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H2T - HipHop TugaChullage (in "Blitz" nº903 de 19/02/2002)

Manifesto do Portugal Multicolor

  Chullage é um dos nomes fortes do ressurgimento do hip-hop em Portugal. Para ele, a mensagem social é o fim e o hip-hop o seu meio. Ser a voz das minorias de origem africana é uma das suas missões. Declaradamente pessimista em relação à estrutura da sociedade portuguesa, a sua perspectiva futura em relação ao crescimento da cultura hip-hop neste cantinho do sudoeste europeu é bem mais positiva. Chullage tem como nome civil Nuno Santos. O nome de Chullage não tem qualquer conotação artística, é simplesmente a alcunha de bairro (cujo significado deriva do crioulo) que lhe dão desde os seus 4 anos de idade. Estabeleceu facilmente uma empatia com o hip-hop que vinha do estrangeiro, por focar os problemas que afectavam uma minoria ocidental que descendia de África e que não tinha mais nada com que se identificasse. «O meu primeiro contacto a sério com o hip-hop deu-se através de um programa de rap do José Mariño, na Rádio Energia. Mas antes disso, já ouvia coisas dos Run DMC dos anos oitenta». De ouvinte a praticante de hip-hop foi um passo. Nunca foi DJ, writer ou b-boy, mas apenas MC. Começou sozinho no Monte da Caparica, formou o seu primeiro grupo na Arrentela – os 187Squad - , cuja obra inclui um trabalho feito para um filme de Edgar Pêra. Posteriormente, Chullage participou em mix tapes de DJ Assassino, DJ Cruzfader, DJ Bomberjack, entre outros, e marcou presença no álbum «Microestática» dos Micro. Chullage chama mais as atenções quando da maqueta elaborada por D-Mars, intitulada «Subterrânea». Seguiram-se colaborações nas compilações «Ressureição», de DJ Cruzfader, e «Colisão Ibérica», editada em Espanha. Após muitos concertos, Chullage recebe uma proposta da Lisafonia para lançar o seu primeiro disco a solo. «Rapresálias (Sangue Lágrimas Suor)», feito com a Red Eyes Gang, está nas prateleiras de algumas lojas desde o ano passado.

  - A feitura de um primeiro álbum, «Rapresálias (Sangue Lágrimas Suor)» no caso, representa um longo passo.
  
Chullage - É muito tempo. Comigo, foram dois anos. Agora está mais fácil. Se calhar, há aí pessoal que está a lançar discos sem nunca ter participado em mix tapes. Eu venho do tempo, entre finais da década de oitenta e inícios da década de noventa, em que não havia beats. Necessariamente, tivemos que passar por mix tapes para as pessoas começarem a ouvir-nos. Ainda antes de mim, houve gente com músicas que foram girando de boca em boca. Incrível, mas aconteceu.

  - Como é que conseguiste reunir em teu torno, para este álbum de estreia, nomes já com bastante crédito como o Sam The Kid e o DJ Cruzfader?
  Chullage - É aquela cena da amizade. Já tinha feito coisas com o Cruzfader. Há aquela relação amistosa, em que ele trata o meu álbum como se fosse o dele. Opinamos mutuamente em estúdio - «isto não, isto sim». Ainda não nos conhecíamos muito bem, quando ele me convidou para fazer uma cena para ele. Depois disse-lhe, «já agora, quando eu fizer um álbum, vais fazer uma coisa para mim». Desenvolvemos, imediatamente, uma relação de amizade. Quanto aos outros que participaram no disco, são pessoas que já fizeram bastante pelo hip-hop, apesar de não serem conhecidos e de nunca terem lançado nada. São já pessoas antigas no movimento, com quem fizemos várias músicas juntos, e depois chega aquela hora do «ok, somos tropa e família, venham para aqui cuspir».

  - Mas também já tinhas nome feito na praça…
  Chullage - Claro, senão eles também não vinham. No underground, já tinha a papa toda feita. Tinha estado no álbum dos Micro e na compilação «Subterrânea», e já tinha feito bastantes concertos. O «people» estava à minha espera. Havia gente que estava sempre a incentivar-me para lançar um álbum, mas respondia que nunca poderia lançar um disco por causa das letras, que nunca seriam aceites a nível comercial.

  - Sentiste na pele a dificuldade de editar um álbum de hip-hop em Portugal?
  Chullage - Senti-o em todos os aspectos. Primeiro, as pessoas começam a dizer-me que não vai ser possível fazer um álbum de hip-hop, ou então comentam que ninguém vai ouvir o disco. Depois, é preciso juntar bastante dinheiro para se usar um estúdio, uma quantia que não temos. É necessário obter-se dinheiro aqui, ali e ali, e é sempre com descrédito porque as pessoas nem sequer acreditam que vamos conseguir fazer um álbum de hip-hop. Há também uma cena muito má: os técnicos de som nunca tratam o hip-hop com respeito, para eles o som de uma música de hip-hop está sempre bom, pois não trabalham com o mesmo fervor que fariam se fosse uma música que eles sentissem. Isso é muito mau. Depois, existe aquele problema com as editoras: a promoção faz-se dificilmente, colocar-se um álbum nas lojas é também complicado. Para se fazer hip-hop é necessário uma luta que não acontece com outros géneros musicais. Quando estamos a fazer um álbum, temos que ter sempre uma série de outras preocupações na nossa cabeça, que não só as letras. Temos que estar preocupados em fazer chegar o nosso produto a uma loja, mesmo que tenhas uma boa distribuidora. A distribuidora tem que chegar e lutar, porque as pessoas das lojas não aceitam - «não sei quem é esse gajo», «hip-hop não (!)». No meu caso, com a minha capa e as minhas letras foi uma batalha. Foi lixado. Tive que passar por muitos obstáculos.

  - Sentes que o hip-hop ainda é mal visto no nosso país?
  Chullage - Antes, era mais mal visto. Actualmente, acho que o hip-hop está a limpar a imagem. Antes existiam aqueles clichés com os gangsters; penso que o hip-hop está, hoje em dia, bastante fora disso. O problema de hoje é o facto das pessoas continuarem a ver o hip-hop como uma música de culto e isso é o que faz com que as pessoas não acreditem em nós. Não sentem que pode estar diante deles um artista que escreve letras e faz produção. As pessoas têm que ver que uma música de rap tem centenas de palavras. O rap é a música com mais palavras. Há canções pop que só têm 30 palavras. É tudo muito básico. Tenho ouvido canções pop que são um grande sucesso, com letras que teria escrito na casa de banho, na «descontra». E essas canções são respeitadas. Fazemos composições complexas e pensadas, e as pessoas não nos respeitam. Não somos como artistas mas como uns putos que estão a iniciar uma brincadeira qualquer.

  - Não consideras que, paradoxalmente, houve por cá um excesso de expectativas criadas com a compilação «Rapública»?
  Chullage - No meu ponto de vista, quando se fez o «Rapública» tentou-se transportar a explosão do hip-hop – que estava a acontecer lá for a – para aqui. Naquela época, existiam à volta de 40 grupos de hip-hop em Portugal. Pensava-se que o «Rapública» era uma amostra séria do hip-hop que havia em Portugal e julgou-se que ia ocorrer um «boom» do género. As pessoas esqueceram-se de avaliar bem as coisas e, por outro lado, muitos daqueles grupos [que integraram a compilação «Rapública»] não eram o que o pessoal mais gostava de ouvir naquele tempo. Hoje, há milhares de pessoas a ouvir hip-hop; naquela época não, quem ouvia hip-hop também fazia hip-hop, e ouve logo um grande erro na escolha para o «Rapública», porque muitos daqueles grupos não tinham a identificação do pessoal. Criaram uma grande expectativa comercial e não avaliaram que não havia pessoas suficientes para comprar o disco. Além disso, a compilação não foi tratada como deveria ser, existiam instrumentais muito básicos naquele álbum.

  - Foste dos que não aderiram naquela euforia em torno do êxito «Nadar» dos Black Company?
  Chullage - Sim, fui dos que não aderi. Essa música não me disse nada e criou uma imagem do hip-hop completamente errada. Parecia que todos os temas de hip-hop tinham que ser como o «Nadar», dava ideia que tinha que ser tudo para rir. Não estou a dizer que os Black Company cometeram o erro, mas sim os jornalistas e os promotores. O «Nadar» foi promovido como se fosse o expoente máximo do hip-hop, quando existiam coisas bastante diferentes a serem feitas na altura. Nunca me identifiquei com esse tema, mas, talvez, com os Zona Dread – a sua mensagem dizia-me mais respeito.

  - Mas é indiscutível que houve uma evolução significativa do hip-hop português desde o «Rapública» até hoje…
  Chullage - Desde esses tempos que tem havido uma evolução gradual do hip-hop, que hoje está a dar as primeiras mostras de vitalidade. As próprias pessoas que trabalharam no «Rapública» evoluíram nos beats e nas rimas. É uma grande diferença. As pessoas estão com os pés mais assentes na terra e hoje há mais substância. Há mais meios, existem mais programas de rádio sobre hip-hop, há mais hip-hop na televisão… Hoje em dia já se encontra muito pessoal disposto a produzir hip-hop, há mais estímulos à criatividade. As coisas estão a melhorar em qualidade e em quantidade. Estes últimos 2 anos foram os tempos do «boom» do hip-hop. Daqui a 3 anos vamos ter muitos produtos aí fora.

  - A mensagem política e social é um dos teus principais objectivos?
  Chullage - É mesmo o meu principal objectivo. O hip-hop é um meio mas não é o meu fim. Não vou ficar aqui a fazer mais álbuns e a banalizar o hip-hop. O meu objectivo é continuar a falar do povo que sofre com as diferenças sociais e com os preconceitos raciais; dos problemas dos trabalhadores e das sociedades capitalistas. As pessoas fecham os olhos a isso, querem é trabalhar, ir a centros comerciais nos fins-de-semana e ver televisão que nos dá atestados de burrice. Estão a dormir. Mas há aí pessoas na música dispostas a acordar o pessoal e a formar um movimento à parte neste sistema capitalista marado. Queremos participar num movimento artístico respeitado e não fazer uma música banal que ouvimos na rádio e na televisão. O hip-hop americano que chega por via da MTV é uma estúpidez completa: exibem o que têm, as jóias e os carros. É óbvio que um miúdo de 12 anos que está no bairro vai querer o mesmo. Esse miúdo vai querer roubar para ter essas grandes jóias e esses grandes carros. Não é esse o nosso fim. O nosso objectivo é ciar uma visão diferente nas pessoas, lutando contra o crime, a violência e os problemas sociais.

  - Sentes que há pouco espaço para a população de origem africana se afirmar?
  Chullage - Há muito pouco espaço. A maioria do nosso povo é bem aceite no trabalho não qualificado, mas quando essas pessoas começam a atingir novas metas, ou são completamente assimiladas pela cultura portuguesa, eliminando as suas raízes, ou são rejeitadas. Um gajo de raça não pode trabalhar num banco, mas, provavelmente, até atende bem o público. Esse indivíduo de raça não pode estar sequer com aquele sotaquezinho. As pessoas de cor são aceites em Portugal para correr, trabalhar nas obras e para fazer espectáculos para entreter os portugueses. Pretos advogados, pretos jornalistas e pretos com uma posição firme na sociedade não são bem vistos em Portugal. É contra isso que temos que lutar, porque só quando tivermos pretos em postos altos é que teremos representatividade. Só dessa forma atingiremos a igualdade, ainda que ilusória. Poderemos lutar por mais direitos que estão conferidos na Constituição, não existem, porque não há igualdade. Todo o ser humano nasce igual, mas, realisticamente, isso não acontece, porque, aos olhos das pessoas, quando vais obter um emprego, tu não és igual. O espaço que temos que conquistar chama-se igualdade.

  - Sentes que o hip-hop pode ser o vosso espaço de afirmação cultural maior?
  Chullage - Vai ser. Sinto que o hip-hop está a crescer, cada vez mais gente se identifica com o hip-hop, cada vez mais gente reivindica os seus direitos através do hip-hop. O hip-hop vai ser a maior forma de expressão dos euro-africanos, de que é exemplo a França.

  - E pensas que o hip-hop vai começar a ter saída comercial por cá? Qual será o seu público em Portugal?
  Chullage - Em relação à segunda questão, acho que é toda a população urbana. Neste momento, já é, embora o público que consome o hip-hop nas ruas seja bastante diferente do publico que está fora da rua. Esses dois tipos de público consomem o hip-hop, mas de forma diferente; se calhar uns vão comprar Sam The Kid e outros vão comprar Chullage. Vai haver um hip-hop mais feito na rua e outro hip-hop mais generalista. Quanto à primeira questão, o hip-hop vai crescer comercialmente. Há um maior número de pessoas a ouvir hip-hop, de uma forma que nunca tinha imaginado. Entro numa loja de discos e vejo montes de pessoas a mexer em CDs de hip-hop. O hip-hop está a crescer a olhos vistos. Há uma melhoria comercial, agora temos é que ver se essa melhoria comercial não vai banalizar o hip-hop. Provavelmente, vamos começar a ver produtos bastante marados, que nada têm a ver com o hip-hop e vão ser classificados como hip-hop – esse vai ser o maior problema, há oportunistas da indústria que criam sempre produtos.

  Por Gonçalo Palma para o "Blitz"

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