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H2T - HipHop TugaBoss AC (in "Blitz" de 27/12/1994)

  Durante o ano de 1994, o rap foi uma das coqueluches do panorama musical nacional. Depois das propostas de General D e Da Weasel, os últimos a tornarem públicas as ideias construídas à custa de vivências nem sempre fáceis foram os rapazes de «Rapública». Boss AC (na pele do próprio e do companheiro Cupid), uma das bandas do disco, falou ao BLITZ sobre o que está bem na cena musical, o que está mal e o que mudou depois de editarem dois temas. Tal como neles, a facilidade de expressão é nota dominante. Sobretudo a do Boss.

  - Achas que 94 foi, de facto, o ano para o rap português?
 
Boss AC - Em termos de divulgação foi, sem dúvida. Foi o ano em que foram lançadas as primeiras coisas em termos de hip-hop em Portugal. Da Weasel, General D, «Rapública»… Mas em termos de nascer o movimento, sem dúvida que não foi. Nós já estamos na estrada há muito. Isto ainda é um movimento que vai ter continuação, vai crescer.

  - Quando é que vocês começaram a fazer rap?
  Boss AC - Fazer mais a sério e dar concertos, há uns dois ou três anos. Mas fazer letras e pegar no «mic», já há uns cinco, seis anos.

  - Alguns tempos depois da «Rapública», achas que mudou alguma coisa nos horizontes dos rappers portugueses? Em que sentido? Têm novas perspectivas?
  Boss AC - Acreditamos mais que temos futuro. Era uma incógnita para nós saber até que ponto o pessoal ia reagir à «Rapública». Em termos globais, não em termos de nenhum grupo em particular, tem sido muito positivo, para o que se esperava. E se não foi mais positivo, foi por não haver promoção suficiente.

  - E porque é que faltou essa promoção?
  Boss AC - Pá, acho que podia ter mais. Dá-me a sensação que podia ter mais. Do lado da editora poderia ter mais promoção. Mesmo assim temos que nos dar por contentes com o que já temos. Agora é esperar que nos continuem a levar a sério, partindo do princípio de que isto é só uma apresentação. É preciso deixarem-nos provar o que somos capazes de fazer, porque o que está na «Rapública» não é tudo o que as bandas conseguem fazer.

  - Mas já é positivo para vocês que nunca tinham gravado nada chegarem e aparecerem na Sony.
  Boss AC - É positivo, é lógico. Mas isto é assim: não nos podemos iludir. É a Sony mas se não nos derem as condições necessárias… Entre uma editora que não é conhecida e nos dá as condições necessárias e a Sony que é muito grande e não nos dá as condições, quer dizer… Não quero dizer com isto que a Sony não nos dê. De futuro, não sei como é, se vamos ficar vinculados à Sony ou não. Mas se ficarmos com eles, vamos exigir melhores condições, é lógico.

  - Já existem propostas reais, tanto da Sony como de outras editoras, no sentido de editarem discos vossos?
  Boss AC - Já, já fomos contactados. Mas não convém especular ainda porque é um bocado prematuro.

  - Vocês Boss AC?
  Boss AC - Nós Boss AC, agora não estou a falar das outras bandas. Já fomos contactados e mesmo pela Sony é provável que continuemos.

  - Editoras grandes?
  Boss AC - A que nos contactou é grande.

  - Estavas à espera que o impacto de «Rapública» fosse maior ou, pelo menos, diferente?
  Boss AC - Eu acho que a cena teve um impacto bem grande. Nós não estávamos à espera de nos tornarmos Michael Jackson ou Prince de uma hora para a outra. Mas uma coisa é certa: as pessoas já nos conhecem. É reconfortante para nós ir na rua e ouvir as pessoas falarem do «Rapública». Por exemplo, nós fomos à «Zona +» e até irmos à televisão não tínhamos a noção que tanta gente via televisão. Parece que Portugal inteiro estava à frente do televisor naquele dia. Somos reconhecidos, somos felicitados por pessoas que passam pela rua e nem te passam pela cabeça, pessoas idosas e não sei quê. É bastante reconfortante.

  - E agora estão a fazer coisas novas ou estão parados à sombra de «Rapública»?
  Boss AC - Não, essa história de estar à sombra parece que não estamos a fazer nenhum e a viver disso. Estamos parados porque a situação não é a melhor, não há muitos concertos. Também por causa da fase do Natal, não é a altura mais propícia. Mas no virar do ano vamos atacar outra vez.

  - Têm temas para editar um disco sozinhos?
  Boss AC - Temos, à vontade.

  - Por exemplo, no «Generate Power», apareces uns furos acima da maioria das bandas que entram no disco. Porque é que achas que isso acontece?
  Boss AC - Essa pergunta não deves fazer a mim.

  - Estou a perguntar-te se é por seres melhor do que os outros ou porque a produção a isso levou.
  Boss AC - Não, até porque – e eu estou sempre a dizer isto nas revistas ao ponto de os outros membros de «Rapública» já pensarem «Porra, o Boss AC está a queixar-se» - o que se passa é que fomos os mais prejudicados na gravação. Por razões alheias à Sony, foi porque não estavámos no país na altura. Então viémos à última da hora e fizemos aquilo. Nem convém dizer em quanto tempo aquilo foi feito, porque é inacreditável o tempo em que as duas músicas foram gravadas.

  - Vá, diz lá…
  Boss AC - Pá, assim perdemos um bocado do crédito. Aliás, até nos pode dar crédito.

  - Exactamente.
  Boss AC - O «Generate Power» foi grvado e misturado em seis horas. «A Verdade» foi menos de quatro horas. Foi pôr a voz e pronto. Independentemente de ser bom ou ser mau, ideias não me faltam. Eu só quero ter oportunidade… Não vou estar chateado por o «Rapública» ter saído assim, estou muito contente com o disco.. Só espero é que numa próxima oportunidade tenha hipótese de mostrar o que valho. Porque assim sei que se as pessoas não gostarem é porque não gostaram e não porque não consegui mostrar o que queria. Não fazer porque não consegui é uma coisa, porque não posso é outra. Em termos do «Generate Power», temos recebido grandes elogios a esse tema. Ainda no outro dia, umas amigas nossas que só conheciam «A Verdade» chegaram ao pé de nós a dizer: «Ouvimos um tema na rádio que é muito fixe e se chama “Generate Power”. Sabes de quem é?». E eu disse «Porra! “Generate Power” somos nós!». Ela não queria acreditar, tive de lhe mostrar o «Rapública» para ela ver que não era um grupo americano ou inglês. É reconfortante porque nos dá força para continuar. E é isso que nós temos que provar, que não somos nem mais nem menos que ninguém. O que se faz lá for a, faz-se aqui. Só precisamos que nos dêem as condições.

  - Achas que o fenómeno Abrunhosa serviu para fazer sombra a uma possível explosão do rap, sobretudo o mais dançável? Ou são dois mercados diferentes?
  Boss AC - Acho que o Abrunhosa veio alargar o contexto musical português, o panorama. Independentemente de eu gostar ou não – e eu gosto, não concordo é que lhe chamem rap - , acho que foi extremamente positivo porque começou a habituar as pessoas a ouvir um estilo de música diferente, que não se ouvia em Portugal. Esse estilo de música que ele faz, esse acid-jazz e essas abordagens de leve ao hip-hop, não se ouviam em Portugal. Acho que 90 por cento das pessoas não sabiam que se fazia esse som cá. O Abrunhosa alargou e o «Rapública» está a reforçar. Esperemos que continue a reforçar.

  - Tu não vives propriamente num gueto ou num subúrbio. Sentes-te com a mesma credibilidade e legitimidade que os outros para fazer um rap de intervenção?
  Boss AC - Logicamente que sim. Nós somos tipo um jornal, estás a ver? Temos uma comunidade e vivemos numa situação que, às vezes, as pessoas não entendem. Somos africanos de segunda geração, temos tanto de África como de Portugal. Mas queremos integrar-nos tanto num como outro. Só que, às vezes, a comunidade portuguesa não nos quer aceitar como portugueses e a comunidade africana não nos quer aceitar como africanos. Então o que tentamos fazer é quebrar essas barreiras e afirmarmo-nos como um novo produto. Não rejeitamos nem uma cultura nem outra, queremos ter as duas culturas e criar uma cultura mais rica, que tenha um pouco de cada uma. Nós vemos o que se passa na rua, sentimos o racismo na pele. Não moramos no gueto e vamos sempre ao gueto, estamos sempre em contacto com o gueto. Eu não falo só de branco e negro. Não é preciso ir ao gueto para ver discriminação. Tu sais daqui e ali à porta vês uma pessoa a pedir. Só que as pessoas estão tão habituadas que já nem ligam. «A Verdade» foi positiva porque pôs as pessoas a pensar no que eu estava a dizer. Aquilo é uma música que tinha que gravar. Eu não gosto de ser catalogado como rapper de intervenção ou, porque faço mais ragga, gosto de ser mais polivalente. Mas tinha que dar uma mensagem. Se não a der, quem é que vai falar dos problemas da comunidade negra? Há pessoas que me vêm na rua e dizem: «Tu, de facto, tens razão».

  - Falavas à pouco de racismo. Vocês sentem isso directamente?
  Boss AC - Sentimos, às vezes de uma forma não muito explícita. O problema do racismo em Portugal é não ser explícito. As pessoas não encaram a questão e tentam arranjar bodes expiatórios. Dizem coisas do tipo: «Eu não sou raacista, até gosto de pretos». O nosso objectivo é chegar às camadas mais jovens que ainda são permeáveis. É mais fácil dizer a um jovem que estã errado. Para pensarem: «Espera aí, por eu ser branco não sou mais nem menos que ninguém». Ou por ser preto, amarelo, vermelho ou cor-de-rosa, isso não tem nada a ver. Não queremos mudar o mundo com o rap, mas que posso pôr o mundo a pensar, nem que seja por dez segundos, naquilo que disse, isso tenho a certeza. E está a ver-se.

  - O próprio rap não pode ser, por vezes, um convite à violência?
  Boss AC - Todo o tipo de música pode ser um apelo à violência. Se tu num fado estás a dizer «Morte aos pretos, morte aos pretos!», estás a apelar à violência. Não se pode é generalizar e dizer que o rap é uma música que apela à violência. Em Portugal, isso está for a de questão. Já quiseram associar o rap à violência, mas é uma falsidade tremenda. Nem o rap em termos de Estados Unidos pode ser visto dessa maneira. O artista X ou o artista Y é aquela, mas porque um gajo do rock é racista eu não vou dizer que o rock é racista.

  - Mas, por exemplo, tu não ouves falar do gahgsta-pop, ou o gangsta-jazz, não é? Existe o gangsta-rap que é isso mesmo.
  Boss AC - O gangsta-rap relata uma realidade que está a milhares de anos luz da nossa. Eu posso adoptar o gangsta-rap como som , o G funk, a batida, a melodia. Mas não posso adoptar a mensagem deles porque é uma coisa que não conheço. Às vezes dizem que nós imitamos os americanos por cantarmos em inglês, mas não tem nada a ver. A realidade de que falamos é uma realidade nossa. Nunca ia cantar «Shoot the cop» ou coisas assim porque é mentira, nunca matei ninguém nem tenciono matar. Isso é uma cena mesmo deles, mesmo americana. Eles têm uma realidade violenta. A pop não é uma música de intervenção. Em termos de estilos, o rap deve ser dos tipos de música que tem mais estilos, como o heavy metal. Temos o cool, o hard-core, o free style, o old school…

  - E vocês incluem-se onde?
  Boss AC - Nós estamoa a criar o nosso estilo. Um estilo versátil, somos polivalentes. Quero fazer um pouco de tudo, faço hip-hop, sou livre, sou uma ave. Vôo por todos os lados, toco um bocadinho de tudo, gosto da vertente do jazz, bem patente em «A Verdade», gosto da vertente hard-core, do G funk, mais cool. Temos ragga, inclusive, cantamos em português, em creoulo, tenho letras um bocadinho em francês. Eu, o que me der na cabeça, faço.

  - Achas que existe em Portugal uma cultura de rua?
  Boss AC - É a nossa. A nossa cultura é de rua. O que se passa em Portugal é que os focos estão dispersos, não há ligação. Tu tens os problemas do teu bairro e eu tenho os meus. Não há maneira de dares a conhecer o teu lado, a tua maneira de ver as coisas. Aí é que o rap entra, nós faazemos as pessoas verem a realidade de um ponto de vista diferente.

  - Essa cultura ensina alguma coisa ou não?
  Boss AC - Ensina a ver a vida com outros olhos.

  - E como é que vocês vêem a vida?
  Boss AC - Isso depende de pessoa para pessoa. Nós falamos da rua porque, em termos de rap, começámos todos na rua. Cantávamos todos na rua com um gravadorzinho, dançávamos, fazíamos as nossas cenas. Essa cultura não tem a mesma força que tem a francesa ou a americana mas com o tempo lá chegaremos, espero. O rap tem cada vez mais força, o pessoal do skate já ouve, o pessoal do surf também.

  - E como é que tu explicas que isso aconteça, dado que não era comum?
  Boss AC - Porque ouvem mais, estão mais habituados.

  - Mas isso não significa que gostem.
  Boss AC - Desportos radicais associam-se à música radical. No pessoal do skate há muita gente a gostar.

  - Se calhar porque tem que ver com a rua.
  Boss AC - Exactamente, era o que eu ia a dizer. São coisas interligadas, como a cultura do graffiti – que não há muito em Portugal, o breakdance, o rap…

  - Como é que explicas que, em Portugal, apenas o General D ou os Family vão às raízes afro buscar inspiração?
  Boss AC - Achas? Nós não nos podemos catalogar pelas duas músicas que temos, temos um bocadinho de tudo, temos temas puramente africanos. Temos letras cantadas em creoulo também, estás a ver? Nós nunca nos esquecemos da nossa cultura, percebes? Mantemos sempre vivas as nossas tradições, estamos sempre em contacto com Cabo Verde – estivemos lá este ano -, ouvimos música tradicional cabo-verdiana… Por isso não se justifica dizer que nós não…

  - Mas o General D é o que faz isso mais assumidamente, não é?
  Boss AC - Ele proprio se descreve como um afro-rapper. Eu faço rap, hip-hop. O que eu chamo hip-hop é: eu dou as minhas rimas e o que estiver por baixo, está-se bem. Topas? É o que eu digo: ideias não me faltam, é preciso é ter calma, tempo e trabalho. Quando tiver oportunidade, vou fazer coisas que não passam pela cabeça de ninguém. Vou misturar música tradicional cabo-verdiana com rap, vou samplar cenas portuguesas, os franceses fartam-se de fazer isso com cenas francesas.

  - Gostavas de pegar em quê?
  Boss AC - Em coisas tipo Amália, coisas que não têm nada a ver com rap. Não estamos de olhos fechados.

  - Mas vocês gostam disso ou é uma opção estética para criar um novo espaço?
  Boss AC - Eu gosto disso, estás a ver? Andamos a ouvir coisas de estilos muito diferentes. Ultimamente temos ouvido música clássica, fado. Se disseres isso à malta jovem, ela ri-se. Nós somos uns malaicos do caraças. As minhas influências são quase todas de música negra, soul, reggae, hip-hop, isso é o que eu oiço. O que não quer dizer que eu não possa ouvir outras coisas.

  - Existe já uma escola rap portuguesa como, na Europa, existe a inglesa e a francesa?
  Boss AC - Eu tenho uma letra que diz que venho da velha escola. Mas que velha escola é essa, donde é que vem a velha escola? Refiro-me à escola cool, àquela batida. Acho é que é um bocado prematuro dizer que existe uma escola rap portuguesa. Há-de haver, deixa sair uns dois ou três discos de dois ou três grupos e aí já podes dizer isso. Nós queremos criar o nosso estilo.

  - Como é que prevês o ano de 95 para o rap português?
  Boss AC - Eu não vou fazer uma previsão, mas um desejo. Espero que o ano de 95 seja um ano positivo para o rap, espero que surjam álbuns de rap, hip-hop, . É preciso é que nos dêem espaço. Estou com uma vontade de ter um álbum que tu nem acreditas. Ao mesmo tempo tenho calma, não vou pôr o carro à frente dos bois, já estou à muito tempo na estrada e só agora é que tivemos oportunidades. Tão cedo não vamos desistir. Estou mesmo com vontade de ter um álbum. Vou lá pôr tantos estilos de rap diferentes que acho que vai ter que se chamar «Tutti Frutti». Vamos desde o free-style ao cool. Eu sou o Boss AC e ele é o Cupid. No que toca ao rap, temos uma identidade diferente. Quando pegamos no «mic» somos outras pessoas.

  - E o vosso ano de 95, como é que o vêem?
  Boss AC - Esperamos que com um disco. Desejo a maior sorte a todos os grupos e a nós também, como não podia deixar de ser. Esperemos que surjam mais oportunidades. Tem que começar a haver intercâmbio, também. Do estilo tu gravas com aquele, aquele grava contigo. Vir um gajo do rock a dizer que quer um tema em que apareça um bocadinho de rap, estás a ver? Isto são coisas positivas, se tiver um álbum vou querer convidar bué de gajos.

  Por Pedro Gonçalves para o "Blitz"

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