações. Acuso o governo pela maneira como trata os negros, onde os coloca, etc. Tratam-nos muito mal. E não é só o governo, estou a falar em termos da sociedade portuguesa em geral. Nas discotecas, no trabalho… os conflitos começam a acontecer quando tentamos a chegar mais acima. Enquanto somos lavadeiras está-se bem, mas quando queremos atingir lugares de chefia, começa a estar-se mal. A minha visão política está muito ligada àquilo que acontece à comunidade negra. Por isso acabo por falar sempre nesse tema, é a minha preocupação.

  - E este governo em particular achas que tem culpas?
  General D - Tem. A política de imigração é uma merda, a legalização que fizeram é uma merda completa… está-se mal. É uma farsa.

  - Objectivamente, que mensagem é que tentas passar com a tua música?
  General D - São muitas. Não gosto muito de falar em mensagens porque essas ficam para os profetas. Falo mais em pensamentos e daquilo que sinto. Depende, não há uma coisa objectiva. Tenho músicas que falam sobre sida, sobre droga, sobre racismo, a primeira geração e a segunda geração, os atritos entre os negros… Sinto-me preocupado porque os negros não se assumem como negros, com o valor cultural que têm como povo. Falo sobre prostituição, falo sobre muita coisa. Depende das situações.

  - Tens vontade de mudar alguma coisa?
  General D - Tenho vontade de chamar a atenção para alguma coisa. Se isso representa a mudança, está-se bem. Mas em primeiro lugar quero pôr as pessoas a discutir e isso tenho conseguido.

  - Que papel têm o visual e o cuidado estético na tua intervenção?
  General D - A maneira como me visto é a maneira como vou para o palco, é a maneira como vou para a escola, é a maneira como venho para o Bairro. É assim que me sinto. Gosto de usar roupa africana porque a acho linda, acho os trajes mesmo demais.

  - Mas isso ajuda a passar qualquer coisa…
  General D - Claro que ajuda as pessoas a conhecerem aquilo que sou e aquilo que sinto. Ajuda-me também a estar dentro daquilo que penso. Eu, infelizmente, não conheço África muito bem. Tenho qualquer coisa, que não sei se é frustração, que provoca um grande vazio em mim por não estar em África, não conhecer melhor África ou ir lá todos os dias. Então a minha maneira de estar é para transmitir esse vazio, a vontade que tenho de conhecer mais o meu povo, a minha terra, aquilo que ficou lá.

  - Achas que Portugal pode, alguma vez, deixar de ser um erro?
  General D - Não sei, vai ser difícil. Não só Portugal, mas a sociedade em geral, a nossa sociedade. Ela há-de ser sempre um erro. A teia está de tal maneira montada que já vivemos dentro desse erro. Esse erro é a nossa sobrevivência e as pessoas, para viverem, têm de estar dentro da mesma teia. A teia é a maneira como tratamos a natureza, a forma como lidamos uns com os outros, a ganância, a necessidade de luxo, tudo isso é um erro. Só o facto de criarmos uma bomba nuclear é uma estupidez! É um erro! Dentro dessa teia temos que viver no erro. Como dizia um amigo meu, brasileiro, o homem é uma criança que não deu certo.

  - No início falavas de coisas que passaste por teres escrito as tuas músicas. Já sentiste represálias por causa dessas letras, nomeadamente quando cantas «Fuck o Cavaco e o 10 de Junho»?
  General D - Já recebi muitas, de todo o género e de todas as pessoas. De negros, brancos, cabeças rapadas, já passei por isso tudo. Mas já percebi que são coisas muito pequenas quando comparadas com o puto que chega ao pé de mim e quer falar comigo ou quando vou a uma escola e vejo os miúdos todos com atenção àquilo que estou a dizer. Isso é que são coisas fortes e grandes. Isso prova que as coisas têm que ser ditas.

  - Mesmo os negros te atacam?
  General D - Aqui há muitos tipos de negros. Há negros que estão conformados e, de certa forma, são privilegiados com a situação. Por isso não concordam com aquilo que estou a fazer. Há negros que dizem que, em vinte e tal anos, nunca sentiram discriminação em Portugal. Para dizerem isso, alguma coisa não está certa. O problema é que, se calhar, eles nem sequer sabem o que é discriminação. São esses que falam e me dizem coisas. Mesmo o facto de o meu disco não passar na rádio é uma forma de censura psicológica. Uma coisa que está mal na comunicação portuguesa é que não dá espaço a este tipo de músicas. As rádios preferem músicas que falem do amor e do sol. Isso não é só um problema rácico, acontece até com a Xana, que tem um disco que respeito muito, porque uma música dela fala de temas, que, ás vezes, ofendem o orgulho patriótico da pessoa que está na rádio.

  - De quem é a culpa?
  General D - Eu não falo de culpas, só falo sobre a situação que existe. O problema é que em Portugal não existem rádios a dar voz a estas músicas. Em Portugal, as rádios alternativas acabam por ser iguais às outras todas.

  - Dá-me a sensação que, em Portugal, as propostas rap que existem são muito primárias. Porque é que achas que isso acontece, se é que concordas comigo?
  General D - O rap em Portugal ainda está a crescer, passou agora de embrião a bébé recém nascido. Como tal, é natural que ainda não se tenha atingido a maturidade de temas que ouvimos lá for a. Outra coisa muito importante é que o pessoal que faz rap é tudo pessoal sem papel. O pessoal do tecno começou agora, mas tem uma boa produção, mete ali dinheiro. Isso são coisas que o rap ainda não tem, leva tempo. Enquanto não investirem no rap, nos miúdos que andam aí, não podemos ter aquela qualidade de produção que se exige. Sabes como é que é, isto é tudo muito bonito mas «money talks». Eu não tenho dinheiro para me juntar ao Boss AC ou aos Family e formar uma editora. Se algum empresário ler o BLITZ e quiser fazer uma editora, está-se bem.

  - O que é que pensas de projectos como os Da Weasel ou «Rapública»?
  General D - São dois projectos diferentes. Os Da Weasel, como eu, ainda têm muito que amadurecer. E pelo último concerto que vi deles, no Johnny Guitar, podem dar muito mais do que deram no disco. O «Rapública» deu para ver que existe aqui em Portugal gente com muito, muito talento. Há muita força humana. Falta «money», produção. Falta gente para investir, porque gente com boas letras e boa capacidade para rappar, vê-se que há. Depois pecam por aquela coisinha que podia ter sido mais bem construída, podia ter levado mais horas de estúdio. Há uma coisa que gostava de dizer aos rappers: eu vejo que existe uma certa vontade de ter muito, aparecer e ser famoso. Acho que isso não é o mais importante porque para isso tinham que abdicar da força reivindicativa que o rap tem. O rap tem força, pode abanar, pode abalar, como diz o Gabriel. Se estivermos preocupados em dar nas vistas e estar no topo, essas coisas vão-se perdendo. É preciso que os rappers tenham consciência da arma que o rap é.

  - O que é que tu esperas, para ti e para o rap em Portugal, no próximo ano?
  General D - Para mim, espero continuar a trabalhar com Os Carapinhas, espero fazer muitos mais concertos, fazer um disco que reflicta todas as exigências que Os Carapinhas têm feito e a capacidade musical deles, que é muito grande. Espero ir lá fora, dar concertos. Vou, de certeza estar integrado noutros projectos. Sempre foi minha ambição trabalhar com diferentes pessoas e agora estou a criar condições para isso. Outras pessoas, outros rappers, é isso que quero. Acho que 95 pode ser um ano muito bom para o rap. 1994 foi o começar e o 95 vai ser, de certeza, a explosão. Poderá haver uma outra «Rapública» e nessa estarei lá.

  - Quem é que está por trás disso?
  General D - Ainda não se sabe. Está grávida, é uma «Rapública» grávida. Quando as pessoas virem uma cegonha gigante no céu, alguma coisa se há-de passar.

  Nota: Já em conversa livre, General D pediu-nos, por duas vezes para gravar ideias de que se tinha esquecido. Uma foi justificar uma posição não racista em relação às pessoas que o acusam de tal. Segundo ele, apenas fala de racismo. Depois lembrou-se como é que «Rapública» foi levado a cabo, mesmo sem o dinheiro das bandas. Limitou-se a apontar para a porta do Targus e dizer: «alguém que se mexe bem, o Hernâni»

  Por Pedro Gonçalves para o "Blitz"

H2T - HipHop Tuga - Destaques
Nova secção: H2I - HipHop Internacional
 
H2T - HipHop Tuga - Conteúdo em destaque H2T - HipHop Tuga - Conteúdo em destaque
 
Entrevista - Write4Gold Ibérico
 
   
   
     
 
 
 
  H2T - Voltar à página anterior H2T - Voltar ao topo da página  
H2T - HipHop Tuga H2T - HipHop Tuga
Os visitantes H2T podem colaborar no aperfeiçoamento do site. Se encontraste alguma informação incorrecta, ou tens novos dados relevantes a acrescentar, não hesites em contactar-nos.
H2T - HipHop Tuga H2T - HipHop Tuga
 
MYSPACE H2T / MYSPACE H2T DUELO VERBAL / YOUTUBE H2T / FOTOLOG H2T / HI5 H2T
Webdesign: TugArt | Copyright© 2003-2007 H2T - Todos os direitos reservados | Online desde 28/07/2003