Bomberjack: O hip-hop mostra a sua raça
O hip-hop nacional mostra a raça com projectos como este do DJ Bomberjack. O cd lançado este ano, “Bomba Relógio”, conta com as participações de nomes como Fuse, Martinêz, Melo D e Sam The Kid. Bomberjack é a prova de que o hip-hop português está vivo e com tendência para ir ganhando cada vez mais projecção, força e, sobretudo, interesse. Só faltam as editoras.
– Como surgiu o teu gosto pelo hip-hop?
Bomberjack – Começou com o MTV Raps e com bandas como Public Enemy.
- Como é que transpuseste esse gosto e influências para um projecto mesmo teu?
Bomberjack – Em 93/94 comecei a descobrir o hip-hop e decidi partir para uma compilação com os temas que mais me interessavam. Passei as músicas que gostava para uma cassete para ouvir no walkman. Depois conheci um dj inglês que já fazia coisas com mix tape e scratch e, a partir daí, decidi fazer uma coisa parecida para o meu primeiro trabalho, que foi o “Underground Music Scene”, que saiu em 1994. Foi a primeira mix tape cá em Portugal. Depois parti para outras mix tapes e fui sempre exigindo mais de mim e a convidar sempre cada vez mais gente, até que tive cerca de 70 músicos. Foi uma boa oportunidade para lançar mc’s no mercado nacional.
- O teu trabalho enquanto produtor tem sido relegado para segundo plano. Neste cd, “Bomba Relógio”, reuniste uma série de mc’s e assumiste o trabalho de criador e produtor em nome próprio. Um disco como este que lançaste cai bem no público português?
Bomberjack – Eu sei que o pessoal do hip-hop gosta deste tipo de trabalho porque foi feito para eles. Mas penso que nesta compilação é possível encontrar vários tipos de sons. Quem ouvir vai gostar de um ou outro tema. Tens participações muito variadas desde o Sam The Kid até ao Melo D.
- Como é que escolhestes estes mc’s para participar no teu disco?
Bomberjack – Somos todos pessoas do meio que nos fomos conhecendo. A amizade surgiu e o convite aparece.
- Como é que surge a editora Edel em todo este processo?
Bomberjack – A Edel não é a única editora a apostar no hip-hop, hoje em dia já há mais, embora mais independentes. Como é que a Edel apareceu... vi o trabalho que fizeram com Sam The Kid e Chullage e achei que o podiam fazer também comigo. E como não havia muita oferta na altura achei preferível apostar na Edel.
- Andaste a fazer alguns showcases nas lojas Fnac. Como é que sentiste o público fora de Lisboa?
Bomberjack – Penso que as pessoas aderem muito facilmente porque este projecto tem bons mc’s, bons instrumentais, bons scratchs... por isso, não há nada que impeça o público, independentemente de onde vivem, de não gostar.
- O hip-hop em Portugal tem vindo a crescer em quantidade e em qualidade. Achas que o hip-hop tem potencial para sair lá para fora e conquistar alguns mercados internacionais?
Bomberjack – Só não percebo porque é que os nossos trabalhos ainda não são vendidos lá fora, no Brasil, nos países africanos de língua portuguesa e até mesmo aqui ao lado no mercado espanhol. Eu estive em Espanha e nem parece que estamos tão perto. Lá ouve-se Mind da Gap e Bomberjack. Mas a língua ainda é um problema para os dois lados. Por exemplo, o pessoal do Porto aceita melhor o hip-hop espanhol do que o pessoal de Lisboa.
- O facto de não se apostar mais em Espanha passa pelo facto de não haver editoras fortes em Portugal?
Bomberjack – Actualmente, não há editoras grandes a apostar no hip-hop nacional. A Edel aposta mas tem características mais de distribuição do que de edição. Mas vão ter que abrir os olhos porque estão a surgir muitos bons trabalhos nesta área.
- O que é que achas dos projectos que têm surgido no hip-hop nacional?
Bomberjack – Acho que a qualidade é cada vez maior, assim como a preocupação em apresentar trabalhos bem produzidos. O nível já está bastante elevado.
Por Artur Silva e Jorge Oliveira para www.divergencias.com
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