Há sempre um caminho certo para escolher
Em 1996 decidiram juntar dois projectos e fazer os Dealema. O nome surgiu da dificuldade que tiveram em escolher a denominação do projecto. Havia um dilema e Dealema ficou, tornou-se uma forma de estar na vida de cinco jovens à procura de identidade. Foram progredindo na carreira, ganharam nome, deram concertos, fizeram fãs a quem gostam de chamar amigos mas, só sete anos depois tem oportunidade de verem ser lançado o seu álbum de originais. Um disco que funciona como uma recolha de experiências adquiridas ao longo de sete anos em conjunto. O passo seguinte é conquistar os palcos e o público nacional. O Divergências esteve à conversa com um dos melhores colectivos de hip-hop nacional para tentar saber o que os move.
- Estamos aqui para falar do primeiro disco dos Dealema mas antes gostava de saber um pouco da vossa história?
Mundo - A banda surgiu em 96 com a junção dos Fulashit, do Fuse e do Expião e dos Factor X, minha e do Dj Guze. Entretanto conhecemos o Maze e decidimos fundir os dois grupos e formar Dealema. Unir esforços e fazer uma coisa com mais força.
- Porquê só agora o disco quando há cinco anos atrás se falou do disco dos Dealema, há quatro anos atrás a mesma coisa...?
Maze - Tinha de ser agora! Tenho uma rima que é: desculpem a demora, não estava na hora, estivemos a limar arestas até agora. Acho que foi mais ou menos isso. Foi um percurso, estivemos a melhorar e só agora é que achámos que estava no ponto.
- Como é que caracterizam este disco?
Mundo - É um álbum de fotografias, como nós gostamos de dizer porque são bocados das nossas memórias, dos momentos que passámos juntos...
Maze - São retalhos de sete anos.
- Podemos considerar este disco como um best of de sete anos de carreira?
Mundo - Acho que sim...o álbum é feito de rimas que já usávamos há muitos anos atrás e tentámos pegar nessas fórmulas e adaptá-la a outros instrumentais, com outra evolução.
Maze - É um bocado o nosso estilo, nós reciclamos sempre!
- Dentro do hip-hop existem várias vertentes. Como é que se caracterizam?
Mundo - Isso é um bocado complicado. Eu acho que, no geral, somos um bocado obscuros, uma mensagem mais hardcore. Identificamo-nos mais com a essência do hardcore.
Maze - Fazemos um som duro.
- No entanto, em termos musicais não fazem uma grande fusão entre o hip-hop e o hardcore?
Maze - Não! Essa vertente mais hardcore é mesmo em termos de essência e hardcore mentalidade.
- Como é que quatro Mc’s e um Dj se entendem?
Mundo - Eu acho que durante estes anos fomos criando uma química entre nós e agora as coisas funcionam quase por sintonia, não há regras, não há limites.
Maze - Já nos conhecemos e temos um entrosamento natural. É uma equipa.
- O disco saiu no dia 13 de Outubro. Como é que estão a prever a reacção das pessoas?
Maze - Não estamos com grandes expectativas de vendas. A receptividade que nós queremos vamos tê-la na rua com as pessoas a virem ter connosco e a dizerem o que acham do nosso trabalho.
- Em termos de mensagem, a que está implícita neste trabalho é marcadamente positiva. Como é que isso se encaixa com a obscuridade dos instrumentais?
Mundo - Nós temos uma crítica mas é uma crítica construtiva, não criticamos para destruir. Tudo o que nos rodeia é objecto de crítica para nós, pode ser um manifesto contra a educação neste país, contra jornalistas que não levam a nossa música a sério. É uma maneira que temos de tentar fazer alguma coisa melhor todos juntos.
- O bairrismo existe nas vossas músicas?
Mundo - O bairrismo não, a amizade é que é um ponto assente, até porque não moramos todos na mesma zona e isso é relativo.
Maze - A união é uma das partes fortes da nossa mensagem.
- 18 temas é o ideal para o vosso disco de estreia?
Mundo - Nós tínhamos mais mas fomos eliminando alguns temas. Se pensarmos agora, 18 tema podem ser muito mas para sete anos achamos que é o ideal. É para matar a fome!
- Gostava de tentar saber porque é que, realmente, demoraram tanto tempo a lançar o disco de estreia?
Maze - Foi tudo um processo natural, nós fomos gravando, fomos fazendo música e surgiu a oportunidade. O Pedro Tenreiro, da NorteSul, já conhece o nosso trabalho desde o início, sabia que tínhamos uma maqueta gravada e apostou em nós.
Mundo - O único problema que tivemos durante estes sete anos foi a desorganização. Éramos muito desorganizados, fazíamos música mas nunca nos sentamos com o intuito de fazer um disco.
- Então este tempo todo sem registos discográficos é, em parte, culpa vossa?
Mundo - Sim...mas também não queríamos fazer uma coisa prematura. Hoje em dia aparecem muitas coisas prematuras e nós queríamos ultrapassar essa barreira. Sempre quisemos fazer uma coisa com a qual nos sentíssemos satisfeitos. Se calhar só agora é que nos sentimos preparados e com as infra-estruturas ideias para podermos trabalhar. Foi natural, aconteceu agora.
- Estão contentes com este trabalho?
Maze - Estamos, estamos mesmo satisfeitos.
- Qual é a vossa relação com os fãs?
Mundo - Nós temos mais amigos do que fãs!
Maze - É a proximidade total com os fãs, os nossos amigos são nossos fãs e nós somos fãs dos nossos amigos.
Mundo - se calhar é essa a diferença entre nós e outros grupos, é que nós queremos as pessoas por perto porque, sem as pessoas não íamos fazer música.
- Desde a pré-produção até ao lançamento do disco vai quase um ano de trabalho. Foi um processo demorado?
Maze - Bastante.
Mundo - Primeiro começamos a gravar o disco em casa, antes de surgir a proposta da NorteSul, depois fomos gravar as vozes, passar para o estúdio do Serial para fazer as misturas e depois fizemos a masterização no estúdio do João Maya.
Maze - Em estúdio sentimo-nos muito bem, já tínhamos uma certa experiência de estúdio com a oportunidade que tivemos de gravar com Mind da Gap e quando gravamos colectâneas. Foi muito bom.
- O que é que aparece primeiro, as letras ou os instrumentais?
Mundo - Normalmente, primeiro aparecem os instrumentais mas, se houver uma ideia de um tema, de um conceito, pode aparecer o instrumental para as letras.
Maze - Cada instrumental tem um ambiente que nos leva num sentido e aí surge uma letra. Há instrumentais mais alegres e outros mais triste e as letras vão ser consoante aquilo que a música nos transmite.
Por Artur Silva para www.divergencias.com
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