Boss AC: Manda rimas contra a maré
Boss AC é figura de proa de Hip Hop nacional. Em parte, é a ele que se deve a divulgação e projecção que o género está a ter no país mas, como o próprio indica, “nem sempre quem abre a porta é melhor recebido”. “Rimar Contra a Maré” é o nome do último trabalho e podia ter sido o nome do primeiro o que indica uma coerência no estado de espirito do músico. Fomos encontrar um AC confiante no trabalho realizado e com grandes esperanças no futuro. E já agora, “cantar em português porque a mensagem, no Hip Hop, é importante.”
- De “Manda Chuva” a “Rimar Contra a Maré” vão cinco anos de interregno. Porquê tanto tempo?
Boss AC - Porquê tanto tempo? Sei lá, alguns acidentes de percurso. Se na altura de “Manda Chuva” se me perguntasse quando ia ser lançado o próximo álbum eu dizia que era já! Não foi mas, mais vale tarde do que nunca.
- Achas que este tempo em que te afastaste do mercado discográfico fez com que o teu nome caísse em esquecimento?
Boss AC - O nome é o mesmo…sempre o mesmo Boss AC! Quem gosta mesmo não esquece. É óbvio que as coisas passam, as pessoas têm de se manter actuais mas as manifestações de carinho durante este tempo aconteceram, embora em menor número.
- O uso da língua portuguesa é uma forma bem mais fácil de chegar até ao público?
Boss AC - Completamente! As pessoas que tem acompanhado o meu trabalho sabem que tenho uma certa predilecção por misturar línguas. Neste álbum isso não fazia grande sentido porque ia destoar e eu tentei ser o mais coerente possível. Mas eu quis e continuo a querer “bater” na língua portuguesa. Acho muito bom que se ouça música portuguesa mas acho ainda melhor que se ouça música portuguesa cantada em português. É óbvio que gosto de cantar em inglês, em crioulo, mas como temos uma mensagem a transmitir é em português que o devemos fazer porque quanto mais pessoas perceberem aquilo que estamos a dizer melhor.
- “Rimar Contra a Maré” estava para ser o título do teu primeiro trabalho. Como é que caracterizas este disco?
Boss AC - O título que estava a pensar dar ao disco em 97/98, hoje em dia ainda faz sentido. Como é natural os tempos são outros, as condições são outras, o Hip Hop está muito mais maduro mas a verdade é que ainda temos muitos obstáculos e muitas portas por abrir. E a primeira fornada do Hip Hop nacional abriu a porta a muitas coisas. Muitas vezes que abre a porta primeiro nem sempre é o mais bem recebido.
- Mesmo assim, este trabalho está a ser muito bem recebido. As críticas estão a ser favoráveis e o disco está a vender bem. Como é que comentas esta situação?
Boss AC - O disco está a vender muito bem, não vou dizer que está a exceder as minhas expectativas pois queremos sempre o melhor para nós. As coisas estão a correr muito bem., o feedback das pessoas tem sido espectacular, o feedback dos media tem sido espectacular se bem que eu tento minimizar a opinião dos media pois hoje posso ser endeusado e amanhã crucificado!
- De onde vem a influência para os teus temas?
Boss AC - Eu tive muitas influências em miúdo. A minha mãe é cantora, então levava com a música cabo-verdiana, passei a minha juventude a ouvir reagee, tenho família nos States e foi através deles que conheci o Hip Hop…levei com tantas influências que em vez de as rejeitar assimilei-as e tentei usá-las, o que nem sempre foi bem compreendido.
- Como é produzir um disco de Hip Hop?
Boss AC - Para mim é uma coisa natural, ainda para mais sendo o meu álbum que é visto como uma extensão daquilo que sou. É uma coisa de feeling, espontaneidade, as coisas não são forçadas e o que acho que faz falta ao Hip Hop português é perder os preconceitos.
- Correndo o risco de esperar mais 5 anos, para quando o próximo disco?
Boss AC - Eu não posso prever o futuro mas penso que no próximo ano vai estar outro disco na rua.
- E vai ser um disco mais alegre?
Boss AC - Acho que ainda é prematuro falar sobre isso. Já tenho algumas letras feitas, algumas delas mais “alegres” que não faziam muito sentido no “Rimar Contra a Maré” agora, como é que o álbum vai ser?...a única coisa que posso dizer é que vai ser coerente comigo, vou ser eu. Se vou mais para a direita ou mais para a esquerda, ainda é prematuro dizer.
- Tu foste um dos impulsionadores do Hip Hop em Portugal. Como é que vês esta onda de novas bandas e de grande expansão do Hip Hop nacional?
Boss AC - Eu acho que, em Portugal, o Hip Hop está a passar da adolescência para a idade adulta. Eu vim da fase da infância, puberdade…ainda não estamos na fase adulta mas, também, o Hip Hop já não é criança.
- Acha que a qualidade dos projectos nacionais pode ser comparada com outros vindos da América ou França?
Boss AC - A qualidade é muito relativa, o talento, esse sim, acredito que o que há em Portugal é igual ao de qualquer outra parte. Aqui, provavelmente, não existem tantas condições e, também é preciso dar tempo ao tempo pois o Hip Hop nos Estados Unidos tem 30 anos e um terço em Portugal.
Por Artur Silva para www.divergencias.com
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