Patrão sem empregados
Desalinhado corredor de fundo no universo do rap feito em Portugal, Boss AC tem uma visão musical distinta, única no país em que se diz ser no chamado underground que reside o melhor do que se faz. Para Boss AC, que se assume como rapper e produtor, o hip hop é apenas um dos elementos do seu horizonte, puxando o músico batidas e melodias para direcções como a música portuguesa mais tradicional ou a africana mais longínqua. Ao segundo álbum em nome próprio, «Rimar Contra a Maré», Boss AC atira-se para longe, para um nível de produção e consistência a que habitualmente se associa apenas o núcleo mais respeitado dos norte-americanos, via Timbaland. Para o artista não existem rótulos na sua música, mas que se saiba que «Rimar Contra a Maré» é uma preciosidade que apetece muito não deixar esquecer. Porque, infelizmente, a tendência mundana é esquecê-lo.
- Não consegui deixar de reparar que, no final dos agradecimentos do teu novo álbum, escreves «a minha música sou eu… para o bem e para o mal» O que queres dizer com isto?
Boss AC - Não tenho a mínima dúvida de que isso é um recado. É um recado para a tua classe, de «opinion makers». Não pensei em alguém em concreto, mas escrevi aquilo para alguns pseudo-entendedores. A mim interessa-me ser criticado, mas com fundamentos. Em relação ao «Manda Chuva», tive muitas críticas completamente infundadas e destrutivas. Quero é crescer, e tenho maturidade suficiente para ouvir uma crítica e assimilá-la, se for do tipo «é assim, não é assado», e não «não faças isto porque és uma merda». A minha música sou eu e não vou pedir desculpa pelo que sou. Se também falo de mulheres, se sou «playa», aguentem-se. Se a seguir faço um «Coisas da Vida» a falar do que vejo, aguentem-se. Isto tudo faz parte de mim. Para o bem e para o mal. É uma questão de respeito. Posso não gostar do que fazes, mas respeito-o porque acreditas no que fazes.
- O recado parece poder estender-se à indústria discográfica, ao chamado «meio musical»…
Boss AC - Sem dúvida. A desilusão que me acompanha é por demais evidente no álbum todo. É uma desilusão a todos os níveis, com a imprensa, a rádio, as editoras, os espectáculos, os espaços… É muito difícil sobreviver a fazer aquilo que gostas neste estado de coisas. Neste sentido, é um recado para quem quer ouvir, para os mais atentos.
- Usando palavras tuas inscritas neste álbum, de que forma isso se muda, o que é preciso para que as pessoas «abram a pestana»?
Boss AC - No caso específico desse tema, o «Baza, Baza», quis falar de uma coisa simples que acontece com muita frequência, que é o facto de as pessoas terem de mim uma ideia muito romântica. Desde o momento em que editas um álbum, quer queiras quer não transformas-te numa figura pública. Cria-se uma imagem, muitas vezes errada, de que a tua vida é um mar de rosas. Só por teres aparecido na televisão… Por causa disso, e como sou uma pessoa que cada vez sai menos, as pessoas pensam «o gajo agora é VIP, não se mistura». O que é completamente errado. Este álbum foi escrito numa altura muito difícil de minha vida, basta ouvir o álbum para perceber. Esse tema surgiu a partir de um comentário de um pseudo-amigo, de uma pessoa que devia saber melhor o que diz. Num dia em que estás mesmo em baixo, sem dinheiro, com problemas, chega-se ao pé de mim e diz: «Quem me dera ter a tua vida; estás como queres». Filho, abre os olhos! Isto não é um filme, estou no rap mas isto não é a MTV. Não tenho banheira de ouro, isto é o que eu faço para pagar as contas. Em relação ao panorama geral, é claro que estou descontente, como tu estarás como jornalista na área da música. O pessoal da rádio está descontente, os promotores estão descontentes, os técnicos de som estão descontentes, mas não se passa nada. A questão é «o que é que se passa aqui, que toda a gente reclama»? A única coisa que posso dizer é «abre a pestana». Se te fizer pensar dois minutos é uma vitória para mim. Um dos nossos objectivos na No Stress [empresa que Boss AC partilha com Gutto] é trazer de volta a música cantada em português. É uma atitude consciente e propositada. Vamos dar valor ao que temos, vamos deixar-nos de falsos preconceitos.
- Tenho a certeza de que o Boss AC artista não é o mesmo Boss AC com quem falei, há cerca de oito anos, a propósito de «Rapública». Como te vês hoje artisticamente? Musicalmente, evoluíste para onde?
Boss AC - Fui sempre no sentido da música. Tive a sorte de crescer no meio de muita música, de muitas influências. Há uma coisa que vês nos putos, que não censuro porque acho que a idade é um posto, que é o fundamentalismo – só vês rap e não queres mais nada. Isso é um disparate. Cada vez sou mais músico, sem deixar de ser rapper. E é isso que quero continuar a fazer. Uma das coisas que sempre disse e continuo a dizer é: «Não me interessam rótulos». Quero estar sentado, a fazer um beat que vai mais para a salsa e menos para o rap, e não me incomodar nada com isso. Não me interessa.
- Isso quer dizer que as palavras perderam importância?
Boss AC - Não, antes pelo contrário. Todas as linhas deste álbum foram pensadas. Mesmo as coisas em relação às quais as pessoas dizem «ele fez isto só para rimar» têm lá qualquer coisa dentro. Os mais atentos vão perceber. Cada vez dou mais importância ao que digo, e é como dizia no «Manda Chuva»: se não entendem o que digo, mais vale estar calado.
- Nesse sentido, é possível abrires-te mais do que fizeste?
Boss AC - Não, só se aparecesse de pilinha na mão. Toda a gente tem as suas fraquezas e acho que, no meu caso, a minha força é ser capaz de reconhecer as minhas fraquezas. Foi o que fiz. Tenho duas músicas tão pessoais que ponderei se deveriam ou não estar no álbum - «Mantêm-te Firme» e «Estou Aqui». Mas não sou um coitadinho, um caso isolado. Falo de coisas por que toda a gente passou, com que as pessoas se identificam. Em termos de mensagem, interessa-me ir para lá do público do hip hop. Isso interessa-me sobremaneira, porque não podemos minimizar o nosso papel enquanto músicos. Tenho a noção de que muito do meu público é jovem e permeável, pelo que prefiro que me oiçam pelo lado positivo, que vejam algo de importante no que digo
- Actualmente, depois de editares «Rimar Contra a Maré», sentes-te mais próximo, tanto em termos ideológicos como musicais, da milionária cena musical norte-americana ou da modesta mas visível cena underground portuguesa?
Boss AC - Mais uma vez te digo: não me interessam os rótulos. Não me interessa se é underground ou comercial, é rap à AC. No caso específico de «Rimar Contra a Maré», abstraí-me completamente de tudo o que se passava na música. Quis que as coisas saíssem todas de dentro de mim. Interessa-me é adequar a letra à música e criar um ambiente. Uma das razões de eu ser produtor é a vantagem de, a partir de uma letra, imaginar um instrumental. O que sou fica ao critério das pessoas. Não tenciono ser embaixador de nada. Sinto-me é mais próximo de mim, não me excluo de nada. Muitas vezes até sou excluído…
- Em que circunstâncias?
Boss AC - Ponho isto nestes termos: como gostam de dizer, sou luso-cabo-verdiano. Sou português mas em Portugal não sou completamente português. Vou a Cabo-Verde e não sou completamente cabo-verdiano. O mesmo se passa na música. A minha música tem uma tendência que pode agradar ao gajo que não é do hip hop como pode agradar ao gajo mais underground. Isso, para mim, até acaba por ser uma vantagem. Não quero cuspir em quem sempre gostou de mim no meio underground nem voltar as costas às pessoas que, não sendo rappers, se interessam pelo que tenho para dizer. Quero ver-me como um artista maior que faz aquilo que acredita.
- Antes da entrevista, disseste que Troy Hightower, que trabalhou contigo em «Manda Chuva» e em algumas faixas de «Rimar Contra a Maré», te pediu alguns temas em inglês para que ele os divulgasse nos Estados Unidos. Porquê a tua relutância?
Boss AC - Não quero ser o maior no teu bairro enquanto não for reconhecido no meu. É óbvio que tenho todo o interesse nisso, mas tenho os pés assentes no chão. Fiquei muito lisonjeado por alguém com o gabarito do Troy ter-mo pedido e incentivado a fazê-lo, porque ele acredita que tenho capacidades, mas por outro lado, se algum dia tiver que chegar aos Estados Unidos, quero poder dizer «eu, em Portugal, sou isto e fiz isto». Neste momento, quero trazer de volta a música portuguesa. Tenho a certeza de que há mercado e que as pessoas gostam. Quero combater preconceitos. Posso dizer as mesmas coisas que o Eminem, «fuck you» e «motherfucker», e os temas não passam em lado nenhum.
- Sentes-te vem se te colocarem no mesmo saco em que estão nomes norte-americanos como Timbaland ou os Neptunes, afamados produtores de hip hop e r&b?
Boss AC - Em termos estéticos, claro que sim. Nunca gostei muito de comparações, mas, por exemplo, quando fui a Nova Iorque e um dia o Troy mostrou uma cena minha a uma executiva da Geffen, ela virou-se e disse «tu és o Rakim português». Derreti-me todo porque o Rakim é o meu «all time favourite». Com os Neptunes não me identifico tanto, mas ao falares do Timba isso quer dizer que há pontos de referência. Fico lisonjeado, mas quero fazer uma coisa minha, porque tenho influências que eles não têm. Acabo por levar vantagem porque tão depressa faço um tema à Timba como samplo uma guitarra de Waldemar Bastos, como pego até no fado, como em «Ser Negro».
- Sem querer voltar às comparações, como é o Boss AC produtor?
Boss AC - Dou-te um exemplo muito prático das razões por que nos demarcamos do que se faz em Portugal. O hip hop feito em Portugal é 95% baseado em samples, enquanto que nós tentamos fugir cada vez mais aos samples. Usamos coisas nossas, originais. Quando usamos os samples, trabalhamo-los muito. E quando temos que recorrer a samples quero recorrer a coisas nossas, influências de África, coisas portuguesas. Gosto muito de James Brown, de Earth, Wind & Fire, mas não tenho interesse em samplar coisas que já foram sampladas mil vezes. Por isso sei que, um dia, se um gajo nos Estados Unidos ouvir o meu álbum vai ouvir samples que nunca ouviu e vai achar do caraças.
- Nisso tens uma visão muito próxima da do Sam The Kid…
Boss AC - Completamente. O que se faz, no fundo, é reciclar. O que fazemos é, se calhar, pôr uma geração que nunca ouviu Zeca Afonso a achar que aquilo que ele dizia até faz sentido. Como produtores queremos dar azo à nossa criatividade. Quanto mais original melhor.
Por Pedro Gonçalves para o "Blitz"
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